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Reynaldo Ramos, o workaholic de carteirinha, fala sobre sua carreira e aposentadoria

Diretor superintendente do Grupo RIC redefiniu as prioridades e está começando uma nova vida

Janine Alves, especial para a Inspira
Florianópolis
15/06/2018 às 21H00

A aposentadoria envolve muito mais do que um projeto de vida, exige também preparação financeira e emocional. Para entender esse processo conversamos com Reynaldo Ramos, para saber como ele, um workaholic de carteira, decidiu se aposentar. Ao chegar à sua sala na última semana de trabalho a sensação é de que nada havia mudado, mas aos poucos, com o desenrolar da conversa o que se apresentou foi um processo intenso de autoconhecimento e de dedicação às causas em que acredita. Se a vida profissional foi pautada pela rede de relacionamentos, no comprometimento e no desafio que se colocava em cada proposta de trabalho recebida, a vida pessoal teve como pano de fundo o sentimento de compromissos adiados.

Reynaldo Ramos, diretor superintendente do Grupo RIC, relembra a trajetória e fala sobre a madura decisão da aposentadoria - Marco Santiago/ND
Reynaldo Ramos, diretor superintendente do Grupo RIC, relembra a trajetória e fala sobre a madura decisão da aposentadoria - Marco Santiago/ND



Reynaldo Ramos nasceu em Tubarão, município localizado na região Sul de Santa Catarina, mas veio para Florianópolis para estudar. Ele fala com orgulho que a sua mãe sempre teve o propósito de que todos os filhos se formassem na universidade. Ele se formou em administração de empresas, integrando a primeira turma do curso de Ciências da Administração da UFSC após o reconhecimento do curso pelo MEC; trabalhou nas principais emissoras de Santa Catarina, mas foi no Grupo RIC, ao lado da família Petrelli, que permaneceu por 28 anos e construiu não apenas uma trajetória profissional de sucesso, mas trabalhou para que hoje a empresa pudesse ostentar o título de maior grupo de comunicação regional do Brasil.

 

Como começou a sua vida profissional?

Eu vim de uma família trabalhadora. Era uma família grande, mas todos tiveram condições iguais. Tivemos uma boa vida em Tubarão, depois fomos para o Rio Grande do Sul e de lá viemos para Florianópolis. Viemos porque faltavam dois anos para o meu irmão fazer vestibular. A minha mãe colocou como meta que todos os filhos tinham que estudar e de preferência fazer o curso na universidade federal. Era o sonho dela que todos os filhos tivessem diploma e ela trabalhou muito para isso. Essa decisão estruturou a família. Todos os meus irmãos fizeram universidade e eu sou formado em administração. Sou da turma de 1976, passei na primeira turma da UFSC.

 

Como aconteceu a transição para a TV?

Eu já trabalhava no meio da publicidade. Eu trabalhava na representação de uma empresa carioca de painéis, na época representávamos a Globo e entre os clientes tínhamos a RBS. Em 1980 tinha acabado de casar, eu estava formando, fui à festa da RBS de final de ano e o Nelson Sirotsky disse que os caras falavam muito bem de mim e disse “eu também quero falar contigo”. Saí da empresa de painéis e fui para a RBS e lá fiquei oito anos e meio. Fiz Florianópolis, Blumenau na TV Coligadas – a RBS comprou a TV Coligadas que era do Petrelli - fiquei três anos lá e voltei para Florianópolis como gerente comercial. Por fim, Douglas Mesquita virou executivo do Grupo Eldorado na área de comunicação e me chamou para ir trabalhar com ele. Ficamos um ano conversando até que ele perguntou o que me faria mudar de ideia e eu disse “ser o principal executivo da emissora aliado a uma boa grana’. No final ele fez uma proposta maravilhosa, irrecusável e eu fui para trabalhar em Itajaí. Conquistamos a liderança e fizemos um projeto muito bom para a cidade. Depois veio o SBT (que hoje é a Record), mas era muito pequeno. Na época o presidente me pediu para ajudar a vender o carro dele para pagar a folha, isso era o tamanho no nosso negócio. Isso aconteceu no final de 1989 quando a sede da empresa era na Mauro Ramos. Nessa época nós só tínhamos três clientes da área privada, quando houve o Plano Collor que confiscou a poupança. E isso foi a nossa redenção, pois a partir dali fizemos grandes negócios, muitas parcerias, pagamos todas as dívidas e começamos a crescer. E não paramos mais. Enfrentamos muita concorrência que dizia que a gente não entregava o que vendia, que não tínhamos sinal – o sinal era mesmo muito ruim – e nós respondíamos ao mercado.

Sempre conectado com as tecnologias, Reynaldo conta satisfeito que acabou de fechar um grande negócio por WhatsApp e mostra como as negociações evoluíram no meio.

Era muito trabalho, a gente não sabia nem aonde ia estar. Eu ia para Joinville e acabava o dia em São Paulo. Eu saía para participar de uma reunião em Itajaí e ficava lá por três dias. E hoje fechei um grande negócio pelo WhatsApp sem falar pessoalmente com ninguém. E o que cresceu muito foi a relação. Também trabalhei em Blumenau três anos, em Itajaí dois, montei uma rádio em Joinville e em seis meses conseguimos a liderança e o Top de Marketing. Isso com muita equipe, muito conhecimento de pessoas. Sempre procurando a troca nos relacionamentos. Isso me deu um bom status profissional no mercado. Eu tinha um palm top com mais de 2000 nomes, na época do telefone fixo eu já tinha telefone no carro. Naquela época o mercado se reunia muito, fumava muito, bebia muito, tudo era mais agitado. Sempre foram muitos os desafios, mas sempre mantendo as relações, conhecendo pessoas que ocasionavam novos negócios. Quando eu preciso sempre tem um amigo que conhece a pessoa ou encontra um jeito de abrir uma porta. Eu aprendi isso num treinamento e exercitei muito ‘você não pode falar com mais do que cinco pessoas para chegar na pessoa que decide’. Você vai ter uma excelente relação se conseguir fazer isso. Negócios baseados em relacionamento.

 

Bem-humorado, Reynaldo conta como aconteceu a decisão pela aposentaria

Eu sempre quis parar cedo. Eu me preparei fiz investimentos para garantir uma renda. Fiz um cálculo de vida e me baseei no Jorginho Guinle, o herdeiro do hotel Copacabana Palace. E o que ele fez: gastou tudo o que os pais deixaram para ele, toda a herança até que ele não teve mais onde morar. Aí, então, deixaram ele morar no hotel. E numa entrevista o Jorginho disse que fez um cálculo que iria viver até os 80, mas já estava com 83 e morreu aos 86 (rsrs). Então eu penso mais ou menos em quantos anos vou viver. 

 

A conversa toma um tom sério e o motivo que o despertou a decisão pela aposentaria veio à tona mostrando que os acontecimentos da vida também tem um propósito.

A minha ideia era me aposentar com 65 anos, mas descobri um câncer. Em setembro fará dois anos que passei pela cirurgia e hoje eu estou bem, mas de lá para cá minha cabeça e a minha disposição mudaram muito. A partir daí pensei em muitas coisas que eu deixei de lado. Eu preciso fazer um resgate disso. Filhos, netos, coisas pessoais que eu deixei de fazer, pessoas que eu tenho que procurar para conversar, pedir desculpa ou vice-versa. Eu preciso entender algumas coisas que ficaram. E no último Natal eu comuniquei que a minha data limite para aposentadoria seria setembro deste ano. Há dois anos eu tive uma conversa com o Marcello Petrelli também sobre isso e no ano passado começamos a fazer a transição. Não tem nada abrupto, foi tudo muito tranquilo. Eu sempre digo que tudo tem começo, meio e fim e feliz daqueles que sabem terminar. É melhor saber terminar e terminar bem.

O mais bacana da entrevista de hoje foi o privilegio de conversar com alguém que marcou a história da TV em Santa Catarina.  Ter a responsabilidade de fazer a entrevista com o “chefe”, mas também ouvir dos colegas de trabalho os merecidos elogios longe dos olhos e dos ouvidos dele. Se na vida pessoal, Reynaldo acredita que está em falta, por aqui ele transbordou profissionalismo e o cuidado com as pessoas com quem se relacionou ou com quem trabalhou diretamente.  Bem disposto, nas palavras da filha Marina Ramos, gerente comercial do jornal Notícias do Dia e uma das idealizadoras da revista Inspira!, está a o tom  da despedida: “então vai que o mundo te espera”.

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