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Vida e carreira de Elis Regina estão em filme que estreou esta semana nos cinemas do país

Com Andreia Horta no papel, produção refaz a trajetória da cantora que partiu cedo, mas em tempo de mudar o cenário da música brasileira

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
25/11/2016 às 18H58

Ninguém que tenha cruzado com Elis Regina passou incólume pela experiência. Isso se aplica aos músicos com quem trabalhou, aos compositores que tornou célebres, aos homens que amou, ao público que a viu nos palcos. Agora, para quem teve o privilégio de assisti-la e para os neófitos no tema Elis, surge a oportunidade de reviver as emoções ou quitar a dívida por meio do longa-metragem que leva seu nome e que está nas telas grandes do país desde quinta-feira, dia 24. “Elis”, de Hugo Prata, tenta mostrar em menos de duas horas uma trajetória que daria, no mínimo, uma série, quem sabe uma novela. E como convém à personagem, despachada e sanguínea, o filme também divide opiniões. Cabe ao público arbitrar e dar o parecer, o veredito definitivo.

A atriz Andreia Horta impressiona pela semelhança  na cinebiografia de Elis - Divulgação Elis/ND
A atriz Andreia Horta impressiona pela semelhança na cinebiografia de Elis - André e Carioba/Divulgação/ND

Na cinebiografia estrelada pela atriz Andreia Horta (de impressionante semelhança física com Elis), o turbilhão que foi a “Pimentinha”, apelido dado por Vinícius de Moraes, é apresentado em toda a sua exuberância, sedução e complexidade. “Fazer esta síntese foi a parte mais difícil, porque é uma representação da história de Elis e da história dos que falam sobre ela”, diz por telefone o diretor Hugo Prata, que está estreando em longa-metragens. “É um recorte de 18 anos na sua vida, com os conflitos da época, os dramas pessoais, aspectos do cenário político e social que definiram a artista em que ela se transformou. Acho que outros filmes precisam ser feitos, porque a existência e a carreira dela foram muito ricas”.

As canções são dubladas, porque não haveria como esperar de Andreia Horta algo parecido com a voz inigualável de Elis. Músicas como “Arrastão” (de Edu Lobo e Vinicius de Moraes), “Velha roupa colorida” (Belchior), “Atrás da porta” (Francis Hime e Chico Buarque) e “O bêbado e a equilibrista” (João Bosco e Aldir Blanc) desfilam pelo filme e servem para costurar as diferentes e tumultuadas fases da trajetória da cantora. No último Festival de Cinema de Gramado, “Elis” levou os prêmios de melhor atriz, melhor montagem e melhor filme do júri popular, e no Festival do Rio os aplausos entusiasmaram a equipe de produção.

Importantes na sua vida, mas secundários diante da grandeza da protagonista, aparecem personagens como Ronaldo Bôscoli (o primeiro marido, vivido por Gustavo Machado), Cesar Camargo Mariano (segundo marido, feito por Caco Ciocler), Nelson Motta (Rodrigo Padolfo), Miele (Lucio Mauro Filho), Lennie Dale (coreógrafo americano que foi seu professor de expressão corporal, interpretado por Julio Andrade) e a cantora Nara Leão (Isabel Wilker). Elis nasceu em 1945 em Porto Alegre e morreu em janeiro de 1982 em São Paulo, aos 36 anos, vítima de uma overdose de drogas. Até hoje não surgiu alguém com a sua extensão vocal, o que a torna, para muitos, a maior de todas as cantoras brasileiras.

Filme é um recorte de 18 anos, os mais intensos, na vida da cantora - André e Carioba/Divulgação/ND
Filme é um recorte de 18 anos, os mais intensos, na vida da cantora - André e Carioba/Divulgação/ND



Um poço de talento, conflitos e paixões

Em entrevista dois dias antes da estréia, o diretor Hugo Prata disse que vivia uma sensação “gostosa de experimentar”, apesar do “frio na barriga”. O filme já havia sido exibido (e premiado) em Gramado, no Rio de Janeiro e em Chicago, e teve pré-estréias em São Paulo e Porto Alegre. “Até agora, todas as energias foram maravilhosas e o pessoal tem reagido bem”, afirmou Prata. Ele precisou de muito cuidado e paciência para criar uma Elis mais próxima da real, aquela pequena mulher de 1,53m que foi um poço de talento, angústias, conflitos, inseguranças, paixões e de uma intensidade que não deixava ninguém indiferente ao redor.

Para quem levantou o público no Festival de Montreux, encantou Londres e Nova York, tamanha turbulência e tantos demônios pessoais a administrar podem ter sido a causa da decaída que a levou ao fim precoce. Por causa do temperamento difícil e do sucesso e veneração em torno de sua figura, ela também foi invejada e confrontada por outros nomes (sobretudo femininos, como Nara Leão) do meio artístico. No entanto, é difícil não se render a interpretações antológicas como “Upa, neguinho” e “Como nossos pais” e não se arrepiar com “Se eu quiser falar com Deus” – esta, o compositor Gilberto Gil disse que não se sentia mais capaz de cantar após ouvir a versão de Elis.

Agora, a gravadora Universal está lançando um disco com a trilha do filme, incluindo 20 músicas. Entre elas aparecem “Como nossos pais” (Belchior), “Cabaré” (João Bosco e Aldir Blanc) e “Madalena” (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza), além de canções gravadas por outros artistas, como Cartola, na clássica “O sol nascerá”.

"Foi um lance de sorte encontrar essa atriz, mas também houve o garimpo no sentido de encontrar uma pedra preciosa e burilá-la bem. Ela é muito forte, mas trabalhou o corpo e a voz, teve aulas com um professor de canto, ensaiava seis dias por semana", diz o diretor Hugo Prata - Divulgação/ND



 

ENTREVISTA: HUGO PRATA, DIRETOR DE "ELIS"

O público do filme

Imaginamos um público que gosta e que cultua Elis Regina, ou seja, um público fiel a ela. Como as novas gerações vão reagir é uma incógnita para nós. Estamos passando uma parte da história e da cultura brasileira a limpo, o que deve despertar o interesse dos jovens. E se trata de um período recente, do golpe de 1964 e da ditadura, que está presentes nos debates atuais. Além disso, falamos de música, de bossa nova, de artes, do “Pasquim”, de coisas que chamam a atenção de todos.

O que o filme contemplou

Uns falam que deixamos muitas coisas de fora, outros criticam porque tentamos abraçar tudo e não damos conta da tarefa. Não sonho em ter a unanimidade, mas vejo muitos aspectos positivos no filme. Como alguns amigos já me disseram, é uma dádiva e sou um privilegiado pela oportunidade de trabalhar com uma personagem tão especial no meu primeiro longa-metragem. Musicalmente, dramaturgicamente, em tudo Elis Regina é de uma grande riqueza.

Elis e o que veio depois

Ela esteve num patamar muito alto, tinha grande extensão vocal, ou seja, era um combo de múltiplas qualidades. Em atitude e garra, acho que só Cássia Eller chegou perto e não pode ser ignorada. Mas Elis foi a maior cantora que o Brasil já teve.

A política antes e agora

Com todo o respeito, acho que os dois momentos têm pouco em comum. A ditadura e os dias de hoje representam lutas diferentes. Temos liberdade de expressão, apesar dos dias difíceis, ao passo que nos anos de 1970 qualquer letra de música tinha que ser enviada a Brasília para análise. E o mesmo valia para o teatro e outras artes. Por isso, eu não faria um paralelo entre os dois momentos. É só ver como sofreram Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zé Celso Martinez Corrêa e Cacá Diegues naqueles tempos.

Elis e Andreia Horta

Foi um lance de sorte encontrar essa atriz, mas também houve o garimpo no sentido de encontrar uma pedra preciosa e burilá-la bem. Ela é muito forte, mas trabalhou o corpo e a voz, teve aulas com um professor de canto, ensaiava seis dias por semana, das 9h às 17h. E teve também o trabalho de figurinos e caracterização, que ajudaram a torná-la ainda mais parecida com Elis Regina.

Ressurgimento da “Pimentinha”?

As músicas de Elis tocam até hoje nas rádios, ela está bastante viva e o mito sempre esteve presente. Mas espero que o filme sirva para torná-la ainda mais conhecida de todos os públicos.

O filme nos festivais

“Elis” já esteve em Chicago e deverá ser inscrito em outros festivais. Ainda estamos envolvidos com a estréia e depois vamos ver o calendário dos eventos aqui e lá fora. A seleção é sempre difícil, mas os festivais são uma excelente oportunidade para discutir o filme, sondar o que o público especializado em cinema tem a dizer e ver o que os outros estão produzindo. Agora em dezembro vamos para Santa Maria da Feira, em Portugal, onde se realiza um importante festival de cinema luso-brasileiro.

 

Jornalista Alfredo Roberto Bessow assistiu a um show de Elis Regina em Porto Alegre - Divulgação/ND
Jornalista Alfredo Roberto Bessow assistiu a um show de Elis Regina em Porto Alegre - Divulgação/ND



Um show que ficou na memória 

Por Alfredo Roberto Bessow 

Jornalista nascido em Candelária (RS) que trabalhou na década de 1980 no jornal “O Estado”, em Florianópolis, e atualmente mantém uma agência de comunicação e edita a revista “Leitura de Bordo”, em Brasília

A memória é um depósito no qual guardamos um sem-fim de vivências e experiências ao qual recorremos de quando em vez – e sempre com o risco de nos surpreendermos. Era setembro. O ano, 1981. O local: Gigantinho, um ginásio ao lado do estádio Beira Rio, em Porto Alegre. A casa não estava cheia, mas havia um sentimento de nó na garganta, porque Elis tinha assumido com a sua voz uma condição de porta-voz de muitas esperanças – também pela ousadia de gravar novos autores/compositores.

Foi a primeira e única vez que assisti Elis em um palco – na turnê do show “Trem azul”.

Universitário e morador da Casa do Estudante, o ingresso para o show foi presente antecipado para meu aniversário de uma saudosa professora que insistia que eu deixasse de lado o ranço contra Elis e o apego ao cantar mais campeiro.

Elis desfilou sua energia, seu carisma, sua voz inigualável e um repertório no qual sempre havia um equilíbrio entre a ousadia e uma zona de conforto para ela expor e explorar a potencialidade inigualável da sua voz. E a capacidade de sair de uma música intensa para mergulhar numa tensa interpretação das dores que então nos cortavam a alma – logo nós que estávamos lutando para sair da escuridão da ditadura.

Dos momentos daquele show perdido nos escaninhos emocionais da saudade e da distância ressurge a voz feito punhal sentenciando que “amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito”. Bate mais forte o peito... “agora o braço não é mais o braço erguido num grito de gol”. São frases dispersas que voltam, em imagens que bailam numa zona nebulosa entre luz e sombras...

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