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Terça-Feira, 22 de Janeiro de 2019
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Santa Catarina já foi palco de shows memoráveis, inclusive de alguns que nunca aconteceram

Ramones, Raul Seixas e Gilberto Gil fizeram história em vindas ao Estado, enquanto outros shows não passaram de lendas

Juliete Lunkes
Florianópolis

O ano era 1994, a cidade, Balneário Camboriú. Por mais estranho e inacreditável que a notícia pudesse parecer, era mesmo verdade: no dia 11 de novembro, os Ramones desembarcariam no pavilhão da Santur, para onde levariam a tour “Acid Chaos”. E mais: tocariam antes do Sepultura, com abertura dos Raimundos.

Rachel Sardinha/Arquivo Pessoal
A jornalista Rachel Sardinha Guarda até hoje o ingresso do show que foi quando tinha 14 anos

 

A informação logo se espalhou para as cidades próximas, chegou à Capital, ao interior, e as caravanas já começavam a se formar, afinal, ninguém era louco de perder um dos shows mais épicos que Santa Catarina já recebeu. Ao lado, é claro, de apresentações emblemáticas como a de Raul Seixas, em 1989, em sua primeira e única turnê por Santa Catarina, dos Doces Bárbaros, que tiveram a turnê interrompida por causa da prisão de Gilberto Gil na Ilha, e outros clássicos que não passaram de lendas: o show da banda alemã Accept, que nunca aconteceu, e o boato de um possível show do Pink Floyd na Serra do Rio do Rastro.

 

Jovens enlouquecidos e uma porta quebrada

Quem acreditou comprou o ingresso, quem não acreditou, perdeu. Ou entrou sem pagar mesmo. Apesar de não ter registrado nenhum ato mais grave de violência e selvageria naquela junção de punks e metaleiros, o show dos Ramones em Balneário Camboriú, em 11 de novembro de 1994, guardou algumas histórias. O jornalista Bola Teixeira, ramoneiro assumido já na época, foi cedo em direção ao pavilhão da Santur para não perder nenhum detalhe do acontecimento da década, tudo estaria relatado no jornal semanal para o qual trabalhava. 

“Eu já cobria vários shows na época e na hora em que soube dos Ramones imediatamente pensei em cobrir também. Fui lá bem cedo e já tinha uma fila quilométrica, nunca vi coisa igual. A fila ia aumentando e a produção do show não abria nunca o portão de vidro do pavilhão, até que o público o quebrou em mil pedaços e começou a entrar, acho que nessa hora um monte de gente inclusive entrou sem pagar. E o presidente da Santur quando viu aquilo só colocou as mãos na cabeça e deve ter pensado ‘meu deus, para quem eu fui alugar o pavilhão!”, lembra.

Bola Teixeira/Divulgação
Bola Teixeira conseguiu fazer um retrato de Joey Ramone, único registro que não ficou no arquivo de imagens do jornal onde trabalhava

 

A também jornalista Rachel Sardinha se empenhou ainda mais para conseguir ver seus ídolos. Moradora da Capital, com apenas 14 anos, ela, que era frequentadora assídua da loja de discos Roots Records, ficou sabendo no meio daquele ambiente cheio de gente ligadíssima em música que os Ramones estariam ali pertinho.

Por um amiga acabou sendo informada também de uma excursão em um micro-ônibus que faria um bate-volta para Balneário Camboriú no dia do show pelo valor de R$30, com ingresso incluso.

“Eu acabei indo com essa amiga na excursão. Com 14 anos você já acha que é grande, então eu me meti nas rodas punks, coisa que jamais faria hoje. No dia eu não vi, mas depois soube que teve uma confusão, que quebraram a porta de vidro do pavilhão do show e que algumas pessoas entraram sem pagar. Mas eu lembro que não estava lotado, dava para andar normalmente, mas era muito quente lá dentro”, recorda Rachel.

Apesar de já não estarem mais no auge de sua carreira, de acordo com os dois jornalistas, os Ramones não decepcionara no palco.

“Os Raimundos tocaram primeiro e depois desceram para ver os Ramones tocarem. E os Ramones eram daquele jeito que a gente conhecia, eles subiam no palco, colocavam o pé numa posição e ficavam nela até o fim o do show, mas eles estavam bem. Depois deles tocou Sepultura”, conta Rachel. “O show era uma música atrás da outra, eles não paravam para nada, nem pra beber água”, lembra Bola.

 

Em fim de carreira

Edgard Sheng foi um dos responsáveis por trazer a Santa Catarina, mais precisamente para Florianópolis, Criciúma e Itajaí, a primeira e única turnê de Raul Seixas no Estado, poucos meses antes de sua morte, no dia 21 de agosto de 1989, em decorrência de uma pancreatite aguda. O show da Capital, que na verdade foi em Palhoça, reuniu cerca de sete mil pessoas na antiga danceteria Pirâmide. Em seguida, Raul foi para Criciúma, onde tocou para quatro mil pessoas, e Itajaí, onde se apresentou para outras três mil.

“Esse show inicialmente era para ser só do Marcelo Nova, do Camisa de Vênus. Aí depois ele me ligou e disse que a partir de agora o show seria ‘Marcelo Nova e a Envergadura Moral  com a participação especial de Raul Seixas’, então tá!”, lembra o produtor, um dos nomes por trás da organização do lendário festival Palhostock, anos antes.

Edgard lembra que Raul já não estava bem naquele período, momento em que passava por um tratamento contra as drogas e álcool. O comentário geral do público nos shows era de que Marcelo Nova dominava o palco, já que Raul estava praticamente sem condições de pegar no microfone. Em Palhoça, a plateia indignada com a performance chegou a atirar objetos contra o palco, enquanto em Itajaí, o público foi um pouco mais condescendente com a situação do cantor.

“Lembro que antes do show fomos comer camarão junto com o empresário dele e com o Marcelo Nova na Joaquina. Ele me chamava de Buffalo Bill Cósmico”, conta Edgard.

O repertório dos shows incluíram clássicos como “Maluco Beleza”, “Cowboy fora da Lei”, “Rock das Aranhas”, “Metamorfose Ambulante” e “Sociedade Alternativa”, e a formação da banda, além de Raul e Marcelo Nova, contava também com os músicos Johnny Boy, Franklin Paolillo, Gustavo Mullem e Petch Calasans.

 

No xadrez

Em junho de 1976, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia se uniram para cantar juntos como um grupo chamado Doces Bárbaros. Da estreia em São Paulo até a turnê que passou por Florianópolis não demorou muito, e no dia 6 de julho o quarteto desembarcava na Capital catarinense com sua banda para uma apresentação no dia seguinte, no Clube Doze.  O que eles não esperavam era logo cedo receber a visita do delegado Elói Gonçalves de Azevedo, que amanheceu afoito para levar para trás das grades o jornalista Beto Stodieck, responsável pela organização do show dos Doces Bárbaros na cidade.

Uma reportagem publicada na extinta revista Manchete no mesmo ano narrava com detalhes a visita de Elói e sua equipe nos quartos do hotel de cada um deles: “Antes do horário estipulado pela lei para efetuar a invasão de um domicílio suspeito, ele (o delegado) entrou no apartamento do jornalista e nada encontrou. Para não perder a viagem, reuniu a equipe e rumou para o hotel Ivoram, onde não só os Doces Bárbaros estavam hospedados, como seus técnicos, músicos, empresários e acompanhantes. Após se identificar na gerência e conseguir a relação dos hóspedes, o delegado e a equipe passaram à ação. O primeiro apartamento vistoriado foi o 306, de Gilberto Gil”. Dali em diante, a história já é bem conhecida.

O delegado encontrou maconha na carteira de Gil e imediatamente deu voz de prisão ao cantor e ao baterista Chiquinho, que também portava algumas gramas da droga. Os dois foram encaminhados para a delegacia, prestaram depoimento e mais tarde, por determinação do delegado, foram conduzidos a uma clinica para tratamento. A dupla precisou permanecer no local por 20 dias, o que arruinou totalmente o restante da turnê dos Doces Bárbaros.

Reprodução/ND
A revista Manchete denunciou o ocorrido com Gil em Florianópolis

 

Outros que nunca aconteceram

Ninguém sabe muito bem como a história começou, mas entre o final dos anos 1990 e o começo dos 2000, um boato de que o Pink Floyd faria um show na Serra do Rio do Rastro intrigou alguns fãs da banda. O dono de um hotel próximo ao local inclusive teria sido consultado a respeito das condições do lugar para receber o show por produtores interessados em levar a banda para lá. Por razões óbvias, as curvas da Serra não seriam o local mais apropriado para um evento daquele porte e, por isso, dizem, ele nunca aconteceu.

O empresário não foi encontrado para comentar o assunto, mas a piada rendeu, durou anos, e mais tarde ganhou até um cartaz debochado feito pelo publicitário Fernando Pascale, que na arte trazia ainda a referência de outro show que nunca aconteceu: o da banda de heavy metal alemã Accept.

O ano era 1993 e seria o primeiro show deles no Brasil, logo em Florianópolis. O produtor, identificado como JC Castañeda, elaborou um cartaz, divulgou o show, o local (o Babilônia Club, um antigo cinema pornô no bairro Estreito), vendeu ingressos, fez fãs viajarem do interior para a Capital e a banda nunca apareceu.  

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