Publicidade
Quinta-Feira, 13 de Dezembro de 2018
Descrição do tempo
  • 32º C
  • 21º C

Brasil acompanha crescimento da produção de séries e conquista espaço no mercado audiovisual

Em Santa Catarina, formato também está em desenvolvimento

Marciano Diogo
Florianópolis
Marco Santiago/ND
Marcia Paraíso, da produtora florianopolitana Plural Filmes, faz laboratório para a série "Public Relations", que será filmada em coprodução com a Argentina entre novembro e dezembro deste ano


Desde os anos 1990, o mercado norte-americano já reconhece a produção de séries de TV como um mercado fértil, com a criação de centenas de produtos para todos os públicos. Agora, o Brasil, que há pouco tempo era um importador, tem a sua vez. Os motivos para o crescimento dessa produção são diversos: seja a Lei 12.485, sancionada em setembro de 2011, que obriga os canais pagos de televisão a exibir pelo menos três horas e meia por semana de conteúdo nacional, ou a possibilidade de veicular as séries também em plataformas on-line de vídeos – com advento dos financiamentos coletivos, que subsidiam diversas produções audiovisuais. De acordo com a Ancine (Agência Nacional do Cinema), em apenas três anos, de 2011 a 2014, houve um salto de mais de 600% na produção e veiculação de séries brasileiras na televisão: em 2014 foram 506 obras seriadas brasileiras inéditas que estrearam na TV paga. Em 2011, eram apenas 73.

“A programação da televisão, como teledramaturgia, é prioritariamente de série. E essa é a orientação que vem sendo dada para esse conteúdo junto às televisões públicas e privadas -  a produção de série. Tem se evitado, no financiamento das produções para televisão, os simples programas de auditório, talk shows, programas de bancada. Ou seja, o incentivo maior é para o crescimento das narrativas ficcionais serializadas brasileiras”, observa Pola Ribeiro, secretário da SAV (Secretária do Audiovisual), órgão ligado ao MinC (Ministério da Cultura). 

Atualmente, séries como “Narcos”, primeiro seriado original brasileiro da televisão on-line Netflix que estreia no próximo mês, a segunda temporada do “Se eu Fosse Você”, coproduzida e veiculada pelo canal FOX, e “Magnífica 70”, série original do canal HBO, fortificam a atuação brasileira na produção de seriados. “O seriado televisivo brasileiro de ficção une a linguagem da telenovela à linguagem fílmica, reformulando assim toda a argumentação desses dois segmentos artísticos”, explica a especialista Dilma Juliano, coordenadora da Pós-Graduação em Ciências da Linguagem da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina).

Santa Catarina também não fica de fora do filão: produtoras de cinema do Estado têm seriados em desenvolvimento. Um encontro promovido no último mês pelo projeto Catarina Criativa deve facilitar algumas dessas produções: foram apresentados 25 roteiros de seriados para representantes de canais de TV fechada. “Representantes da FOX, Discovery, History Channel, A&E e Canal Brasil conheceram e elogiaram grande parte dos projetos. Desses 25 roteiros e argumentos apresentados, acredito que pelo menos dez se viabilizarão ao longo deste ano”, afirma Carlos Henrique Sommagio, coordenador do Catarina Criativa.

Divulgação/ND
A série de animação "Tuca, O Mestre Cuca", também segue em desenvolvimento em Santa Catarina


Entre os projetos apresentados para representantes dos canais televisivos está o roteiro da animação “Tuca, O Mestre Cuca”, desenvolvido pelo Belli Estúdio, produtora localizada em Blumenau, no Norte do Estado. “Estamos em fase de pré-produção. Já fizemos o argumento, perfil dos personagens e sinopses dos episódios, agora só falta de fato fecharmos o contrato com o canal televisivo. É um seriado de animação que se desenvolverá em 26 episódios de 11 minutos. Falamos sobre alimentação infantil através de um olhar lúdico”, explica Aline Belli, diretora do Belli Estúdio.

Já em fase de pré-produção, o seriado “Public Relations”, da produtora florianopolitana Plural Filmes, será filmado ainda este ano. A série, uma coprodução argentina, será rodada entre novembro e dezembro em Balneário Camboriú e Córdoba, na Argentina. “É um seriado de ficção de gênero policial sobre um rapaz que trabalha como relações públicas em baladas eletrônicas em Balneário Camboriú. Esse jovem testemunha um crime e para fugir dos bandidos que o perseguem entra em um reality show. E muita coisa acontece”, adianta Márcia Paraíso, diretora da Plural Filmes.

Edital municipal para impulsionar produtores
Atentos ao nicho do mercado, a Secretaria Municipal de Cultura de Florianópolis lançou recentemente através do Funcine (Fundo Municipal de Cinema) um edital histórico no valor total de R$ 750 mil para a produção de uma temporada de um seriado – R$ 300 mil virão da Secretaria Municipal de Cultura e R$ 400 mil do Fundo Setorial do Audiovisual. O edital recebeu 16 projetos inscritos, nove deles foram habilitados para a concorrência do prêmio. “A comissão de jurados iniciou a análise de mérito dos projetos nesta semana e tem o prazo legal de 45 dias para eleger o vencedor. Esse edital tem uma importância fundamental na cadeia produtiva, para pensar distribuição. Nós temos uma produção cinematográfica significativa e qualificada, mas muito dessas obras ficam restritas quando se trata do público. O seriado é uma oportunidade de abrir a exibição da produção”, conclui Luiz Moukarzel, secretário Municipal de Cultura da Capital.

Na Serra catarinense está em desenvolvimento a websérie apocalíptica sobre zumbis “Protocolo 43” – o projeto conseguiu arrecadar mais de R$ 32 mil via financiamento coletivo do site Catarse. “Vamos começar a filmar em julho. Serão 13 episódios. A história fala sobre um grupo de sobreviventes que escolhe a Serra do Rio do Rastro para fugir do apocalipse. Lançaremos o primeiro episódio em novembro deste ano”, afirma Áthila Mattei, diretor e roteirista de “Protocolo 43”.

 A produtora Casa na Árvore, do Oeste do Estado, tem duas webséries documentais, que já estão sendo disponibilizadas na web: “Receitas de Sabor” e “Feito a Mão”. “A primeira tem uma pegada gastronômica. Já ‘Feito a Mão’ é um pouco mais ousado, retrata os trabalhos e histórias de artistas e artesãos regionais”, afirma Alexandre Fachin, diretor da Casa na Árvore.

A TAC Filmes, produtora audiovisual de Itajaí, tem dois projetos em desenvolvimento: o documental “A Cara do Futuro”, dividido em 13 episódios, que venceu o edital do Fundo Setorial do Audiovisual no valor de R$ 500 mil e será filmado no início do próximo ano para ser veiculado em TV, e a série de ficção “Austero”, um drama esportivo sobre a prática do boxe, ainda em captação de dinheiro. “’A Cara do Futuro’ é sobre futurismo e tecnologia, falamos sobre robótica e games. Em cada episódio retrataremos um case de tecnologia brasileira que são modelos de exportação”, adianta o diretor Diego Lara.

Divulgação/ND
Série apocalíptica sobre zumbis "Protocolo 43", possibilitada através de financiamento coletivo", conta a história de sobreviventes que fogem para a Serra do Rio do Rastro


TV Record também aposta em produções serializadas
Reconhecida pela excelência na produção de séries bíblicas desde 2012, quando “Rei Davi” chegou a ser exibida internacionalmente pelo canal FOX, a TV Record também segue apostando nos seriados – nos últimos anos, o canal produziu pelo menos cinco séries livremente inspiradas em histórias da Bíblia: “A História de Ester”, “Sansão e Dalila”, “Rei Davi”, “José do Egito” e “Milagres de Jesus”. Mas o canal televisivo não se atém a somente a adaptações de histórias antigas: no último ano, a TV Record produziu e veiculou a série de ficção “Plano Alto”, sobre as disputas políticas de poder em Brasília.

Neste ano, a emissora dá continuidade na veiculação de seriados. Além de exibir séries norte-americanos, como “Bates Motel” e “Grimm”, o canal veiculou a brasileira “Na Mira do Crime”, sobre um jornalista justiceiro que busca vingança pelo sequestro de sua filha, e também produziu e exibirá a segunda temporada de “Conselho Tutelar”, seriado de ficção que retrata os desafios no cotidiano de um experiente conselheiro tutelar que resgata crianças que sofrem abusos, agressões e outras formas de violência. O diferencial do seriado “Conselho Tutelar”, que tem previsão de reestrear em novembro deste ano, é que a produção é feita em 4K, ou seja, com qualidade quatro vezes superior ao Full HD – a melhor resolução de imagem para a TV.

Divulgação/ND
Segunda temporada do seriado "Conselho Tutelar" foi filmada em 4K pela TV Record e tem previsão de estreia para novembro de 2015



Entrevista: Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Pola Ribeiro, fala sobre a produção de seriados brasileiros:

Plural O senhor observa um crescimento na produção de séries brasileiras? Porque a produção do formato está em ascensão no Brasil?

Pola Ribeiro As séries televisivas têm crescido bastante no Brasil, por alguns fatores. O primeiro é a criação do Fundo Setorial do Audiovisual, para produções de cinema e televisão. Outro fator fundamental é a compreensão de que a televisão não deve ser pensada como um lócus de produção como missão existencial; ela tem por missão programar e exibir, e, quando faz isso, está recebendo um conteúdo que vem da sociedade, das produtoras, dos Pontos de Cultura, enfim, das outras organizações que trabalham com  conteúdo audiovisual.

Plural Acredita que as produções de seriados seguirão crescendo no país?  

Pola Ribeiro Sim, porque isso enriquece o processo democrático no momento em que diminui a concentração e abre portas para uma diversidade maior de pontos de vista, de olhares dos conteúdos. A tendência em um processo democrático é que a produção venha da sociedade. A programação da televisão, como teledramaturgia, é prioritariamente de série. E essa é a orientação que vem sendo dada para esse conteúdo junto às televisões públicas e privadas -  a produção de série. Tem se evitado, no financiamento das produções para televisão, os simples programas de auditório, talk shows, programas de bancada. Ou seja, o incentivo maior é para o crescimento das narrativas ficcionais serializadas brasileiras.

Plural Que gêneros de produções serializadas brasileiras você destacaria?

Pola Ribeiro Os processos de animação têm se mostrado reveladores, e várias séries brasileiras têm se destacado, inclusive na coprodução. Recentemente, na Argentina, participei da premiação de produtos audiovisuais argentinos para cinema e televisão, e um dos prêmios foi justamente para uma série de co-produção do Fundo Setorial do Brasil com a Argentina [“Vida de Pasantes”, filmada em Buenos Aires, com elenco dos dois países]. Então, é esse o panorama que está se desenvolvendo com um enriquecimento mais forte no setor audiovisual, com conteúdo brasileiro para o mercado de exportação.

O boom dos seriados brasileiros – confira os números das produções: 

Com cerca de 20 milhões de assinantes de TV paga, o país tem hoje 22 canais brasileiros que exibem mais de 21 horas de produção nacional por semana. Em 2011 eram apenas sete canais. Mais de 3.200 filmes e outras obras audiovisuais brasileiras foram licenciadas em 2013 para exibição na TV paga, quando em 2011 foram só 761. Em 2014 foram 506 obras seriadas brasileiras inéditas que estrearam na TV paga. Em 2011, apenas 73. É um crescimento de mais de 600% nas produções de séries brasileiras. E a tendência é de seguir crescendo. Temos, por exemplo, três editais (PRODAV 3, PRODAV 4 e PRODAV 5), que funcionam em regime de concurso, que são voltadas também para o desenvolvimento de projetos de obras seriadas, destinadas à televisão aberta e por assinatura. 

FONTE: Ancine (Agência Nacional do Cinema)

Publicidade

1 Comentário

Publicidade
Publicidade