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Tradição das vovós, bordado ganha ar contemporâneo e entra no circuito slow fashion

Em Floripa, as artistas Paula Schlindwein e Carol Grilo tiveram como inspirações as mães, que as ensinaram a bordar quando eram crianças

Karin Barros
Florianópolis
16/09/2016 às 15H00

A última década tem sido marcada pelo resgate de práticas e costumes, principalmente os manuais, e ainda mais importante vem sendo a valorização desses trabalhos, tanto do ponto de vista financeiro quanto pelo olhar da sociedade. Um caso típico é o bordado, afinado ao movimento feminista que acontece no mundo, redescobrindo a mulher de forma não submissa. O ofício pode ser visto atualmente também nas passarelas. Conhecido como slow fashion, ele valoriza a recuperação e o desenvolvimento de técnicas de design artesanal.

A técnica do bordado, agora contemporâneo, é trabalhada por artistas como Célio Braga, Andressa Proença, Itamara Ribeiro, Karina Segantini e Lena Muniz. Alguns não são da Capital catarinense, mas todos já expuseram na cidade. As linhas de costura como arte têm como expoente artistas como José Leonilson, que morreu em 1993, e Arthur Bispo do Rosário, morto em 1989. Leonilson já era conhecido como pintor, desenhista e escultor, e nos últimos dez anos de vida também inseriu os bordados em suas obras. Filho de comerciante de tecidos e mãe costureira, a tradição vinha de berço. Já Bispo do Rosário foi diagnosticado como esquizofrênico e fazia suas peças na colônia Juliano Moreira, onde morou por 50 anos. Depois de morto, seus trabalhos, como o “Manto da Apresentação”, foram considerados uma arte vanguardista, e ele comparado a Marcel Duschamp.

Paula Schlindwein - Marco Santiago/ND
Paula tem seus trabalhos insipirados no feminino e inclui o bordado - Marco Santiago/ND


Em Florianópolis, Paula Schlindwein e Carol Grilo também foram inspiradas pelas mães, como Leonilson, a trabalhar o bordado em suas obras, só que agora de forma mais contemporânea. Paula, que tem o trabalho em aquarela mais voltado para a luta feminista, redescobriu o bordado há três anos. Ela aprendeu o ofício ainda pequena, sem pretensão, pegando retalhos e fios que sobravam das costuras da mãe e imitando seu processo. Dessa forma, desenvolveu o ponto chamado “correntinha”, conhecido também como “ponto atrás”, algo sem complexidade, que reproduz no papel 100% algodão.

Bordados em roupas até fez, mas só porque a mãe, a musa inspiradora de toda sua arte, pediu. Foi uma jaqueta com uma borboleta. Agora, a artista tem como suporte o desenho, algo que também faz desde pequena. “A aquarela é a base, mas o bordado é que conta a história. Às vezes as raízes são bem grandes, outras mais aéreas, outras enroladas no corpo. Hoje eu fico procurando entender o que eu estou fazendo, porque é bem subjetivo. Tem muito a ver com as mulheres da minha família, aquela coisa que te estrutura, te segura e te sustenta para te impulsionar”, explica Paula sobre sua obra.

A artista pinta e borda todos os dias, e confessa que não sabia que tanta gente também tinha retomado a “tradição da vovó”, mas agora com toque contemporâneo.  “Na FAF (Feira de Arte de Florianópolis), quando comecei a expor, várias pessoas chegavam falando de outras artistas que também bordam. E cada uma tem a sua maneira, não tem nada a ver uma com a outra, nem o suporte. Mas cada uma traz o elemento: a linha”, reflete.

Bastidores alinhados 

Carol Grilo - Flavio Tin/ND
Carol Grilo borda em bastidor há um ano - Flavio Tin/ND


A artista mineira Carol Grilo, 38, moradora de Florianópolis desde criança, responsável pela imagem da capa da Revista Plural nesta edição, também tem como referência, e hoje companheira de trabalho, a mãe. Arquiteta por formação pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), há 11 anos ela vende seu artesanato, como nécessaires e bolsas, por um site na internet com a marca FofysFactory. Mas foi há um ano que o bordado entrou como seu carro-chefe. Tendo como base o bastidor, que também serve de moldura, ela diz que precisou ficar adulta para querer costurar de verdade, mesmo já sabendo fazer isso desde pequena.

O bordado começou como hobby, quando ao postar nas redes sociais amigos fizeram encomendas. A inspiração com as linhas também vem das redes. Com comentários fofos, bem humorados, e até de luta pelo feminismo, Carol borda bicicletas, gatos, cafeteiras, flores, corações e tudo mais que o cliente pedir usando os pontos “correntinha” e “cheio”. Os quadrinhos lembram memes de Facebook.

Hoje, com peças vendidas para países como os Estados Unidos, Portugal, Itália e Coréia, a artista também dá cursos. Dois já foram realizados no Coffee e Shop 18, para até dez pessoas, com um kit bordado, que inclui bastidor, tecido, linhas e agulha, e Carol garante: “todos já saem bordando”. A artista também pesquisa bastante sobre o assunto, e diz que no Chile, Inglaterra e Estados Unidos a tendência vem forte. Muita coisa legal tem sido produzida com transfer para tecidos e até em fotos, informa.

Letticia Ribeiro - Eduardo Valente/ND
Letticia aprendeu a bordar em um curso pela internet - Eduardo Valente/ND



O bordado em bastidor também faz parte da vida da jovem paulista e moradora de São José Letticia Ribeiro, 21, que quando ficou sem emprego viu no bordado uma forma de ganhar um extra. Estudante de Design de Moda no Centro Universitário Estácio de Sá, a matéria que menos gostava envolvia o bordado. “Aprendi pela internet, em um curso online, vi que era fácil, delicado e moderno. Foi um modo de fazer algo que eu gosto dentro da minha área”, diz, afirmando que quando era criança a avó tentou ensinar, mas ela só foi aprender de fato um ano atrás.

A marca Elska, de Letticia, foi lançada há três meses, e a ideia dela é continuar focada no público jovem que valoriza o trabalho manual, com camisetas, sacolas e bolsas. “É um bordado moderno, mas com o método tradicional. Tento fazer os mais diversos pontos, porque tem muita gente querendo sair dessa coisa de fast fashion”, afirma.

Linhas de condução

Pati Peccin - Flavio Tin/ND
Pati Peccin busca reunir diversos materiais em seus trabalhos, como o bordado- Flavio Tin/ND


A publicitária e artista Pati Peccin, 41, teve o bordado como uma recente descoberta em sua arte. Ela trabalhava com cinema, e partiu para as colagens quando decidiu melhorar o traço em um mestrado em ilustração em Portugal. Por lá, conheceu artistas como Ana Tecedeiro, que em uma exposição unia suas instalações ao bordado. “Sempre procurei outras texturas para trabalhar, como a xilogravura, e pensava em como podia costurar no meu trabalho. Foi então que conheci as obras da Andressa Proença, na FAF, e foi uma inspiração”, explica Pati.

Na casa da artista a máquina de costura foi objeto sempre presente. A mãe fazia tricô, a irmã trabalha com moda, mas ela nunca havia se interessado pelas linhas. “O bordado ainda é um mistério para mim, porque não sei bordar; eu vou colocando as linhas no papel”, brinca, afirmando que sua disciplina existe em relação às encomendas, mas não em um desenho perfeito com linhas retas.

O trabalho de Pati hoje reúne em bastidores diversos materiais, como miçangas, lantejoulas, fios, rendas, transfer, desenhos e colagem de jornal ou revista. Na cena, o bordado é o fio condutor da narrativa. Os temas são variados, mas o feminismo é uma questão de expressão.

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