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Teatro Álvaro de Carvalho é entregue a Florianópolis após obras de manutenção

O espaço cultural, datado de 1875, volta a ter mais uma área para eventos, o Salão Nobre

Karin Barros
Florianópolis
17/03/2017 às 13H46

Desde a segunda semana de março, o TAC (Teatro Álvaro de Carvalho), no Centro de Florianópolis, um dos teatros mais antigos do Brasil e considerado com a melhor acústica do Sul do país, voltou a funcionar. O prédio, inaugurado em setembro de 1875, foi reaberto após dois meses de obras de manutenção e conservação e volta a ativar espaços, como o Salão Nobre, há quase seis anos fechado.

Dentro desses mais de 140 anos de história na cultura local e nacional, o teatro que teve como primeiro nome “Princesa Isabel” – em homenagem à própria – passou por dezenas de reparos, e entre as placas entregues pelos governos que as iniciaram, colocadas no hall do teatro, a primeira data de 1955, época em que ele passou por uma grande reforma estrutural.

Teatro Álvaro de Carvalho - Daniel Queiroz/ND
Teatro Álvaro de Carvalho - Daniel Queiroz/ND

O jornalista e escritor Paulo Clóvis Schmitz, que escreveu o livro “Pequena história do Teatro Álvaro de Carvalho”, lembra que o local foi um importante difusor cultural, com apresentações de grupos teatrais que viajavam de navio e aportavam na cidade com destino ao TAC. Entre os antigos nomes que ali se apresentaram está o Grupo Oficina, de José Celso Martinez Correa, entre as décadas de 1960 e 1970. A companhia de Maria Della Costa também esteve no TAC. Na época, Fernanda Montenegro estava no início da carreira e também acompanhava a trupe. Outros nomes importantes, como Procópio Ferreira, Plínio Marcos, Paulo Gracindo e Marília Pêra, também encantaram os florianopolitanos.

A última obra no TAC teve início entre o final dezembro e início de janeiro, e neste período a edificação passou por intensas intervenções de pinturas interna e externa, manutenção de calhas e rufos, recuperação de janelas, passarelas e escadas sobre o palco, porta da saída de emergência, guarda-corpo da sacada e restauração do piso de parquet, lustres e portas do Salão Nobre, que também recebeu novamente duas telas do artista plástico Martinho de Haro. “É um prédio mais que centenário, então tem que fazer reformas periódicas. Era outro tipo de construção na época; a tinta, por exemplo, teve que vir de Blumenau, porque é especial”, explica o presidente da FCC (Fundação Catarinense de Cultura), Rodolfo Pinto da Luz.

Salão Nobre: espaço cultural

Entre os reparos que mais devem chamar a atenção está a reabertura do Salão Nobre, espaço no segundo andar do teatro que recebia reuniões e pequenos eventos. O local foi interditado em 2014 devido a infiltrações, mas não abria há cerca de seis anos. Duas obras restauradas de Martinho de Haro foram recolocadas no salão: “Campo de Manejo” e “Cais da Rua Francisco Tolentino”, ambas pintadas em 1954, com dimensões de 2,76 m X 2,16 m. A última restauração das obras de Haro, artista francês radicado no Estado, havia sido em 1990.

O salão fica atrás dos camarotes - que também estão sendo devolvidos à comunidade, que dá para a sacada do prédio -, e servirá para eventos de pequeno porte, como lançamento de livros, projetos culturais, saraus e solenidades. O primeiro evento, que está programado para esta terça-feira, é do “Ô Catarina”, suplemento cultural de Santa Catarina, e do edital de Aquisição de Livros, o Cocali (Comissão Catarinense do Livro). O edital visa à compra de livros de autores catarinenses para distribuição gratuita em bibliotecas públicas do Estado.

Segundo o presidente da comissão permanente de licitação da FCC, Halley Filipouski, os valores da reforma ainda não foram fechados, por isso ainda não foram divulgados. Os trabalhos foram feitos por uma empresa de manutenção com contrato anual que cuida de todos os imóveis da FCC. “A Fundação exigiu que a obra contasse com profissionais especializados na obra de restauro, na parte de alvenaria, pintura e madeiras”, afirma Filipouski, que diz que há muito tempo não havia uma restauração tão intensa como a atual no TAC.

Halley Felipouski - Daniel Queiroz/ND
O engenheiro Halley Felipouski, da FCC, nos camarotes, que também estão sendo entregues novamente ao Estado - Daniel Queiroz/ND

Projeto com foco local

Paralelamente às mudanças estruturais do prédio, que até a última terça-feira ainda passava por manutenção, a Fundação reeditou o nome do projeto TAC 7:30 para TAC 8 em Ponto. Segundo o presidente Rodolfo, a mudança já estava prevista na gestão passada, que por meio de pesquisas avaliou que as pessoas gostariam de ir ao teatro, mas o horário ainda era difícil. “Queremos facilitar o acesso do público e que eles se tornem usuárias dos nossos espaços artísticos e culturais”, salienta.

Segundo dados a Fundação, desde 2013, quando o projeto cultural que visa abrir as portas para a programação local foi lançado, mais de 32 mil pessoas assistiram a apresentações no TAC. Com isso, Rodolfo afirma que o foco do teatro continua sendo nos artistas locais, mas com programações de âmbito nacional. “O teatro é ideal para o TAC 8 em Ponto, demos preferência para ele pelo tamanho, pois preenche um espaço que é importante para quem está começando. São quase 500 lugares na plateia, contando com as galerias”, explica Rodolfo.

O presidente pontua ainda que não há espaço como o do Teatro Álvaro de Carvalho em Florianópolis em funcionamento. “Os outros ou são muitos grandes ou não atendem a classe. Não temos espaços compactos, por isso é bom que ele esteja sempre em condições”, diz.

Rodolfo Pinto da Luz - Daniel Queiroz/ND
Rodolfo Pinto da Luz no Salão Nobre, que terá seu lançamento oficial no dia 21 de março - Daniel Queiroz/ND

Com 30 anos de estrada, o ator Leon de Paula, da Cia Teatro Sim... Por Que Não?!!!, estreou nos palcos do TAC, e por ali passou incontáveis vezes – garante que passa de uma centena. Ele lembra que o teatro foi por diversas vezes abandonado pelos governantes durante toda a sua história, e que recentemente quase passou a fazer parte da rede do Sesc. “O TAC é nosso [dos artistas], isso nunca vai mudar. Vi muito ator e atriz bom passar por ali e vivi momentos que as pessoas brigavam para assistir a uma peça do Isnard Azevedo. Esse apreço que temos por esse prédio nunca vai mudar”, afirma.

O Floripa Teatro – Festival Isnard Azevedo, que chegaria a sua 23a edição no ano passado, mas foi cancelado por questões econômicas, tinha como um de seus principais pontos de apresentações o TAC. Mesmo ainda não tendo sido confirmada a realização do evento em 2017, o presidente da FCC afirma que o TAC estará disponível para o Festival. Com passagem pela Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes, Rodolfo diz saber a relevância do evento teatral e que apoia totalmente o seu retorno.

O ator Leon coloca ainda a importância do poder público ouvir a classe artística sobre o que deve ser mudado ou melhorado no teatro. Segundo ele, questões como a iluminação do camarim e do palco influenciam muito na qualidade da apresentação. “O tipo da temperatura cromática de um lugar para o outro muda. A gente se prepara para mostrar [esteticamente] uma coisa e apresenta outra”, argumenta Leon.


Quase 40 anos de dedicação 

Carlos Falcão Cavalcanti Lins - Daniel Queiroz/ND
O técnico de iluminação Carlos Falcão tem mais de 40 anos de história com o TAC - Daniel Queiroz/ND

 

A satisfação de entregar o teatro novamente à cidade de Florianópolis é imensa, porém, uma pessoa se sentiu ainda mais contente vendo seu local de trabalho restaurado e com público novamente. Foi o técnico de iluminação Carlos Antônio Falcão Cavalcanti Lins, 65, natural de São Francisco do Sul, mas morador do Ribeirão da Ilha.

Falcão, como é conhecido, trabalha no Teatro Álvaro de Carvalho desde 1o de junho de 1979. O cargo no espaço cultural foi seu segundo emprego na vida, depois de servir durante dez anos a Marinha do Brasil. Falcão explica que ao deixar o serviço militar, começou a estudar engenharia elétrica, e em seguida conheceu o teatro. Ele não terminou o curso, porém os quase 40 anos de trabalho nos palcos são mais que suficientes.

Depois de um grave acidente envolvendo um choque elétrico, Falcão perdeu parte da sensibilidade do braço, e nos últimos anos presta seus serviços na montagem dos espetáculos. O técnico, que fica emocionado ao falar de seu emprego, já conheceu muita gente famosa e viveu coisas engraçadas. Ele lembra quando um diretor de teatro que o acompanhava na iluminação ficou bêbado e abandonou a peça. Falcão teve que terminar a passagem atrás das cortinas sozinho, e no final da apresentação, o homem foi encontrado desmaiado no camarim.

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