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Remando contra a corrente, confraria em Florianópolis se une para celebrar a poesia

Desde março, poetas da Confraria do Pessoas se encontram para sonhar com um mundo melhor por obra da palavra

Aline Torres* Especial Notícias do Dia
Florianópolis
10/06/2017 às 11H15

Para deixar a vida menos besta, adicione poesia. Ela não é como sal. Não exige moderação. Não entope as artérias. Ao contrário, deixa o coração forte. Tampouco é como açúcar. Não mascaras as tristezas. As põe para fora. Dilacera o peito.
Talvez seja a poesia como o pão, três ingredientes básicos numa repetição de milagres que alimenta a humanidade há milênios. Talvez seja mais necessária.
Poderiam viver os homens de corpo saciado e a alma faminta?
Famintos estavam os cinco poetas.
O primeiro encontro foi marcado no dia 30 de março desse ano, no Sorrentino, o charmoso bistrô comandado por Nivaldinho Machado, ao lado da Catedral Metropolitana, no Centro de Florianópolis.
Naquele dia, Norma Bruno, 64, Maria de Fátima Barreto, 64, Marli Lúcia Lisboa, 62, Roney Prazeres, 51, e Luiz Carlos Amorim, 64, oficializaram, mesmo que informalmente, a “Confraria do Pessoas” – homenagem ao poeta português, que sendo um foi muitos.
Eles, inclusive, têm página no facebook (/confrariadopessoas).
Desde então, o grupo se encontra todas as quintas-feiras para temperar a vida com palavras. Os encontros são definidos como “gastronômico-etílico-poéticos”.
E nessa rede de assuntos em comum, uma trama os tece. O sentimento de inadequação diante da vida bruta, veloz e sem propósito. Uma dor antiga transformada em beleza. A fórmula imutável da arte.
Quando se aceitaram diferentes, os poetas puderam se deliciar com a própria essência, como Alice, de Lewis Carroll. Essa heroína profunda, que transcende a realidade e encontra um mundo maravilhoso na sua própria loucura.
Na celebração madura da liberdade só há uma proibição. Os assuntos temerários. Na tradução: não é aconselhado discutir a atual conjectura política.
E despretensiosamente, as reuniões rendem frutos. Os escritores pretendem lançar uma coletânea. Não há data definida. Mas uma prévia sairá na edição de setembro da revista literária “A Ilha”, que completou 37 anos nesse mês.
E tem feito bem as prévias à Confraria. Foi em um sarau para umas 40 pessoas, organizado no dia 21 de junho do ano passado, por Norma e Roney, no restaurante Fratellanza Italiana, que surgiu a ideia do grupo.
Consolidados, buscam apreciar as programações culturais da cidade. Nos passeios de estudos e contemplações estão a visita guiada ao salão nobre do Teatro Álvaro de Carvalho, a mostra Iconografia 344, que ficou exposta na Fundação Cultural Badesc até o dia 1° de junho, e o Caldo Cultural, desfrutado nessa sexta-feira (2).
A intenção da sopa verde com couve e linguiça foi, justamente, beber Portugal. A açorianidade, esse conceito lírico de existência, é outro ponto indissociável da trama.
O sentimento de uma he­rança étnica que se relaciona intimamente com a identidade espiritual de cada um dos poetas não só une, mas alimenta a Confraria do Pessoas.
Eles até planejam viagens. A primeira será o retiro de um final de semana na pousada do Ecomuseu do Ribeirão da Ilha, uma propriedade tipicamente açoriana. Outra para Laguna, terra de Anita Garibaldi, de Fátima Barreto e das lembranças de Norma.
E a mais absurda, como definem, é para Portugal, no ano que vem. Abril, por enquanto, é a data mais provável.
Até lá, ou bem antes, eles aceitam de coração aberto novos membros. Artistas presos no armário, poetas camuflados de cidadãos-cinza, apaixonados por literatura. Olhares capazes, como a rosa de Drummond, de furar o tédio, o nojo e o ódio.

Entre religião e terapia

Fátima Barreto - Marco Santiago/ND
Fátima Barreto começou como cronista e depois aderiu à poesia - Marco Santiago/ND


Fátima voltou a escrever em 2003, quando descobriu a internet. Sua incentivadora foi Urda Alice Klueger, autora do romance-histórico “No Tempo das Tangerinas” e outras obras ambientadas no Vale do Itajaí. Foi Urda quem apresentou Fátima a Luiz Carlos Amorim, porta de entrada para a Confraria do Pessoas. Assim como foi Urda que a incentivou a assinar como Fátima de Laguna.

Quando era estudante de Educação Física na Udesc, no final dos anos 70, Fátima publicava seus crônicas no jornal “A Gazeta”, que funcionava na rua Conselheiro Mafra, 51. Na época, ela tinha receio da poesia. Superado após ler Adélia Prado e perceber que era uma possibilidade para os mortais – e para as mulheres. “Eu adoro a Adelia porque ela aproxima o erótico do divino”, disse.

Fátima voltou a Laguna para se casar com o companheiro da vida toda, que morreu no ano passado. Lá pegou o bonde andando, mas conseguiu subir no Carrossel das Letras. Um grupo de escritores lagunenses que publicaram uma porção de coletâneas.
“Eles já estavam com o primeiro livro quase pronto quando cheguei. Daí eu disse ‘se eu puder participar faço a foto da capa, compro 20 exemplares no lançamento e mando e-mails para os jornais’”. A barganha funcionou.

Por ideia de José Genário Machado, criador do site República dos Autores, foram publicadas as coletâneas “Tão longe, tão Perto”.

E depois de anos lecionando, já que a “família Barreto é a que tem mais professores por metros quadrados”, participou de uma dúzia desses projetos e ainda contribuiu com muitos blogs. Para Fátima, “a poesia está na metade do caminho entre religião e terapia”.

Colecionadora do cotidiano

Norma Bruno - Marco Santiago/ND
Depois de fazer muitas coisas, Norma Bruno se descobriu escritora - Marco Santiago/ND



Norma não tinha muitos livros em casa. Mas tinha uma bisavó contadora de histórias, uma avó que comprava revistas de fotonovelas e pais que colecionam sonhos.
Ao anoitecer, abaixo das estrelas, a bisavó formava círculos de netos e bisnetos. Acendia um cigarro de palha e o compartilhava junto com suas fantasias. Fumavam todos da roda. Dos moleques de 3 anos aos adolescentes. Nas palavras colocava ternura, medo, valentia. Gostava de reis e rainhas. Seu modo de amar a vida vivida era apimentá-la com a vida inventada. Assim, transmitiu o sabor do sempre.

Já a avó de Laguna trancava as revistas no armário para que a neta não visse as cenas de beijos. Mas não foi preciso mais do que uma tesoura para destravar a fechadura.

E o mundo mágico de Norma não seria completo sem os cafés da manhã ao lado dos pais, em Florianópolis. Cedinho, quando a família se reencontrava a mesa, eram compartilhados os sonhos vividos nas noites anteriores.

Esse realismo mágico definiu o destino de Norma: ser escritora. Isso que ela só voltou a escrever aos 40 anos. “Tudo que eu era antes não era eu”, disse.
Nesses anos na pupa foi sacoleira de luxo, dona de revistaria, empresária, professora universitária, empreendedora, doceira e outra infinidade de coisas que não era.
A autora tem três livros publicados. “A Minha Aldeia”, “Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto”, e “Prosa, quase Poesia”. É colecionadora do cotidiano na Ilha, de rendes de bilro e revistas antigas.

Sua primeira crônica se chamou “Era uma vez e ainda hoje”. É, de acordo com Norma, uma “história infantil para adultos”. Com ela, a poetisa se reconciliou com a menina alegre que um dia foi. Foi o exercício do voo.

Fé e paixão pelo mar

Marli Lúcia Lisboa, a Bulucha, como é conhecida pelos amigos, tem dois propósitos claros na busca pela sua própria poesia. Manifestar sua humanidade, dores e amores, e fortalecer laços sociais.

Intenções plenamente satisfeitas no grupo poético. Bulucha é amiga de Fátima há 40 anos, desde a faculdade na Udesc, e agora elas voltaram a conviver semanalmente. E para provar que o mundo é uma província, sua irmã mais nova estudou com a mulher de Roney. É nesse caminho de valorização da amizade que ela pretende permanecer.

A poetisa começou a escrever com 12 anos e nunca parou. Se formou em Educação Física, Pedagogia, Direito, é mestre em Educação e Cultura, e deu aulas por 33 anos. Nas suas reflexões, professa uma crença otimista na vida. Traduzida na fé, no riso, nos encontros e na paixão pelo mar.

Viajar é espalhar livros

Luiz Carlos Amorim - Marco Santiago/ND
Luiz Carlos Amorim mescla a escrita com a difusão da literatura por onde passa - Marco Santiago/ND


Amorim era um menino maluco. Em vez de jogar bola, lia teatros clássicos. Aos livreiros pedia poesias. Isso que nem tinham livros de poesia à venda nas livrarias de Corupá, no Norte de Santa Catarina, onde o poeta nasceu. Era preciso encomendar.

O gosto por ler era tão forte que escrever foi consequência. Aos 12 anos ganhou o primeiro prêmio literário em uma redação sobre as afinidades entre Brasil e Portugal.
Começou a publicar contos e crônicas nos jornais aos 15 anos, depois poemas. Escreveu 31 livros e colabora com mais de 20 jornais.

Fez faculdade de Letras em Joinville, mas trabalhou como bancário. Sem, no entanto, abandonar sua essência. Quando vivia no município criou a revista literária A Ilha, projeto que mantém há quase quatro décadas. Tanto empenho rendeu a cadeira 19 na Academia Sul Brasileira de Letras e muitos leitores mundo afora.

Quando viaja, Amorim distribui livros. Deixa-os em praças, navios, aeroportos, sempre com delicadas dedicatórias. E não há amadorismo nesse presentear. Na dúvida da nacionalidade do leitor, faz como em “A Cor do Sol”, traduz o livro em cinco idiomas.

É marcante sua vontade de transportar a literatura catarinense para o mundo. Sempre que pode participa de feiras de arte e artesanato em diversos países. Tem trabalhos publicados na Índia, nos Estados Unidos, em Cabo Verde e em muitas cidades da Europa.

Quando se mudou para Florianópolis, em 2000, recomeçou a batalha por reconhecimento dos autores locais com uma gama de projetos, como o Varal da Poesia e o Recital de Poemas, que espalhavam versos em ruas, bares e escolas.

Inspiração na Ilha e nos fados

Roney Prazeres - Marco Santiago/ND
Manezinho Roney Prazeres escreve tocado pelas heranças lusitanas da cidade - Marco Santiago/ND


Roney Prazeres é um manezinho apaixonado pela Ilha. Um contemplador dos cantos perdidos. As mulheres de pedra no alto do Palácio Cruz e Sousa. As lajotas portuguesas, as telhas de barro, velhas portas e as janelas, presenças constantes nas suas fotos-poesia. Roney mesmo é como uma janela, que se abre para a poesia entrar.
“O poeta Roney é livre. Sai da rigidez, da atuação social. É o meu eu verdadeiro”, disse.

O escritor tinha um caderno de poesias na adolescência, que deixou de lado para estudar e trabalhar. É advogado. Voltou a escrever nos últimos dez anos. É tido como a revelação na Confraria do Pessoas. E justamente por pressão dos amigos planeja seu primeiro livro. Nele não faltarão referências a Florianópolis e a Portugal.

Suas inspirações são Fernando Pessoa, Florbela Espanca e os fados. Escreve com música. E, às vezes, acorda no meio da madrugada com palavras soltas. Palavras escondidas na garganta, que desejam a noite, às ruas. Livres como ele quando se faz “fingidor”. Espírita, acredita que nesses intervalos de tempo, de busca interior, seu espírito se conecta com algo maior que o tempo e que os homens.






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