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Referência contemporânea, cineasta Anna Muylaert fala sobre representatividade no cinema

Em conversa com o Notícias do Dia, a responsável por "Que Horas Ela Volta?" e "Mãe Só Há Uma" discute maternidade, política e apoio ao filme "Aquarius"

Gustavo Bruning
Florianópolis
09/09/2016 às 19H12

O último ano tem sido bastante intenso para a cineasta paulista Anna Muylaert. Além de ter colhido os frutos da repercussão de seu premiado filme “Que Horas Ela Volta?”, ela foi convidada a integrar o grupo de votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pela entrega do Oscar. Estabelecendo-se como uma referência contemporânea e reforçando a força da mulher no cinema, a diretora e roteirista atualmente trabalha na produção de um documentário sobre a saída de Dilma Rousseff da presidência. Como se não bastasse, emplaca mais um sucesso de crítica: o seu mais recente longa-metragem, “Mãe Só Há Uma”. Lançado nos cinemas nacionais no final de julho, o drama segue em uma jornada de exibições em festivais e exibições internacionais.

Em junho, Anna Muylaert foi convidada a participar do grupo de votantes do Oscar - Divulgação/ND
Em junho, Anna Muylaert foi convidada a participar do grupo de votantes do Oscar - Divulgação/ND


O filme estreou em fevereiro em Berlim e, desde então, foi vendido para 15 países. “Mão Só Há Uma” já atraiu mais de 20 mil espectadores na França e estreou no dia 1º de setembro na Holanda. “Participamos de dezenas de festivais e levantamos discussões interessantes por onde o filme passa”, afirma Muylaert, que terá seu longa exibido em festivais de Londres e Nova York em outubro e novembro, respectivamente, com o título “Don’t Call Me Son” (“Não Me Chame de Filho”, em tradução literal). A história é inspirada no caso real do menino Pedrinho, que, aos 16 anos, descobriu que a mulher que o criava não era de fato sua mãe – ela havia o sequestrado quando bebê. Amplamente divulgada na década de 1990, a trama segue caminhos alternativos e explora a descoberta da sexualidade do menino, que encontra prazer em se vestir de mulher e pintar as unhas. Naomi Nero vive o garoto, Pierre, enquanto Daniela Nefussi interpreta tanto a sua mãe biológica quanto a de criação.

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Em "Mãe Só Há Uma", Pierre (Naomi Nero) descobre aos 16 anos que a mãe o sequestrou quando pequeno - Divulgação/ND

Representatividade necessária

Engana-se quem pensa que Anna Muylaert é dona de uma carreira meteórica. Formada pela USP em 1984, a cineasta vem trabalhando em projetos para a televisão e cinema desde os anos 1980. Ela foi roteirista dos seriados infantis “Castelo Rá-Tim-Bum” e “Mundo da Lua”, da TV Cultura, e, na década de 2000, experimentou da comédia ao drama em longas como “Durval Discos”, “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” e “É Proibido Fumar”, com Glória Pires. “[Escolho as histórias] de acordo com a importância temática e relevância pessoal para mim”, conta. Muylaert também tem no currículo colaborações como “Xingu”, de 2012, e a biografia “Irmã Dulce”, que rendeu o prêmio de melhor roteiro original no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

Foi com “Que Horas Ela Volta?”, no entanto, que teve o seu trabalho escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar pela primeira vez. Estrelado por Regina Casé, o longa foi bem recebido pela crítica e premiado nos festivais de Sundance e Berlim – fora os mais de 400 mil espectadores nos cinemas nacionais. O enredo aborda a diferença entre classes, realçada através da relação entre os patrões e uma empregada doméstica e sua filha. “Acho que o cinema é e sempre foi um instrumento poderoso de discussão e transformação social”, destaca a cineasta.

“O dia em que uma mãe valer mais que um soldado na guerra não precisarei mais abordar esse tema [a maternidade]” – Anna Muylaert

A busca pela representatividade das classes – sejam mulheres, negros ou pobres – é uma causa pela qual Anna simpatiza. “Os negros, por exemplo, são escassos na tela, quando são a maioria na população” garante. Para Muylaert, a falta de representatividade dos negros no cinema é um reflexo da classe responsável por dar vida aos filmes. “[...] a maioria dos diretores são brancos de classe média e estão interessados em suas próprias histórias”.

Além de questões sociais e políticas, os filmes de Muylaert apresentam reflexões sobre a maternidade. A cineasta destaca como este tema, ao se relacionar com o feminismo de suas histórias, prova ser um desafio de ser transporto para as telas “justamente porque creio que as funções feministas são desvalorizadas na sociedade”. “O dia em que uma mãe valer mais que um soldado na guerra não precisarei mais abordar esse tema”.

A cineasta utiliza as redes sociais para expor seu posicionamento político - Gleeson Paulino/ND/Divulgação
A cineasta utiliza as redes sociais para expor seu posicionamento político - Gleeson Paulino/ND/Divulgação

Muylaert luta por uma causa em comum com o elenco e a equipe do filme “Aquarius”, escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho. Ao lado do diretor, Sonia Braga, Humberto Carrão, Maeve Jinkings e outros aproveitaram a exibição do filme no Festival de Cannes, em maio, para expor a insatisfação com o afastamento da presidente Dilma Rousseff. O posicionamento político da diretora é evidente nas redes sociais, onde a cineasta expõe com frequência a sua revolta perante a situação política do Brasil. Seu projeto atual – um filme documental sobre o período de afastamento de Dilma da presidência – levou a diretora a acompanhar de perto e filmar a votação do impeachment no Senado.

Dono de uma carreira internacional bem-sucedida, o drama “Aquarius” tem a torcida plena de Muylaert. Com o intuito de apoiar a escolha do filme como representante nacional na categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar, a cineasta, assim como Gabriel Mascaro (“Boi Neon”), retirou seu filme (“Mãe Só Há Uma”) da disputa pela vaga. “Decidi não me inscrever porque acredito que este é o ano de Aquarius. [...] Fizemos isso para fortalecer a candidatura dele”, esclarece. A responsável pela escolha do representante é a Comissão Especial, instituída pela Secretaria do Audiovisual, que recentemente esteve envolta a polêmicas em função de críticas de um de seus membros, Marcos Petrucelli, a respeito da atitude da equipe de “Aquarius” em Cannes. “[...] Colocar um crítico de cinema que vem abertamente se colocando contra o candidato mais forte do ano é uma atitude questionável, que coloca em risco a legitimidade desta comissão”, afirma Muylaert.

O cinema nacional contemporâneo

A roteirista de 52 anos acredita que o cinema nacional vem se aperfeiçoando nas últimas duas décadas, empregando técnicos e artistas cada vez mais experientes. Apesar disso, o mercado encontra-se refém de outra variável: o investimento. Em 2015, apenas uma entre as dez maiores arrecadações de bilheteria de cinema no Brasil é de um filme nacional – a comédia “Loucas pra Casar”. Entre as cem maiores arrecadações, somente onze produções brasileiras entram na lista. “O cinema exige altas somas de dinheiro para sua divulgação. Quem tem mais dinheiro para divulgar terá mais público no final”, explica a cineasta. Ela esclarece, no entanto, que se os orçamentos de produção e lançamento forem considerados, a classificação poderia ser diferente.

Em um cenário onde a maior parte dos filmes nacionais é feita com dinheiro de editais púbicos, é possível observar a predominância de comédias. Apesar da vitória de longas como “O Som Ao Redor”, de Kleber Mendonça, e “Boi Neon”, de Gabriel Mascaro, perante a crítica, são elas que lideram os rankings de bilheteria. Para Muylaert, o público é atraído por tais obras pois são filmes que ele já assistiu. “De certa forma são repetições garantidas que combinam com pipoca. [...] [Eles levam mais público] porque o mercado investe maiores somas de dinheiro nesse tipo de filme”.

Os cinco filmes contemporâneos favoritos de Anna Muylaert

Seleção de filmes favoritos da cineasta Anna Muylaert - Divulgação/ND
Seleção de filmes favoritos da cineasta Anna Muylaert - Divulgação/ND

  • Santiago (2007)
  • O Som ao Redor (2012)
  • Baixio das Bestas (2006)
  • Trabalhar Cansa (2011)
  • Ônibus 174 (2002)

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