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Sábado, 22 de Setembro de 2018
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Unesco dá a Roda de Capoeira o título de Patrimônio Cultural da Humanidade

Mestres e capoeiristas da Capital comemoram reconhecimento

Marciano Diogo
Florianópolis
Marco Santiago/ND
Manifestação une o esporte às artes


Mal se escutam o som da corda, o chocalho do berimbau e o batuque do atabaque que a energia positiva já pode ser sentida. Nesta semana a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) concedeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade à manifestação afro-brasileira conhecida como Roda de Capoeira. Milhares de praticantes e mestres do mundo inteiro comemoraram o reconhecimento da expressão cultural popular centenária que mistura esporte e artes ao unir a luta à dança e à música. No Brasil, onde a capoeira faz parte da identidade nacional, e em Florianópolis a reação não foi diferente.

Para o mestre Pinóquio, que pratica há mais de 20 anos, ser capoeirista não é estar preso a movimentos estereotipados. “A capoeira é muito mais que um estilo de movimentos, é um estilo de vida, uma ideia que nasceu nos porões dos navios negreiros. Ela surgiu como crítica e resistência ao escravismo, e após centenas de anos esse reconhecimento reforça o sentimento de orgulho e promoção da capoeira, que cada vez mais angaria novos praticantes”, garantiu Valdemiro Pereira Filho, o mestre Pinóquio, que leciona na Associação Cultural de Capoeira Angola Quilomba, na Capital.

A cultura da capoeira é pulsante em Florianópolis: a cidade conta com alguns grupos culturais e a prática é ensinada em diferentes escolas. Wilson Roberto Alonso Colunga, o mestre Calunga, ensina aos jovens os movimentos e a musicalidade da luta há 30 anos. “Mesmo assim, a capoeira deveria ser muito mais abrangente. Falta infraestrutura para que isso aconteça – material humano e não físico. É necessário disseminar os ensinamentos, pois a capoeira tem como objetivo principal educar as pessoas; a disciplina é essencial”, observou o mestre.

De acordo com a Coppir (Coordenadoria de Políticas de Promoção e Igualdade Racial da Prefeitura de Florianópolis), o reconhecimento da expressão evidencia a resistência de movimentos afrodescendentes diante da contemporaneidade. “É muito relevante porque dá mais força ao movimento. A capoeira veio para ficar na nossa cultura. Por outro lado, tal condecoração dá mais respaldo e responsabilidade, pois a prática tem que seguir conquistando os espaços públicos”, afirmou a advogada Flávia Helena de Lima, coordenadora da Coppir.

Ações de salvaguarda e incentivo
Em 2008 o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) reconheceu a Roda de Capoeira como patrimônio cultural brasileiro, e desde 2012 o órgão realiza o Cadastro Nacional da Capoeira para mensurar o universo da cultura no país e realizar ações de promoção e incentivo à arte.  “O reconhecimento da roda como patrimônio demarca a conscientização sobre o valor da herança cultural africana, que, no passado, foi reprimida e discriminada”, constatou Jurema Machado, presidenta do Iphan.

De acordo com a superintendência do Iphan em Santa Catarina, o Cadastro Nacional da Capoeira tem mais de 800 grupos, 2.000 mestres e 150 entidades como federações e organizações associados. A historiadora do Iphan Regina Helena Santiago Meirelles acredita que o título dado à Roda de Capoeira deve incentivar ainda mais o cadastramento de associados e o fortalecimento da cultura. “Queremos cada vez mais preservar esse pilar essencial para a cultura brasileira”, ressalta a especialista. Outras manifestações culturais, como o samba de roda e o frevo pernambucano, também já receberam da Unesco o título de Patrimônio Cultural da Humanidade.

Origem de luta e resistência
A capoeira desenvolveu-se como forma de sociabilidade entre os africanos escravizados – era uma maneira de lidarem com a violência característica do regime. A prática tornou-se um dos maiores símbolos da identidade brasileira, mas também está presente em outros 160 países. Segundo a contramestre Joseane Corrêa, a Jô, que pratica a luta desde 1988, metaforicamente a roda de capoeira representa a roda do mundo e o inesperado da vida. “A roda é composta de instrumentos e pessoas. Ninguém faz a capoeira sozinho, é uma filosofia que tem um senso social muito forte. E não é uma atividade física qualquer, tem uma história de luta e resistência. E essa luta segue: continuamos lutando contra uma sociedade opressora, consumista e capitalista”, afirma Joseane Corrêa.

Vertentes e graduações 
Cada grupo de capoeira costuma ter seu modo de graduar os alunos. A nomenclatura varia de acordo com o grupo, mas normalmente são quatro estágios: aluno, professor, contramestre ou mestrando e mestre. Quanto à prática, pode ser segmentada em algumas vertentes, entre elas:

Angola – De todas as práticas, é a mais ligada à raiz e origem africana. Utiliza mais a teatralidade, é mais maliciosa e tem mais ginga na luta. A bateria de instrumentos é maior: costuma ter três berimbaus, dois pandeiros, um agogô e um ganzoá (reco-reco).

Regional – Utiliza uma técnica mais combativa. É adaptada conforme a região e o mestre que a ensina. A bateria de instrumentos é menor: normalmente são utilizados apenas o berimbau e dois pandeiros.

Contemporânea – Trabalha com a mistura dos dois fundamentos, a angola e a regional. A bateria de instrumentos é variável, pode ser maior ou menor.

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