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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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A expectativa de um inesperado reencontro com as origens

Que venha dezembro, então, e que não nos sintamos constrangidos com os cabelos brancos de uns, com a calvície avançada de outros, com quem engordou e com quem arrasta um esqueleto magérrimo.

Paulo Clóvis Schmitz

Nesse feriado, por razões que não domino, fiquei impossibilitado de viajar, como fiz no ano passado, ao encontro das origens, do reduto natal, de gente da minha casta, de paisagens que não descolam das paredes da memória. Foi por esses dias que em outubro de 2015 topei cruzar o Estado para ir a uma despretensiosa festa de igreja, daquelas que só o interior sabe promover. Foi a oportunidade de rever pessoas estimadas e outras de parca lembrança anterior, porque seguiram rumos distintos e destinos opostos, dos pontos de vista geográfico e profissional. A lamentar que de lá para cá dois primos se foram, ambos por acidentes de carro, ambos esbanjando saúde. Fazer o quê?

Agora, compromissos inadiáveis e dinheiro curto me impedem de repetir a aventura. No entanto, quando já pensava em planejar o retorno para 2017, eis que surge o convite para reencontrar, no começo de dezembro, o grupo que se formou junto no segundo grau, na mesma cidade, e retomar contatos, reavivar lembranças, conhecer as rotas que o mundo traçou para gente que foi pioneira em se graduar no nível médio naquele recanto sossegado, pacato, de dias e noites sem surpresas.

Ao conversar com um dos promotores do encontro, por telefone, me surpreendi com a naturalidade do diálogo, com a fala desprendida, como se não fossem quatro décadas a nos separar dos mesmos bancos escolares, da mesma formatura, do mesmo quadro de fotos com colegas e professores. O papo foi sobre os amigos que estão por lá e os que enfurnaram no Mato Grosso, e sobre o que havia entre as esquinas de antanho, hoje tomadas por casas e pequenos prédios. O milharal das hortas, os pés de laranjeira, os caquis e gabirobas deram lugar ao piso e ao concreto – mas as imagens estão lá, nos arquivos pessoais e no Facebook, a denunciar os controversos efeitos do progresso.

Que venha dezembro, então, e que não nos sintamos constrangidos com os cabelos brancos de uns, com a calvície avançada de outros, com quem engordou e com quem arrasta um esqueleto magérrimo. Se tudo mudou, o certo é que nos deixamos levar pelo turbilhão, perdendo a chance de sentar à margem para ver, impassíveis, o redemoinho a tudo arrastar. Quando dezembro vier, cairá o pano e veremos o que o mundo, para o bem ou para o mal, fez com a gente.

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