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Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
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Um dia de filmagem de "Rendas no Ar"

Na Ilha de Anhatomirim, o primeiro longa-metragem de ficção da diretora Sandra Alves começa a ganhar forma.

Pedro Santos
Florianópolis
Rosane Lima/ND
Rendas no ar
O ator Renato Turnes vive o tutor de Ana, interpretada por Marina Medeiros


Apoiado à janela, o ator Renato Turnes toma devagar, saboreando gole por gole, um copo de água. Do outro lado da sala, Marina Medeiros olha para Nara Sakarê sem piscar. Elas conversam baixinho um som quase inaudível, os rostos muito próximos em uma atmosfera totalmente densa. Estamos na Fortaleza da Ilha de Anhatomirim, na Grande Florianópolis, acompanhando as filmagens do longa-metragem “Rendas no Ar” enquanto os atores se preparam para uma cena tensa, a de número 87 de um total de 123. No final do take, o personagem de Renato Turnes será agredido, os objetos em cima da mesa estarão no chão e a relação entre os protagonistas atingirá uma espécie de clímax dentro do filme.

“Rendas no Ar”, que foi o projeto vencedor do Edital Catarinense de Cinema 2009, é o longa-metragem de estreia de Sandra Alves, que já dirigiu 12 curtas-metragens, incluindo “L´Amar”.

Se por um lado a concentração dos atores é absoluta, com o restante da equipe o ambiente é de descontração. Cada um bem focado na tarefa que deve cumprir: a garrafa que simula cachaça não pode ficar vazia, o ajuste do fotômetro, o controle dos dois refletores colocados atrás da janela e os objetos que devem ser cuidadosamente colocados exatamente como na última vez em que a câmera foi desligada.

Entre o “ação” e o “corta”, ordenados calmamente pela diretora, ninguém pode falar absolutamente nada. Qualquer som, mesmo que vindo de fora, consegue ser captado pelo microfone. Como o piso da fortaleza é de madeira, ninguém pode se movimentar enquanto a cena se desenrola.

Sobre um tecido almofadado, pensado justamente para que os sons dos passos dos atores durante a cena não se sobreponham à fala deles, a diretora de fotografia Andréa Scansani, mais conhecida pelo apelido Daraca, caminha segurando todo o aparato da câmera. Em cada tomada, ela focaliza um personagem ou uma ação. Fora do ambiente da cena, toda a equipe acompanha por um monitor. Ao lado do monitor, o técnico de som Cristiano Scherer monitora a alta resolução e nitidez do áudio que lhe chega pelo fone de ouvido. Isso sem contar os outros muitos profissionais, que estão ou não no set de filmagem. Desde a equipe de arte, que prepara os objetos que serão usados nas próximas cenas, até o produtor responsável pelos alimentos de toda a equipe.

Fazer cinema é um trabalho demorado, de muita técnica, paciência e expectativa.

Poética visual

A viagem começa logo depois do amanhecer quando a equipe de filmagem pega o barco em direção à Ilha de Anhatomirim. A travessia de alguma forma faz com que a equipe, e principalmente os atores, sejam envolvidos com o universo que circunda a estória do filme.

“Rendas no ar”, projeto vencedor do Edital Catarinense de Cinema 2009, é sobre uma jovem mulher, Ana (Marina Medeiros), que fica órfã e é levada para uma ilha viver com um tutor (Renato Turnes) que tentará de tudo para enlouquecer a jovem e se apropriar de sua herança.

A metáfora para a suposta loucura é produzida tanto no território cercado por mar em todos os lados quanto nos artifícios usados pelo tutor para enlouquecer Ana: a jovem é obrigada a dormir em uma cama erguida por fios sobre o chão.

“Estamos fazendo um filme carregado de poesia visual. O que liga a história e os sentidos que tentamos dar a ela é a dramaturgia”, conta Sandra Alves, que fez questão de trabalhar com os parceiros paulistas da Usina da Alegria Planetária. O grupo desenvolveu a parte artística do filme, inclusive os figurinos que foram todos feitos à mão.

“Reaproveitamos tecidos, vestidos velhos e pedaços de pano e apostamos na monocromia para ajudar a contar a estória do filme”, explica o figurinista Kabila Aruanda.

Também na parte cenográfica a ordem era encontrar objetos antigos dotados de novos valores. “Muita coisa foi na base do empréstimo mesmo. O Museu do Lixo, por exemplo, nos emprestou um piano completo. E isso foi muito interessante porque os objetos guardam memórias próprias e essa é justamente uma das idéias do filme: recriar um imaginário do século 19”, diz o cenógrafo Renato Bollelli.

A diretora concorda. “Apesar do baixo orçamento, a produção é sofisticada pelas peças ricas que nós criamos.” O filme recebeu R$ 880 mil do Edital Catarinense de Cinema. Com a intenção de distribuir o longa-metragem em salas de cinema, a diretora aprovou o projeto para captar até R$ 1 milhão pela Lei do Audiovisual da Ancine (Agência Nacional do Cinema).

Para preparar a dramaturgia, foram necessárias quatro semanas de trabalho intenso com os atores. A preparação de elenco ficou por conta de Christian Duurvoort, que trabalhouem “Ensaio sobre a Cegueira” e “Cidade de Deus”. Depois desse período de preparação, Sandra Alves e a diretora assistente Vera Longo fizeram algumas modificações no roteiro. “Foram apenas coisas que surgiram do processo de preparação”, reflete Vera.

A protagonista Marina Medeiros trabalhou com preparação de elenco por muitos anos, também auxiliando Christian Duurvoort em “Ensaio sobre a Cegueira”.

“Eu sempre estive do outro lado, atrás das câmeras, auxiliando os atores a tirar os personagens deles mesmos. Agora vejo que esse trabalho como preparadora me deu segurança para atuar”, diz Marina.

Já está quase anoitecendo quando acaba mais um dia de trabalho. É hora de voltar de barco para o continente. Apesar do dia exaustivo, a equipe não parece de todo cansada. Ainda mais quando, em um alto-falante da embarcação, começa a tocar o velho rock´n roll dos Rolling Stones. De repente, o barco desliga os motores, pára no meio do mar e toda a atenção se volta para o nascer de uma lua alaranjada que desponta no horizonte, dando a impressão de que nós mesmos estamos em um filme.

 

Rosane Lima/ND
Lua
A volta para o continente depois de um dia de trabalho.

 

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