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Rodrigo de Haro é padrinho do Festival Literário Internacional Catarinense

O artista parisiense, mas morador de Florianópolis, será o homenageado da Flic, que começa na quarta-feira (12), em Palhoça

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
07/10/2016 às 15H11

Não poderia haver alguém mais talhado que Rodrigo de Haro para assumir a condição de homenageado num festival literário que traz a palavra “internacional” no nome. Nascido em Paris em 1939, ele foi criado numa Florianópolis provinciana, porém “festiva, feérica” (nas suas próprias palavras), e é dono de uma erudição pouco comum na cidade onde mora. Conhece a história universal, bebeu na fonte das grandes mitologias e tradições, cita os clássicos da arte e da poesia com desenvoltura. De uma família de artistas, pinta e escreve com refinamento e tem mercado nos principais centros do país. Reúne, portanto, todos os requisitos para apadrinhar um evento cultural do porte do Festival Literário Internacional Catarinense, que vai de 12 a 16 deste mês na Cidade Criativa Pedra Branca, em Palhoça, na Grande Florianópolis.

Rodrigo de Haro - Flavio Tin/ND
Rodrigo de Haro, homenageado do evento é dono de uma erudição pouco comum na cidade - Flavio Tin/ND



O evento, ousado e eclético, não traz só literatura. Com esmero, os organizadores souberam mesclar escritores de cinco países com uma programação que contempla o debate sobre arquitetura, urbanismo, sustentabilidade, empreendedorismo, inovação e tecnologia – áreas que, bem trabalhadas, podem tornar mais prazeroso viver nas cidades. E mais, incluíram na agenda a gastronomia, a música e atrações para o público infanto-juvenil. Como nada é estanque, isolado, o festival coloca em mesas e horários próximos figuras como o arquiteto Cassio Taniguchi e o jornalista Ruy Castro, o chef Narbal Corrêa e o escritor holandês Harrie Lemmens. E ainda programou um show com Arnaldo Antunes, ele próprio dado a produzir literatura.

Para Rodrigo de Haro, entusiasta do evento, ter sido convidado foi uma surpresa e um reconhecimento, embora ele se diga avesso a homenagens. Em seu atelier na Lagoa da Conceição, repleto de telas em produção febril, ele às vezes deixa os pincéis de lado para tomar um livro, depois vai cuidar do jardim, mais tarde retoma a escrita, como poeta que é. Para as visitas, mostra trechos do livro “Lanterna mágica”, cujos poemas lerá em recital no dia de abertura do festival, quarta-feira, às 19h30. Interrompe a leitura e volta aos egípcios, faz referência aos gregos, cita os romanos, brinca com os ibéricos – e também relembra do batuque que reverberava no Morro do Céu, em Florianópolis, quando era jovem, e era ouvido na casa paterna, um casarão na rua Altamiro Guimarães. Dali, no silêncio da urbe, conseguia ouvir, apesar da distância, o barulho do rodado dos carros sobre o piso de madeira da ponte Hercílio Luz.

O Flic (Festival Literário Internacional Catarinense) tem como patrono o professor Celestino Sachet, autor de várias obras sobre a literatura catarinense. Além de Rodrigo de Haro, haverá homenagens (in memoriam) a Salim Miguel e Júlio de Queiroz, que morreram este ano. Também serão homenageados a Barca dos Livros, projeto de difusão da literatura em Florianópolis, e o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, que completou 120 anos no mês de setembro.

Um retorno aos ícones clássicos

Assim como o pai Martinho de Haro (1907-1985), verbete essencial na história da pintura catarinense, que se sentou à frente do cavalete até o último dia de vida, Rodrigo faz de sua casa um estúdio onde a pintura e a poesia são alimentos cotidianos. Não liga para as tecnologias e plataformas digitais, mas se surpreendeu, dias atrás, com um taxista lendo Charles Dickens num tablet, enquanto esperava pelos clientes. Cita esse episódio enquanto apresenta obras nas quais o baralho, o tarô, os vasos de flores, o zodíaco e a figura de Santa Catarina de Alexandria têm deferência especial. Quase 40 telas parecidas com estas estão desde sexta-feira numa individual que abriu na Galeria Helena Fretta, na Capital. Na literatura, muito do que é manuscrito, antes de ir para as editoras, vem das referências da velha e pacata cidade da adolescência, e a outra parte é extraída da vasta bagagem intelectual arrebanhada em viagens, nas leituras e no contato com as ruas e bares da cidade. Entre seus livros estão “Pedra elegíaca”, “Amigo da labareda” e “Folias do ornitorrinco”.

Conversar com Rodrigo de Haro é uma aula sobre a cultura clássica, o cinema de países periféricos, figuras como o monge São João Damasceno (675-749 d.C.) e a filantropa Beatriz de Luna (1510-1569). Ele cita trechos de “As bacantes” de Eurípedes, do escritor francês Anatole France, fala de Santa Teresa de Ávila e de uma versão cinematográfica de “Eugènie Grandet”, baseada em Balzac e filmada na Itália em 1943. Para fechar, e mostrar que o mundo é uma roda, resgata da memória a presença de uma figura conhecida como Príncipe de Obá, nobre africano escravizado que vendia doces perto do Mercado Público de Florianópolis, em meados do século passado. Coisas de uma cidade que tem seus problemas, mas que é capaz de organizar um festival internacional de literatura num momento em que os romances e a poesia quase não saem das prateleiras. “Tenho absoluta certeza de que vai dar certo, porque os organizadores demonstram uma ilimitada capacidade criadora”, afirma Rodrigo, apostando no sucesso do evento.

Dos livros às ‘cidades caminháveis’

Nelson Rolim e Roberto Costa - Flavio Tin/ND
Nelson Rolim e Roberto Costa - Flavio Tin/ND



O curador do Flic (Festival Literário Internacional Catarinense), o jornalista e editor Nelson Rolim de Moura, usou os recursos do evento, viabilizado por meio de projeto encaminhado à Lei Rouanet, para trazer escritores do Uruguai (Fabián Severo e Gustavo Espinosa), Argentina (Carlos Ríos e Ana Porrúa), Portugal (Ana Carvalho e Nuno Camarneiro) e Holanda (Harrie Lemmens). Eles vão debater temas instigantes como a convergência de olhares e a irreverência na literatura latino-americana. No mesmo horário, em outro ambiente, assuntos díspares como o Contestado, espaços para a cultura, habitação popular e “cidades caminháveis” estarão no centro das discussões. Ali mesmo, os escritores Flávio José Cardozo, Deonísio da Silva e Carlos Schroeder falam sobre a literatura produzida em Santa Catarina, suas virtudes e percalços.

“O foco é a literatura, mas ela não estará sozinha”, reforça o diretor geral do festival, o publicitário Roberto Costa. Dono da Propague, com mais de 50 anos de atuação em Santa Catarina, ele diz que a agência sempre esteve ao lado da cultura, porque publicou livros, gravou discos e CDs e patrocinou eventos em diferentes áreas. Com a conta da Cidade Pedra Branca desde 2010, foi ali, num espaço associado a requinte e bom gosto, que ele achou por bem realizar o Flic, que tem no Festival Literário de Paraty um parâmetro, mas que também se inspira no êxito de eventos similares em cidades catarinenses como Joinville e Jaraguá do Sul. “O importante é o conteúdo”, diz o publicitário ao referir-se tanto ao evento quanto aos livros, que são o mote do festival.

Nelson Rolim, dono da editora Insular, uma das mais ativas do Estado, diz que a literatura e o livro são nucleadores, mas que o conhecimento, o prazer e a intervenção também foram fatores de peso na montagem da programação. Conhecedor do meio, ele foi buscar nos países vizinhos nomes em ascensão nas letras, porque havia limitação de tempo e recursos para trazer autores consagrados. “Não se esqueça de que Paraty começou com 150 pessoas”, adverte ele, lembrando que na próxima edição do Flic, em 2018, haverá mais tempo para organizar o evento. Os escritores convidados também vão lançar seus livros, e a eles se juntarão nomes locais como Nei Duclós, Reinaldo Lohn, Moacir Pereira, Celestino Sachet, Lélia Pereira Nunes, Mário Prata e Paulo Markun. O próprio Arnaldo Antunes, responsável pelo show musical de quarta-feira, participará de uma sessão de autógrafos no festival.

Evento de três línguas e muita inspiração

Harrie Lemmes - Divulgação
Harrie Lemmes é tradutor de autores, como Machado de Assis e Luiz Fernando Veríssimo - Divulgação



Uma das presenças de destaque no festival é a do escritor holandês Harrie Lemmens, autor do livro “Deus é brasileiro” e tradutor de autores como João Ubaldo Ribeiro, Machado de Assis e Luiz Fernando Veríssimo, além dos portugueses Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e José Saramago. De Portugal, vem Nuno Camarneiro, vencedor do prêmio Leya, maior distinção literária de seu país, em 2012, com o romance “Debaixo de algum céu”, já traduzido para outros idiomas. Também portuguesa, a fotógrafa e tradutora Ana Carvalho participará da mesa “Convergência de olhares”, com Lemmens e Camarneiro, na tarde do dia 14, sexta-feira.

Da Argentina, vêm Carlos Ríos, poeta e novelista, com nove livros publicados de 2001 para cá, incluindo “Manigua”, traduzida para o português por Antonio Carlos Santos e Joca Wolff e publicada pela editora Cultura e Barbárie, e Ana Porrúa, poetisa e ensaísta que tem cinco livros publicados e edita as revistas “Bazar Americano” e “El Jardín de lós Poetas”, além de manter o site Caja de Resonancia. Também estão confirmadas as presenças dos uruguaios Fabián Severo, poeta e professor premiado e traduzido para o português e o inglês, e Gustavo Espinosa, igualmente premiado e que circula pelas áreas da literatura, da música e do magistério.

Entre os brasileiros, destaque para Ruy Castro, jornalista, autor de biografias sobre Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, além de livros sobre a Bossa Nova, o samba canção e os clássicos do cinema de Hollywood; Mário Prata, dramaturgo, jornalista e cronista com prêmios no currículo e a autoria de telenovelas como “Estúpido cupido” e “Sem lenço, sem documento”; Paulo Markun, que escreveu obras sobre Anita Garibaldi, Alvar Nuñez Cabeza de Vaca e Vladimir Herzog; e Deonísio da Silva, com livros consagrados como “Avante, soldados: para trás” e “Lotte & Zweig” e que hoje, entre outros, tem vínculo com a Editora da Unisul.

Entre os catarinenses que vão participar das conferências e lançamentos estão Carlos Henrique Schroeder, Maria Tereza Piacentini, Lélia Pereira Nunes e Flávio José Cardozo.

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