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Youtuber de Florianópolis do canal "Vai uma mãozinha aí?" fala sobre deficiência

Mariana Torquato, que está cursando a segunda faculdade na UFSC, pretende mostrar sua própria realidade, como o vídeo em que aprende a andar de stand up paddle

Karin Barros
Florianópolis
01/11/2016 às 11H00

É recente, mas a florianopolitana Mariana Torquato, 24, está fazendo bastante barulho na internet com o canal no YouTube “Vai uma mãozinha aí?”. Ser youtuber atualmente pode parecer moda, mas Mariana vem parar na tela do seu computador e do seu celular para levar questões importantes relacionadas às pessoas com deficiência física. A jovem, que é formada em administração empresarial pela Esag/Udesc, cursa a 5ª fase de ciência e tecnologia de alimentos na UFSC e trabalha como técnica administrativa na mesma faculdade. Ela não tem o antebraço esquerdo e há um mês decidiu discutir publicamente assuntos relacionados à deficiência física e expor a própria vida.

Mariana Torquato - Flavio Tin/ND
Mariana tem o canal há um mês e foi influencia por amigos - Flavio Tin/ND



Mariana foi vítima da Talidomida, um medicamento criado na Alemanha na década de 1950. Segundo a ABDT (Associação Brasileira de Portadores da Síndrome da Talidomida), o uso desse remédio causou milhares de casos de uma síndrome caracterizada pela aproximação ou encurtamento dos membros junto ao tronco do feto. A família da jovem só descobriu sua deficiência ao nascer. “Os médicos disseram para a minha mãe me colocar em natação, em coisas que fortalecessem o meu braço para não ficar tão diferente do outro. Quando eu fui crescendo que fui notando que eu era diferente, em movimentos simples, como bater palma ou amarrar o tênis”, diz Mariana.

No canal, que tem quase sete mil inscritos e 80 mil visualizações, ela traz vídeos com títulos que atraem deficientes ou não, como “O quê aconteceu com o meu braço?”, “Deficiente faz sexo?”, “Recado para a Vogue” e “João Dória e as crianças defeituosas”. Até hoje, o mais acessado foi a história de seu próprio “bracinho”, como ela mesma carinhosamente o chama. Mariana trata ironicamente, despretenciosamente e com muito bom humor e consciência de assuntos que a sociedade faz serem delicados, mas que deveriam ser expostos com maior naturalidade para não serem vistos com tanta estranheza por quem não tem deficiência.

A jovem afirma que hoje consegue categorizar exatamente cada olhar que recebe em direção ao seu braço, e que procura retribuir da mesma forma quem olha, seja com surpresa, curiosidade ou pena. Ela já teve seus momentos de negação, de não entender “por que comigo?”, e até já usou prótese concedida pelo SUS por um ano, mas não se adaptou. “Com uns 15 anos eu acordei e pensei ‘eu vou ser assim para sempre, o quê eu vou fazer com isso?’, e fui trabalhar na Fundação Catarinense de Educação Especial e lá conheci todos os tipos de deficiência. Consegui ver que eu servia de exemplo para muitos deles, que viam que eu era diferente, mas que estava ali trabalhando para eles”, relata ela.

A mãe também foi fundamental no processo de aceitação da deficiência. “Minha mãe sempre me deu funções, falava que eu sempre poderia fazer tudo, e que tudo que eu não puder é porque eu não quero, como por exemplo andar de bicicleta, que eu não aprendi porque tenho medo”, brinca. Hoje, ela fica espantada com a atitude da filha na internet em relação a alguns assuntos, mas apoia a causa. “O negócio é não vestir uma camisa do que você não quer ser. Eu nunca vesti a camisa de coitada. Com 18 anos fiz minha carteira de motorista”, pontua. 

Mariana Torquato - Flavio Tin/ND
A jovem já trabalhou na fundação que atende deficientes físicos e viu que servia de exemplo a eles - Flavio Tin/ND


“Vogue” foi mola propulsora

Mariana Torquato foi motivada pelos amigos a fazer vídeos. “Eles falavam que tinha coisa que eu fazia melhor que eles. Eles ‘ficam de cara’ como eu digito rápido, e diziam que eu tinha que mostrar isso, mas eu não me imaginava me expondo dessa maneira”, lembra ela. Porém, com o tempo, viu que seu movimento poderia beneficiar pessoas deficientes que não vivem tão bem quanto ela, e ajudaria a expor a realidade da causa. “As pessoas não tem empatia pelo deficiente. Não se vê cadeirante fazendo novela, propaganda, teatro. Quando tem, é muito aquela coisa do capacitismo. Elas não têm a cabeça aberta para isso, e eu quero conscientizar essas pessoas”, afirma.

A conversa com os amigos foi no ano passado, mas este ano, com a Paralimpíada, o assunto se mostrou mais urgente para ela, principalmente depois da capa da revista “Vogue” com os atores Cléo Pires e Paulinho Vilhena com Photoshop, como se fossem atletas deficientes. “Aquilo não me representava, não representava ninguém. Tem tanta gente deficiente bonita, gente que realmente luta por isso. E eles ainda foram eleitos embaixadores do evento. Poderia ser pelo menos alguém que tenha uma empatia com o assunto, que tenha um filho ou alguém que represente”, explica ela sobre o primeiro vídeo publicado, que teve 700 visualizações em dois dias.

Os vídeos, em parceria com Marcella Di Santi, 19, responsável pela edição, vão ao ar toda quarta-feira, às 18h. Mariana afirma que desde a primeira publicação vem recebendo diversos feedbacks, sejam positivos ou negativos, e que está conhecendo muita gente deficiente legal e que quer expor suas histórias. “Eu não faço roteiro, não planejo o que eu vou falar. Eu vejo na hora sobre o assunto, e hoje estou muito mais atenta ao que acontece em relação aos deficientes no país”, diz.

A ideia de Mariana, além de levantar assuntos polêmicos, é mostrar a sua realidade. Uma delas é o vídeo aprendendo a fazer stand up paddle. Em breve, ela irá fazer um novo, só que desta vez com um remo adaptado. Também falará sobre as aulas de violão, que iniciou e está gravando todas. A jovem procura deixar bem claro também que seus vídeos não são de autoajuda, mas que procura “desmistificar, quebrar esse paradigma do deficiente ser um coitado, não estar incluído, não ter voz em nenhuma plataforma de comunicação, e a internet é democrática”.

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