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Quinta-Feira, 20 de Setembro de 2018
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Wilson do Rio Apa fez história dirigindo montagens teatrais nas dunas da Lagoa, em Florianópolis

Escritor e dramaturgo vive hoje na Pinheira, onde ainda mantém ativa a escrita

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
Marco Santiago/ND
Ele deixou marcas na Capital, mas fez muito mais do que isso numa vida dedicada à arte, com 25 livros publicados


Jesus estava amarrado e enfrentava um irredutível Pôncio Pilatos, alcaide e dono da lei num século de intolerância, quando um grupo de quase 50 crianças despencou das dunas para salvar o homem cujo destino, todos sabiam, seria a crucificação. A cena não estava no script e precisou ser abortada pela plateia, extenuada (e extasiada) com o ritual em curso desde o dia anterior. O local eram as areias entre a Lagoa da Conceição e a praia da Joaquina, e a ocasião era a Semana Santa de 1978, quando o escritor e dramaturgo Wilson Galvão do Rio Apa exibia ao ar livre, pelo quarto ano consecutivo (dois deles no Paraná), a montagem “A paixão de Cristo segundo todos os homens”. Sete mil pessoas, por baixo, assistiram ao espetáculo naquele fim de Quaresma.

Esta passagem, descrita com riqueza de detalhes, dois dias depois, pela jornalista Eloá Miranda em “O Estado”, revela um pouco da ousadia de Rio Apa, que morou durante uma década em Florianópolis e hoje vive na praia da Pinheira, em Palhoça. Ele deixou marcas na Capital, mas fez muito mais do que isso numa vida dedicada à arte, com 25 livros publicados. “Ele trazia seus atores de fora, assim como a estrutura para os espetáculos, mas respeitava muito o nosso trabalho e nos procurava para conversar e conhecer o que fazíamos”, conta a diretora de teatro Carmen Fossari, que então já estava à frente do Grupo Pesquisa Teatro Novo, vinculado à UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Durante dez anos, Rio Apa levou a montagem iconoclasta e repleta de referências ao mundo moderno para as dunas da Lagoa e às praias dos Ingleses e do Santinho. Entre os quase 300 integrantes do elenco estava o futuro escritor Cristóvão Tezza, que morava com o dramaturgo numa residência onde todos eram bem-vindos, desde que tivessem afinidade com a arte. Apa, guru de Tezza, mereceu o seguinte comentário do autor de “O filho eterno”, que escreveu sua dissertação de mestrado na UFSC, em 1987, sobre um livro do mestre: “Para um final de século tão esterilizado de sonhos como este que vivemos, as trilhas seguidas por ele permanecem vivas como um contraponto necessário que tem muito a nos dizer”.

De esgrimista a marinheiro

Anarquista assumido, na arte e na vida, Rio Apa começou rompendo com a família aristocrática quando, após concluir o curso de direito no Paraná, foi ser esgrimista e jogar futebol profissional no Água Verde, clube de Curitiba onde permaneceu apenas um ano porque “me sentia um perna de pau”. Depois, já enfadado com a cidade grande, procurou o mar e empregou-se como trabalhador braçal num navio que fazia viagens ao Oriente. Virou marinheiro, conheceu 46 cidades e chegou a ficar um mês ‘perdido’ em Singapura. “Esse lugar se tornou alguma coisa especial para mim”, conta hoje, aos 89 anos.

Nas viagens, tomou contato com as culturas japonesa, coreana e hindu e exercitou as habilidades com o texto, como “jornalista tripulante”, fazendo mais de 50 reportagens com relatos de lugares e pessoas para “O Estado do Paraná”. A bordo, inquieto como sempre, lia Nietzsche e Schopenhauer, que ajudaram a moldar seus gostos e seu desapego das coisas materiais. Os livros vieram ao natural, e foram publicados por editoras de pequeno porte e por outras com o prestígio da Brasiliense e da José Olympio. São romances, poemas, contos, ensaios e peças de teatro que tornaram o autor uma referência sobretudo em São Paulo, onde nasceu, e no Paraná, onde passou as fases mais efervescentes de sua carreira.

O gosto pelo isolamento, pela distância dos ruídos da cidade, levou Rio Apa a morar em diferentes ilhas e a cruzar o Brasil de motorhome. A ilhota de Gererê, no litoral paranaense, foi uma de suas paradas, onde se amalgamou à natureza e suportou o único vizinho, “um contrabandista espanhol que matou os meus cachorros”. Contar com liberdade para escrever deu bons resultados, e ali ele gestou a tetralogia “O povo do mar e dos ventos antigos”. Depois, já casado e com dois filhos, se instalou na ilha das Cobras, na baía de Paranaguá, onde a editora José Olympio o encontrou para propor a edição de “A revolução dos homens”. O livro era uma crítica ao regime ditatorial, e Apa foi interrogado, embora tenha conseguido continuar no paraíso que escolhera para viver.

Depois de uma curta passagem pela ilha de Cotinga, também em Paranaguá, ele se transferiu para Antonina, onde se aproximou dos pescadores e do povo que sempre considerou mais digno de respeito que os moradores urbanos. Durante cinco anos, investiu no talento artístico desses nativos, até se mudar para Florianópolis, em meados dos anos 1970.

Espetáculo de grande força emocional

A decisão de se isolar na Pinheira, onde está há mais de 20 anos, faz sentido mesmo para um paulistano nascido nas imediações da praça da Sé. “Sempre procurei nos lugares tranquilos, perto da natureza, o sossego para escrever”, diz Wilson do Rio Apa. Ali, já não travou a luta contra os intermediários que exploravam, anos antes, os pescadores da região de Paranaguá. Encontrou homens mais rudes, curtidos pela labuta no mar aberto, e por isso não teve êxito na tentativa de montar a “Paixão” com os moradores locais. “Os pescadores trazem para a terra problemas que pareciam não existir nas colônias de mar abrigado do Paraná”, afirma. “Quem sai pelo mar a fora, como aqui, ganha uma maneira de ser entre solitária e arrogante”, deduz.

Marco Santiago/ND
Rio Apa prepara outros dois livros


Da passagem por Florianópolis, Wilson Rio Apa lembra da repercussão popular e de mídia das grandes encenações que fazia, e diz que a cidade “recebeu muito bem aquela experiência”. Atores e público se confundiam num ambiente que incluía tochas acesas à noite e um sol escaldante durante o dia, num cenário entre místico e deslumbrante, de grande força emocional. O espetáculo começava na quinta-feira à noite e se estendia até o final da tarde da Sexta-feira Santa, com a crucificação na hora do pôr do sol. Na época, Apa explicou à reportagem do “O Estado” o sentido daquela iniciativa: “A cada ano, procuramos o Cristo que seja uma síntese humana, porque o Cristo que buscamos é o mundo dos homens”.

Era comum ver pessoas chorando ou carregando cruzes que a produção colocava em pontos a caminho do calvário, mesmo sem a anuência dos padres da Lagoa, que tentaram proibir o espetáculo alegando que ele tirava os fiéis da igreja num período de grande importância para os católicos. “Está errado”, disse um popular ao falar da postura dos padres, “pois a igreja hoje é aqui”. A montagem, sem texto fixo e feita sobre um roteiro básico das cenas principais, provocava reações inesperadas. Rio Apa conta que, antes do início, populares chegavam a se dirigir a Jesus pedindo que ele batizasse seus filhos. Para a diretora Carmen Fossari, ele “foi fundamental naquele momento na cidade”.

Descrente, mas na ativa

Se nada publicou durante os anos de Florianópolis, e se abandonou as grandes montagens, Rio Apa passa os dias escrevendo em sua casa da Pinheira. “Assalto ao palácio” é um dos livros que prepara para lançar este ano.

O escritor também prepara outros dois livros, “Considerações sobre o viver” e “O velho e a donzela”, que se juntarão a mais de duas dezenas de obras já publicadas, como “A revolução dos homens”, “O povo do mar e dos ventos antigos”, “O menino e o presidente” (que teve 25 edições) e “No mar das vítimas”, além de ensaios e peças de teatro.

Dos episódios que o marcaram, Rio Apa lembra do encalhe de um barco em Abrolhos, na Bahia, onde quase perdeu a vida, do casamento com Esther (que já morreu), do nascimento e do crescimento dos filhos Thor e Kim, , que “se tornaram excelentes atores”. No mais, se diz descrente com a história, as artes e a literatura. “Ainda bem que há o ‘eterno retorno’ de Nietzsche, que me serve de consolo”, finaliza.

O último alerta de um xamã
Leon de Paula (*)

O que mais me emocionou, nas vezes em que estive com ele, foi sua lucidez a respeito deste mundo que, habitado por seres humanos, é desabitado de humanidade. Pelas suas obras, Rio Apa nos fala de um mundo possível, outro, diverso desse em que estamos imersos, que existe e está fora do círculo vicioso sugerido (e muitas vezes aceito) por esta sociedade que decidiu ser ocidental, asséptica, uniformizadora e massacrante.
A voz de Rio Apa, através de seu trabalho artístico (seja na literatura de ficção, nos manifestos anarquistas, no teatro, no radiodrama, em roteiro de cinema, na poesia em si), me parece soar como o último alerta de um xamã para esta sociedade que está em vias de se perder completamente, enfeitiçada por tudo aquilo que lhe possa descaracterizar e aniquilar. (...)

A iniciativa de Rio Apa possibilitou que, a partir das décadas de 1980 e 1990, o teatro realizado pelos grupos de Florianópolis apresentasse outros níveis de questionamento social-político-estético a respeito do que ocorria na própria cidade.


*Ator e autor da pesquisa de mestrado “Ecos dos sermões – A paixão segundo todos os homens”, defendida no programa de pós-graduação em teatro e publicada em 2012 pela editora da Udesc

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