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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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Seis jornalistas que acompanham o Guns N’ Roses desde os primórdios debatem a carreira da banda

Às vésperas do show em Florianópolis, reunidos em uma mesa de bar, eles discutiram os altos e baixos do grupo

Juliete Lunkes
Florianópolis

Com apenas dois integrantes da formação clássica, o Guns N’ Roses chega na próxima terça-feira a Florianópolis para o quinto show no Brasil desde o start da South American Tour. O palco do Devassa on Stage, que recentemente acolheu os californianos do Offspring, agora recebe Axl Rose e sua nova trupe, que deverão espalhar diferentes gerações de fãs pela pista e espaços VIP do local. Para discutir a conturbada carreira do grupo, os exageros de seu excêntrico vocalista e as possibilidades do show na Capital, o Plural convidou seis jornalistas que acompanham a banda desde os primórdios – entre eles uma fã fervorosa – para um papo de boteco. O resultado você confere a seguir.

 

Marco Santiago/ND
Carreira conturbada do Guns N' Roses em um papo de boteco

 

Quem são eles: Fabrício Rodrigues, 34 anos; Daniel Silva, 27 anos; Rachel Sardinha, 33 anos; Bruno Volpato, 31 anos; Gabriel Rocha, 36 anos; e Alexandre Gonçalves, 41 anos

 

O Guns N’ Roses foi do anonimato direto para as paradas da Billboard em 1987 com o lançamento do disco "Appetite for Destruction", de onde saíram hits como “Sweet Child O’Mine” e “Welcome to  the Jungle”. No Brasil, no entanto, houve um pequeno delay. 

  

Fabrício – Eu comecei a ouvir Guns pelo rádio, por volta de 1989. Eu ouvia bastante rádio e gravava fitas cassete.

Alexandre – Naquela época era diferente, porque o disco demorava a chegar. Acho que aqui chegou em 1989 ou 1990.

Fabrício - Eu morava em Guarapuava, no interior do Paraná, e eu lembro de ouvir na rádio “Sweet Child O’Mine”. Pra mim era “Blue Sky” o nome da música.

Gabriel – Eles ficaram mais conhecidos no Brasil quando vieram tocar no Rock in Rio, em 1991.

Fabrício - Foi quando eu comprei os discos. Eu tinha as fitinhas, mas foi ali que eu me empenhei. O (disco duplo) “Use Your Illusion” eu tive que comprar um com a mesada de setembro e outro com a mesada de outubro.

Alexandre – Estou me sentindo um velho.

Fabrício – Porque na época tu já trabalhava, né? (Risos)

Bruno – E tinha um lance que eu não sei se é memória desvirtuada, mas eu acho que os clipes estreavam no Fantástico. Eu vi o de “Patience”, mas não sei se foi em 1989 ou 1990.

Alexandre – Eu tinha uma banda e a gente fazia cover para aprender a tocar. Era Descover o nome. A gente descobria como tocar e desfazia as músicas. Tanto que a gente tocava “Knocking on Heaven’s Door” tudo misturado, mas aí fomos ver quem era Bob Dylan. O Guns apresentou uma música que a gente não conhecia e que era legal tocar. Três acordes, solo legal, facinho, baixo divertido de fazer.

Fabrício – Para mim o Guns N ‘Roses abriu uma caixa de pandora.

Alexandre – Eu realmente queria saber se o “Appetite for Destruction” saiu no Brasil em 1987.

Fabrício – Eu não sei, mas é possível. Acho que sim, porque tinha toda a divulgação mundial. Deve ter saído, mas a ficha caiu uns dois anos depois.

Daniel – Meu caso foi diferente, porque eu sou mais novo. Eu só conheci o Guns em 2000. Eu comecei a ouvir rock com Green Day e Metallica e todo mundo dizia que eu tinha que ouvir Guns N’Roses. Aí eu fui conhecer e coincidiu com a época de eu começar a ir aos bailinhos e sempre tocava “Sweet Child O’Mine”.

 

Esse Guns N' Roses que está no Brasil para um total de sete shows é melhor do que aquele dos primeiros discos, no final dos anos 1980 e início dos 1990. Ao menos essa é a opinião do tecladista Dizzy Reed, membro mais antigo do grupo, além do líder Axl Rose. 

 

Rachel – Para mim a formação clássica é a do “Use Your Illusion”, com o Matt Sorum.  Só que a melhor formação eu acho que é a de hoje, porque os músicos são muito bons. Podem dizer que eu gosto e tal e que por isso eu defendo, mas eles conseguiram montar uma empresa e conseguiram contratar colaboradores que fazem muito bem seu trabalho. Tem o Ashba, que é um cara todo moderno, o Bumblefoot, que é o metaleiro, dois tecladistas, um baterista que toca pra c******. Então eu acho que eles conseguiram, fazer um negócio. E não é só mérito do Axl, a Beta e o Fernando (Lebeis) por trás conseguem manter isso também.

Daniel – Ela sabe até o nome das pessoas que estão em volta da banda...

Rachel – Os managers.

Daniel – Essa formação nova é muito boa, na verdade. O Bumblefoot é um dos melhores guitarristas do mundo.

Rachel – Eu fiquei muito feliz quando o Dizzy Reed disse isso. Ele está há uns 20 anos na banda.

Daniel – Marketing. Óbvio que ele vai dizer que é a melhor.     

Rachel – Eu sempre defendi isso, ninguém vai concordar comigo, porque Guns é aquela coisa, ou ama ou odeia.

Bruno – É, tecnicamente é a melhor, né.

Daniel – O Guns acabou quando saiu o Slash.

Fabrício – O Guns acabou pra mim quando saiu o Izzy Stradlin. Essa formação atual está levando adiante, mas a formação clássica fez o mito.

Alexandre – Quando tem uma banda que tu curtiu e fica um cara só, tu torce o nariz. Tipo o Engenheiros do Hawaii.

Gabriel – Tu se sente meio enganado.

 

Marco Santiago/ND
Alexandre, Gabriel, Daniel, Rachel, Bruno e Fabrício com os LPs da banda

 

Durante os tempos áureos do Guns N’Roses, Axl era conhecido pelos excessos. Hoje, mais velho, com alguns quilos a mais e sem o mesmo fôlego de antes, ele ainda comete certos exageros, mas segue sendo um heroi para muita gente.

 

Daniel – O Guns reunia todas as qualidades que uma banda tem que ter. Foi uma das últimas que levaram a sério o negócio de sexo, drogas e rock’n’roll, dos excessos, disco duplo, festas.

Alexandre – De quebrar quarto de hotel...

Bruno – Eles eram de uma geração poser heavy metal.

Daniel – Eles estavam na cena heavy metal, mas pra mim eles nunca foram.

Alexandre – Não, é hard rock.

Daniel – Tu não pode comparar Guns com Danger Danger, Winger...

Bruno – Ou com Poison. Mas eles estavam lá.

Daniel – O Guns sempre teve atitude e foi mais próxima do heavy metal, eu acho. Pelo Menos o “Apettite for Destruction” é um disco de heavy metal, para mim.

Fabrício – É um rock sujo.   

Daniel – E eles tinham um guitar hero.

Bruno - Um front man e um guitar hero.

Fabrício – Eu estava vendo ontem o show do Rock in Rio 2, o Pedro Bial dizia “O Axl está com a mesma calça de três dias atrás, e parece que eles estão consumidos por estimulantes do altiplano boliviano”, e a banda lá empolgada.

Rachel – E meu pai falando “ah, esses drogados”.

 

Desde 1987, as opiniões sobre Axl Rose e sua banda se dividem entre o mais puro amor e o ódio eterno. Com o passar dos anos e a saída dos integrantes originais, as críticas só aumentaram e hoje recaem quase que em sua totalidade em cima do vocalista. E motivos não faltam.

 

Rachel – Por que todo mundo odeia Guns?

Fabrício – Ninguém odeia.

Daniel – É pela novela “Chinese Democracy”.

Bruno – Porque o Axl é uma mala.

Daniel – O que vocês acham do Axl Rose como cantor?

Fabrício – Limitado. Mas acho um ótimo letrista.

Gabriel – Me irrita.

Daniel – Eu acho ele f***.

Alexandre – Hoje ele não tem mais fôlego.

Bruno – Mas não dá pra usar aquele último show do Rock in Rio como parâmetro para isso. Em 2007 ou 2008 teve um show deles na Alemanha, no Rock am Ring, que foi um showzasso, eu vi no youtube.

Fabrício – O Axl tem mais personalidade que o Steven Tyler.

Bruno – Ele disse que parou de usar drogas

Rachel – Em 93, num show que eles fizeram na Argentina a polícia invadiu o quarto que ele estava com a Stephanie (Seymour), revirou tudo procurando droga e não achou nada.  Ele era um dos únicos que não estavam mais cheirando, injetando. Mas a verdade é que o Guns eram uns moleques de 20 e poucos anos que levavam a sério o sexo, drogas e rock’n’roll. Hoje em dia eles têm 50 e tantos anos, é uma empresa.

 

Há uma possível unanimidade em questão: apesar de o Guns N’ Roses arrastar multidões para seus shows até hoje, nenhuma grande banda foi influenciada diretamente por eles da mesma maneira que outros grupos o influenciaram. E há um culpado.

 

Rachel – No “Appetite” você consegue ouvir Judas Priest, Queen, Sex Pistols, tem ali atrás tudo isso, você vê muito a influência que eles tinham. Nos primeiros shows do Guns eles usavam camiseta do New York Dolls.

Bruno – Quando o Nirvana surgiu, eles usavam boné do Nirvana.

Rachel – Eles sempre tiveram uma rixa. Eles convidaram o Nirvana para ser a banda de abertura da turnê com o Metallica e eles negaram.

Gabriel – Depois do Nirvana o Guns ficou obsoleto. Foi um timing ruim. Se o Guns tivesse ainda naquela vibe do “Appetite”...

Alexandre – Eles vão lá e lançam um disco duplo, cheio de piano, com músicas de sete minutos, aí chega o Nirvana e créu.

Bruno - Quem o Guns influenciou?

Rachel - Banda? Nenhuma

Gabriel - Não tem um legado.

Daniel - Mas o Slash deixou um legado.

Bruno - Que guitarrista cita Slash, por exemplo?

Fabrício – Cara, ele é um dos meus quatro solistas prediletos, mas eu queria falar do Izzy, que era o segundo guitarrista e compositor. Ele e o Axl começaram a banda.

Gabriel - A banda desandou quando ele saiu.

Fabrício – Justamente. Para mim pelo menos ele é o mais importante porque ele fazia os riffs, o Slash era o mestre do solo, mas era o bicho que segurava lá.

Alexandre - A gente falou de legado, beleza. Não tem legado porque não tem nenhuma banda seguidora do Guns N’ Roses, mas tem um p*** repertório. Se o Axl tivesse seguido carreira solo esse legado de repertorio teria sido melhor preservado. Como ele insistiu com a banda, acho que queimou o filme.

 

Em 1996, o Guns N’ Roses começou a trabalhar no disco que sucederia o “The Spaghetti Incident”. O novo trabalho, intitulado “Chinese Democracy”, teve todas as datas de lançamento canceladas durante anos e acabou virando lenda entre os fãs, até em que 2008, o álbum finalmente saiu.

 

Gabriel - Eu nunca ouvi o “Chinese Democracy”, nunca tive curiosidade.

Fabrício – Eu gosto de duas músicas.

Rachel – Desse disco nos shows eles tocam “Better”, “Chinese Democracy” e “Madagascar” às vezes.

Bruno - Pode ser uma piração minha, mas eu achei o que o disco fez sentido como uma sequência daquela ultima faixa do “Use Your Illusion 2” , a “My World”.

Daniel - Mas por todos os anos que a gente esperou, é uma m****. 

Fabrício – É uma m****, concordo contigo. Eu já esperava uma m****.

Rachel – Vocês esperavam, eu não esperava. Se aqui for o mesmo show que eu vi em Las Vegas em 2012, são três músicas do “Chinese Democracy”. E o mais legal é que a plateia é gente muito nova, é um púbico eu se renova.

Alexandre - E como isso acontece com uma banda que, em tese, não dá as caras? A banda não deixou legado e o público se renova?

Gabriel - Até 2000, 2001 tu não via ninguém com a camiseta do Guns na rua.

Rachel – Eu tinha que usar elas do lado avesso pra não sofrer bullying, em 1992. Eu tinha 12 anos e acho que todas as minhas camisetas eram do Guns.

 

Em sua biografia, Slash afirmou que, ao ficar sabendo de sua saída, Axl fez ligações para alguns de seus familiares e amigos tentando convencê-los de que o guitarrista estava cometendo o maior erro de sua vida. Foi mesmo?

 

Fabrício - Não.

Daniel - Eu acho que não. Porque hoje ele estaria ganhando só dinheiro.

Rachel - Eu acho que eles ainda vão voltar

Fabrício - O problema do Guns foi o seguinte: não teve discussão. Não teve retorno

Daniel – “A banda é minha e chupa”.

Fabrício - Justamente. A banda é o Axl. O Axl tirava onda do Izzy Stradlin, dizia “ah, ele quer ser o cara da banda de apoio do Keith Richards? Bom pra ele. Eu sou o Guns N’ Roses, eu sou a banda”. Durou dois anos.

Daniel - E se o Slash estivesse hoje? Ali no Stage cabem cinco mil pessoas? Iriam 20 mil.

Fabrício - Eu iria.

Gabriel - Eu iria também.

Rachel - E se no dia seguinte do show aparece a notícia de que o Slash foi de surpresa? Porque o Izzy fez isso, né.

Fabrício – Daí perdi. Ia ser um arrependimento grande.

Rachel – Mas eu acho que um dia o Slash, o Duff, o Matt Sorum vão fazer shows para ganhar dinheiro.

 

E na próxima terça-feira, após passar por cinco cidades brasileiras, o Guns N’Roses finalmente aterrissa em Florianópolis.

 

Rachel - Eu quero saber quem fazer coro comigo no show.

Fabrício – Eu não vou ao show.

Bruno - Quem consegue ir a um show que tem área vip, camarote? É muito deprê.

Alexandre - Quem é que vai?

Fabrício - A Rachel.

Rachel - Eu comprei ingresso na pré-venda porque eu sou do fã-clube oficial.

Alexandre - Sem piada e sem bullying com a Rachel, mas isso que a gente falou aqui do público renovado, Florianópolis não tem essa fama, né? Acho que vai um pessoal de modinha.

Rachel - Eu acho que vai ter os socialites colunáveis e também vai ter outro público, eu sei porque falei com amigas minhas que vão levar o filho de 12 anos. Quando eu tinha 12 eu fui ao show e agora minha amiga está levando o filho dela porque ele gosta.

Fabrício - Se o Guns chegasse e falasse que vai tocar o “Appettite for Destruction” inteiro, eu iria.

Rachel - Mas é praticamente isso, Fabrício.

Fabrício – Mas eu não vou. Vou me arrepender, mas não vou.

Rachel - Não sei se é porque eu estou com 30 e poucos e na época eu tinha 12, mas o melhor show que eu fui deles foi em 2012.

Fabrício - É que pro fã, este ser inexplicável, é uma coisa muito pessoal.

Daniel - Se o Axl fizesse um CD de samba a Rachel ia gostar.

Gabriel - Axl Rose plays Compadre Washington

Daniel - Eu iria no show do Guns para dizer que eu vi o líder de uma das bandas mais consagradas do rock. Ponto. Não sou o maior fã do Guns, acho o Axl um p*** cantor, mas eu iria para testemunhar esse momento

 

Agradecimentos: Taliesyn bar.

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