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Uma visita guiada pelas imagens de Florianópolis desde a chegada das primeiras expedições

A mostra "Iconografia 344", aberta na Fundação Badesc, é uma oportunidade para conhecer a evolução da cidade a partir das primeiras gravuras, desenhos, mapas e livros produzidos sobre a cidade

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
15/04/2017 às 09H39
Obra de Jean-Baptiste Debret, de 1826 - Reprodução Daniel Queiroz/ND
Obra de Jean-Baptiste Debret, de 1826 - Reprodução Daniel Queiroz/ND


Se não era transmitido em tempo real, como ocorre hoje em dia, o noticiário internacional tinha seu peso no século 18, quando ainda se procurava entender os limites do mundo e as peculiaridades de cada uma de suas partes. Foi por causa da relevância histórica do fato que a “Gazette de France” noticiou para os parisienses a invasão da armada espanhola na Ilha de Santa Catarina em março de 1777, em “edição extraordinária” que saiu em julho, quatro meses depois. Esta matéria, impressa em livro, já vale uma visita à mostra “Iconografia 344”, aberta no final do mês passado e que fica aberta até 1º de junho na Fundação Badesc, em Florianópolis.

Mas a exposição é muito mais – é uma aula sobre a gênese da cidade, apresentada de forma didática e, ao mesmo tempo, extremamente minuciosa pelo curador, o médico e colecionador Ylmar Corrêa Neto. São desenhos, gravuras e mapas que escarafuncham o passado mais remoto da presença europeia na Ilha e arredores, como resultado das expedições que faziam deste um porto privilegiado de reabastecimento e conserto das embarcações. Estava muito distante a construção dos canais de Suez e do Panamá, e o único caminho em direção ao Oriente era pelo Atlântico Sul – coisa que Fernão de Magalhães já fizera, com ares de pioneirismo, em 1520.

>> Confira o depoimento do curador da exposição

A mostra é repleta de raridades, o que reforça a sua importância e a oportunidade que oferece de explicar para todas as gerações o que já foi este quintal do planeta. Está ali, por exemplo, uma imagem raríssima do Desterro feita por Hans Staden em 1549, com índios comendo palmito, uma iguaria que os europeus não conheciam. Depois dos espanhóis, que durante mais de um século exploraram a região e se consideravam os donos da terra, navegadores franceses, alemães, ingleses e russos vieram, desembarcaram e registraram suas impressões do lugar.

Artistas como Louis Choris, Heinrich Kreplin, Jean-Baptiste Debret, Johann Caspar Horner, François Frezier, Gaspar Duche de Vancy e Adelbert von Chamisso estão na lista dos que documentaram figuras humanas, hábitos e costumes do lugar.

As expedições sempre zarpavam com desenhistas que faziam o que atualmente compete aos fotógrafos e cinegrafistas. O efeito disso é um material que ainda permanece, em coleções particulares, livrarias de ponta e em obras impressas que lograram chegar aos nossos dias, assegurando sobrevida a obras de grandes criadores. “Chamisso, por exemplo, foi um botânico que descreveu o coqueiro local que Choris desenhou”, diz Ylmar Corrêa Neto. Artista excepcional, Chamisso já era famoso quando chegou à Ilha. Seu livro “O homem que vendeu a sombra” foi lido por Thomas Mann quando era criança, e dois de seus poemas foram musicados por Robert Schumann.

Gravura de Tilesius Von Tilenau, “Festa de negros na Ilha de Santa Catarina”, da mostra “Iconografia 344” - Reprodução Daniel Queiroz/ND
Gravura de Tilesius Von Tilenau, “Festa de negros na Ilha de Santa Catarina”, da mostra “Iconografia 344” - Reprodução Daniel Queiroz/ND


Negros na praça da matriz

Grande desenhista, o francês Louis Choris foi uma prodigiosa testemunha do modo de vida na Ilha de Santa Catarina nas primeiras décadas do século 19. Ele deixou pelo menos quatro gravuras de escravos, o desenho de uma “kalimba”, instrumento musical dos índios, e gravuras com plantas e animais. Um dos achados da exposição é o desenho de Heinrich Kreplin que registra a cidade no início dos anos de 1860, incluindo no mesmo cenário casinhas com janelas à beira-mar, um moinho de vento perto da atual avenida Mauro Ramos, as ilhotas da baía Norte e montanhas bem delineadas no continente, ainda sem marcas da presença humana. Negros comemorando o Réveillon na praça da matriz, uma tomada do aqueduto de São Miguel (Biguaçu), elementos da flora (algodão, maracujá) e da fauna (colibris, gaturamos, tubarões martelo) também fazem parte do acervo mostrado na Fundação Badesc.

Entre os trabalhos mais recentes, há uma tela de 1915 de A. Dubut, artista quase anônimo que retratou a cidade com grande riqueza de detalhes, juntando ícones como o Hospital de Caridade, a catedral, o colégio Coração de Jesus, a igreja São Francisco, o Mercado Público, o antigo centro histórico, barcos nas baías, descampados e palmeiras que ocupavam boa parte do que é hoje tomado pelo concreto armado. Mais instigante ainda é uma litogravura do dinamarquês Joseph Bruggemann que exibe o mesmo cenário, porém com cinco décadas de antecedência – ambiente que Martinho de Haro reproduziu, com seu estilo revolucionário, nos anos 50 do século passado.

Carta da cidade de Amedee François Frezier - Reprodução Daniel Queiroz/ND
Carta da cidade de Amedee François Frezier - Reprodução Daniel Queiroz/ND


Ocupação e a evolução dos mapas

Se os desenhos e gravuras impressionam, o que dizer dos mapas que desde o século 16 tentam explicar os recortes, reentrâncias e as sensuais curvas deste cobiçado litoral? A cartografia do período pós-descobrimento fazia uso da imaginação e da criatividade dos artistas para indicar os pontos mais relevantes da costa brasileira. Na exposição “Iconografia 344” há algumas preciosidades, como xilogravuras de Giacomo Gastaldi e Girolano Ruscelle que mostram o território recém-ocupado e o interior inóspito, com a indicação de “terra non descoperta”, para além do Marañon e tocando nos Andes, ainda uma incógnita para os europeus médios. Depois, os cartógrafos foram acrescentando alguns pontos do Brasil meridional. São Francisco (do Sul) foi citada mais cedo, e a Ilha de Santa Catarina aparece pela primeira vez num mapa feito em 1712 por François Frezier.

Aos poucos, os mapas foram sendo aperfeiçoados, mas são os mais antigos, ainda precários, que chamam a atenção. O mesmo vale para os nomes, como o rio Ytabuca (seria o Itapocu?), a ilha do Arboredo, as vilas de Cananea (SP) e Trammanday (RS). Os ingleses Robert Duddley e George Anson foram geniais na tarefa de produzir mapas da região, que queriam ver sob o domínio britânico. O primeiro usou arquivos dos Medici, em Florença, e citou o Porto dos Patos, nas cercanias da Ilha de Santa Catarina, de forma pioneira. O espanhol Tomaz Lopes Machuca e o francês Louis Antoine de Bougainville também deixaram cartas muito relevantes. “É uma pena que muitos desenhos e mapas foram arrancados das páginas de livros para venda”, diz o curador Ylmar Corrêa Neto.

Com desenhos, mapas, documentos e livros raros, coleção do curador Ylmar Corrêa Neto é didática para entender a evolução da cidade  - Daniel Queiroz/ND
Coleção com desenhos, mapas, documentos e livros raros, enfatiza curador Ylmar Corrêa Neto, é didática para entender a evolução da cidade - Daniel Queiroz/ND


Males que chocavam os visitantes

Como convém a uma empreitada tão grande quanto a descoberta e a exploração de novas terras, os artistas-navegadores também cometeram seus equívocos. Num deles, Debret vestiu as índias brasileiras com roupas greco-romanas. Há uma vista da cidade do Desterro nomeada erroneamente como Laguna. E figuras de Duche de Vancy, numa gravura icônica sobre a Ilha de Santa Catarina, foram removidas em edição posterior. Assim, o cenário do padre falando com uma mulher branca, do oficial francês conversando com uma negra (ambos descalços) e de um mendigo no morro do Hospital de Caridade deu lugar a um quadro mais pobre, sem as presenças femininas.

No geral, os europeus se mostravam constrangidos com as discriminações no novo mundo. Carta enviada por um navegador a Charles Pierre Claret de Fleurieu, ministro da Marinha de Luiz 16, em 1785, dizia: “Os habitantes são gentis, mas a escravidão dos negros, as superstições da Inquisição e o despotismo militar são grandes males”.

O curador juntou à exposição de registros históricos da Ilha uma série de obras de seis artistas da atualidade – Carlos Asp, Yara Guasque, Fernando Lindote, Paulo Gaiad, Walmor Corrêa e Diego de Los Campos – que fazem uma leitura contemporânea de imagens antigas da região. Corrêa Neto fala pouco de seu hobby como colecionador, mas afirma que não faz loucuras para obter uma obra ou documento raro. Usa muito a internet para pesquisar e permanece mais tempo nas cidades que visita nos congressos médicos para consultar acervos. O mais ousado que já fez foi ir até a Áustria para trazer uma gravura que o Instituto Histórico de Viena decidiu vender, já que era de um autor suíço.

CURIOSIDADES

  • Um dos livros expostos é um exemplar da versão inglesa de “Für Darwin” (1864), no qual o botânico e naturalista Fritz Müller apresenta argumentos que corroboram com a teoria evolucionista. Charles Darwin, que pagou a tradução da obra para o inglês, chamava o ambientalista alemão (que morou e trabalhou na Ilha de Santa Catarina e em Blumenau) de “Fritz Müller do Desterro”.
  • Gravura em metal de Johann Horner, desenhista de uma expedição do russo Adam Johann von Krusenstern, mostra a vila do Desterro com os traços de uma comuna européia, a catedral com torres góticas e uma ponte em arco que soa inverossímil na cidade. “Eles tomavam algumas liberdades”, afirma o colecionador Ylmar Corrêa sobre esta e outras obras que distorciam o cenário real.
  • Muitos navios das expedições naufragaram no Atlântico ou no Pacífico, mas os desenhistas e gravadores tinham o cuidado de deixar as obras em locais de onde elas poderiam ser despachadas para a Europa. Isso garantiu a preservação de muitos documentos a partir do século 16.
  • A partir do início do século 17, muitos mapas já se referiam a pontos do litoral catarinense como as ilhas Deserta e Moleques, a ponta de Zimbros e o rio Ratones, e também apontavam rios como o Uruguai, o Paraná, o Paraguai e o Iguaçu, além do Rio da Prata, por onde expedições entravam para o interior do continente sul-americano atrás de riquezas minerais.

 

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1 Comentário

  • Jonathan
    Matéria muito boa. Adoro essas matérias que falam sobre a história dá ilha. Irei na exposição.
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