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Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2018
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O imponderável que nos espreita nas esquinas da vida

Mas o imponderável, outra vez, veio para advertir que nada é definitivo, seguro, irrevogável. Há que sopesar o que não está nos planos, o que é imprevisto, o que se dá à revelia da vontade.

Paulo Clóvis Schmitz

Desastres fazem parte da vida, mas quando se abatem sobre os outros parecem menos doloridos. No dia em que um homem que sustentava meia dúzia de filhos ficou embaixo de uma tora de cedro que caiu no lado errado, amassando seu corpo contra o chão, todos lamentaram a perda, pois derrubar madeira era permitido e não se costumava levar em conta o imponderável. O tronco despencou em cima do quem nasceu para serrar, serrar sempre, ferindo a floresta porque era preciso viver, comer, vestir-se e, sendo possível, divertir-se com o vinho barato das festas do interior.

Quando o rio subtraiu a vida de uma jovem que a ninguém importunava todos choraram a perda e tentaram entender por que a pouca correnteza arrastara um corpo tão viçoso e saudável. Mas a ninguém é permitido ignorar que a água é sempre traiçoeira, seja no rio, seja no mar, seja numa lagoa rasa. Aquele rio portentoso, imponente, parecia inofensivo aos olhos dos adolescentes que resolveram fazer ali, na sombra das árvores, um prosaico piquenique. Mas o imponderável, outra vez, veio para advertir que nada é definitivo, seguro, irrevogável. Há que sopesar o que não está nos planos, o que é imprevisto, o que se dá à revelia da vontade.

Quando uma discussão aparentemente banal resultou na morte de dois sujeitos pacatos, sem passado na polícia e estimados na comunidade, a cidade inteira ficou sem entender a razão dos disparos e de medida tão radical. Briga causada pelo alto custo de um serviço prestado, por um remédio mal receitado, por uma discussão que feriu os brios deste ou daquele? Um detalhe qualquer foi fatal para dividir o passado recente de vida em profusão e o presente que passou pela delegacia e terminou no cemitério.

Quando uma arma dispara do nada e fere de morte um caçador, a quem atribuir a culpa? Ao destino ou à imprudência de quem desdenhou a tragédia anunciada? Sim, ele carregava uma espingarda e tropeçou em uma árvore estendida na trilha da mata. Mas por que ali, e com ele, e naquele domingo de sol?

O imponderável, definitivamente, comanda a nossa existência. Por isso, é bom não duvidar de nada, achar-se o tal, o que paira acima do bem e do mal. O imprevisível nos espreita logo ali, na esquina, na calçada, na sinaleira, no bar, na escada, no corredor...

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