Publicidade
Quarta-Feira, 19 de Setembro de 2018
Descrição do tempo
  • 27º C
  • 17º C

Recuperado de um problema de saúde, o artista plástico José Cipriano volta à ativa

Cipriano retorna sua rotina em sua casa-ateliê, onde produz pinturas em quadros e imagens para os tradicionais calendários da cidade

Pedro Santos
Florianópolis
Janine Turco/ND
“Antes de desenhar, eu fico namorando o lugar. Eu vou lá, fico observando, às vezes por dias, até achar um ângulo novo que eu nunca tenha visto", conta Cipriano


Pelos pincéis do artista plástico José Cipriano, as tintas paralisam paisagens deslumbrantes de uma Ilha que não volta mais. É assim que uma iluminada ponte Hercílio Luz desperta lembranças de um tempo sem obras. Da mesma forma, Mercado Público surge de um ângulo inesperado e os casarões de Santo Antônio de Lisboa parecem ressurgir de um passado remoto. “De todos os lugares, Santo Antônio é o que eu consigo desenhar mais fácil”, observa. Como costuma acontecer nesses casos, o excesso de prática leva à perfeição.

Mas isso não é motivo para descanso. Cipriano desenha com o planejamento de um arquiteto para retratar a herança açoriana, os detalhes da pesca artesanal, os casarios e fortalezas espalhados pela Ilha. Só que no caso dele, tudo o que pinta tem muito de observação e um tanto de imaginação. “Antes de desenhar, eu fico namorando o lugar. Eu vou lá, fico observando, às vezes por dias, até achar um ângulo novo que eu nunca tenha visto. Só depois eu volto para o ateliê para fazer a pintura”, conta Cipriano.

E foi assim desde a infância. Com 13 anos, ele produzia pequenas histórias em quadrinhos e algumas charges que foram publicadas no jornal “O Estado”. Pintou um quadro que o pai manteve na parede do restaurante que a família administrava no Mercado Público. Por causa disso, foi convidado para fazer alguns trabalhos para o Lira Tênis Clube. “Eu fiz, mas eles não me pagaram até hoje”, diz, bem-humorado.

Nesse meio tempo, Cipriano cursou Carpintaria Civil Naval na Escola Técnica Federal de Santa Catarina. “Fiz o curso porque  ofereciam aulas de desenho, oras.” E foi lá que ele aprendeu a lição que definiria sua prática artística para sempre.

“Um dia eu fiz um desenho que era uma cópia de outro desenho. Lembro que fiquei magoado porque um colega estava falando mal do desenho. Então veio o professor Franklin Cascaes perguntar o motivo de eu estar daquele jeito e me disse: ‘Se você não quer receber crítica, crie o seu trabalho e não copie ninguém’”, relembra.

Foi o que fez. Desenvolveu um estilo hiper-realista de pintar quadros que só foi possível depois de uma vida profissional inteira dedicada a desenhar. “Eu vi que cidade estava crescendo e havia uma carência de arquitetos. Resolvi seguir nesse caminho.” Por anos, Cipriano foi seduzido pelas cifras da arquitetura e pela possibilidade de exercitar escalas e perspectivas nos desenhos de sua criação. “Foi outra aprendizagem. Desde então minha vida deu uma subida vertical.”

Em 1996, Cipriano largou os trabalhos paralelos e resolveu se aposentar. “Mas meus filhos não deixaram”, lembra. “Eles me traziam telas, tintas, queriam que eu pintasse, produzisse quadros.”

No ano passado, ele teve a rotina interrompida em decorrência de um problema de saúde. Cipriano foi fazer uma cirurgia próxima ao fêmur e contraiu uma bactéria de dentro do hospital. Viveu a angústia do limite entre a vida e a morte e só conseguiu se recuperar meses depois.

Hoje, aos 76 anos, Cipriano pinta com a leveza que a vida lhe trouxe. Com tinta acrílica para não provocar alergia.

Em sua casa-ateliê, um quadro inacabado repousa no canto superior direito da sala. Dá para ver várias pessoas reunidas bem em frente à figueira da Praça 15, o poeta Cruz e Sousa ao lado de Nereu do Vale Pereira e Eli Heil. De resto, a maioria das obras, é feita sob encomenda.

“É, para chegar aonde eu cheguei eu dei uma caminhada muito legal”, diz em um raro momento em que a reflexão encontra os risos.

Saiba mais: www.ciprianoartistaplastico.com

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade