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Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
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Projeto dos atores Renato Turnes e Gláucia Grígolo irá recuperar textos de peças do Teatro Biriba

Circo-teatro mais famoso do Estado, ainda em atividade, apresentou desde 1970, ano de sua criação, mais de 200 espetáculos

Roberta Ávila
Florianópolis
Rosane Lima/ND
Atores e pesquisadores Gláucia Grigolo e Renato Turnes elaboraram um projeto para recuperar os textos do Teatro Biriba, que estavam esquecidos em um velho baú, feito pelo próprio Biriba

 

 

Em 2007 os atores-pesquisadores Renato Turnes e Gláucia Grigolo encontraram-se com o Velho Biriba em um programa de televisão catarinense: um encontro entre o novo e o tradicional do teatro do Estado. Fizeram amizade com o palhaço, conheceram sua família e gravaram um documentário sobre a companhia de circo-teatro fundada por ele. Desde então não pararam de desenvolver projetos com o Teatro Biriba, companhia de circo-teatro fundada em Tangará, Meio-Oeste do Estado, em 1970, e que desde então já apresentou mais de 200 peças em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Os registros dessas peças, muitas das quais deixaram de ser representadas há décadas, graças a um projeto, estão sendo restaurados e catalogados.

“Um dia estávamos lá no circo e a Gláucia encontrou um baú vermelho todo detonado. Dentro dele estavam centenas de textos de peças que tinham sido escritas e apresentadas no circo desde a década de 50. O baú tinha sido feito pelo próprio Biriba, o primeiro, o Velho Biriba, como a gente fala”, conta Renato Turnes. O tesouro, mostrado à dupla por uma das filhas de Biriba, Cida Passos, estava em condições precárias. Uma papelada que não estava resistindo à vida nômade do circo. Renato e Gláucia desenvolveram então um projeto para restaurar esses textos que entra agora na segunda etapa.

“O material estava mofado. Eles cuidaram como podiam dos textos, mas tinha essa coisa de estar sempre carregando de lá para cá, pegar chuva... E foram jogando tudo dentro do baú sem muito cuidado. A Cida sabia do valor que aquilo tinha, era o xodó dela, mas ela não tinha ferramentas para lidar com esse material“, conta Glaucia.

Depois da morte de Cida, no começo de 2013, a filha dela, Janayna, passou a cuidar dos textos do circo. Neta do Velho Biriba, ela nasceu em Taió, quando o circo fazia temporada lá e com alguns dias de vida já estava em cena, em uma peça em que havia um bebê.

“Minha vida é o circo-teatro e minha referência é o colorido da lona. Conquistar o público é o nosso desafio. Nunca tive vontade de morar em um lugar só porque estar sempre mudando de cidade gera um desafio muito grande. Viver sem a possibilidade de conquistar o público a cada parada do circo tiraria o brilho da nossa vida”, afirma Janayna em Videira, onde uma das duas unidades do Teatro Biriba está atualmente.

O projeto elaborado pelos atores ganhou o prêmio Carequinha da Funarte de Apoio ao Circo e financiou a restauração de 30 peças. Mais 19 estão sendo trabalhadas na parte atual do trabalho, com apoio da Lei Rouanet. A maior parte das histórias são dramas, com nomes como “Ainda Há Sol em Minha Vida“, “Hipócrita”, “Os Milagres de Fátima” que revelam uma face pouco conhecida do circo: o picadeiro já foi lugar de muita choradeira e dramalhão. 

“É interessante que antes tinha muito drama e isso mudou. Hoje a maioria esmagadora do repertório são comédias, porque o público mudou. Eles foram percebendo que as pessoas não queriam mais ver dramas, elas querem é rir. Passaram a ouvir “minha vida já é um drama, para que eu vou querer ver drama no teatro?” e assim a prática de encenar os dramas foi se perdendo. Antes tinha muito público para o drama no teatro-circo” conta Gláucia. 

 

Acervo Pessoal/Divulgação/ND
"O Manto Sagrado", uma das peças apresentadas pelo Teatro Biriba. Os dramas eram comuns no palco do circo-teatro

 

 

 

 

Dramas de época

Entre os textos, também existem versões de “Branca de Neve” e outros textos clássicos. As companhias de circo-teatro tinham o hábito de trocar de textos entre si, o que faz com que inclusive peças internacionais façam parte do repertório da companhia catarinense.

“Algumas histórias são bem localizadas na época. Uma delas chama “Maconha o Veneno Verde”. É sobre um rapaz que fumou maconha, ficou doidão e a vida dele acabou. Hoje se a gente visse isso no teatro ia rir, mas na época era um drama de sucesso”, afirma Renato.

Alguns desses dramas são transformados pelo Teatro Biriba em comédia: coloca-se um palhaço no meio do vilão e da mocinha e entre reviravoltas imprevisíveis as cenas antes hiperdramáticas viram piada.

“Tem gente que monta esses textos hoje tirando onda e o pessoal do circo é contra isso. Para eles são histórias sérias, tem uma mensagem e tem textos bem bonitos. Pedimos ao Vicente Concilio, professor de Artes Dramáticas da Udesc para fazer um artigo sobre o texto mais antigo que encontramos, chamado “Lágrimas de Maria”, uma cópia manuscrita feita em 1950, e ele achou linda a peça. Tem uma ingenuidade naquilo, sentimentos muito simples que tem sua beleza também”, analisa Renato.

 

Priscila Fernandes/Divulgação/ND
Trabalho mais recente, "Família no Papel". Hoje o circo é dividido em duas companhias, comandadas pelos netos do Velho Biriba

 

 

Teatro no circo

O Teatro Biriba é uma companhia de repertório: chegam em uma cidade e apresentam cada dia uma peça. O ganha-pão da companhia vem da bilheteria e dos produtos que eles vendem no intervalo das peças, como cachorro-quente, churrasquinho e pipoca.

A lona que antes comportava cerca de 300 pessoas hoje tem capacidade para 500, muita vezes com lotação completa. Depois de três ou quatro meses em uma cidade, levantam acampamento e partem para a próxima. A partida é estimada matematicamente: quando a lotação no domingo cai abaixo de uma certa porcentagem chegou a hora de ir embora.

“O biriba é uma companhia bem sucedida, eles têm uma baita estrutura, ótimos trailers. As casas são incríveis. Isso porque eles são bons administradores, o que não é corriqueiro tratando-se de circo teatro, tem muita companhia pobre que vive com muita dificuldade Brasil afora” analisa Gláucia.

Formados em artes cênicas pela Udesc, os dois atores tiveram uma única disciplina sobre a história do Teatro Brasileiro e o circo-teatro era tratado como uma manifestação morta.

“O circo-teatro é uma manifestação teatral e cultural meio esquecida, sem valor acadêmico. O que a gente lia era do passado “existiu no Brasil o circo-teatro”, tratando o tema como uma coisa menor, por preconceito da academia, acredito, e também por desconhecer o que é feito atualmente, porque o Biriba não vem para a Capital: ele nunca veio para Florianópolis”, diz Renato.

Quando o circo-teatro começou a perder espaço para a televisão e para um modelo mais moderno de teatro nos grandes centros, o Biriba foi para o interior de Santa Catarina e continua lá até hoje, raramente vai para o interior do Rio Grande do Sul.

“Você vai para o Brasil profundo, cidades que tem dois, três mil habitantes e a única manifestação a que as pessoas têm acesso é essa. Eles contam que já foram em cidades em que as pessoas não sabiam que tinha que aplaudir no final e eles ensinaram. Nesses lugares não chega a cultura oficial então o valor cultural deles é subestimado. E isso que a gente procura resgatar e divulgar” contextualiza Renato.

“A ingenuidade do público é tanta que eles têm vergonha de rir... Demoram pra se soltar ou ficam assustados com cenas de lutas e morte. A linha entre o real e a fantasia é muito próxima pra eles”, conta Janayna Passos.

 

 

Priscila Fernandes/Divulgação/ND
Biribinha, nos bastidores. Na estrada há 43 anos, o Teatro Biriba circula pelo interior de SC e RS e costuma ficar entre três e quatro meses em uma cidade

 

O processo de restauração

Cada folha vai ser limpa, lavada e fica com cheirinho de papel de carta no final do processo realizado pela especialista Kézia Lenderly.

“A Kézia vai colar tudo de novo, tapa os buracos das folhas, fica tudo novo. Ela reencaderna, coloca uma capa nova e padroniza”, explica Gláucia.

Depois os textos são digitalizados, transformados em arquivos pdf e salvos em DVDs que serão distribuídos para bibliotecas de todo o país. Alguns deles também podem ser baixados no site do projeto (baudobiriba.com). Mas a ação do tempo destruiu totalmente algumas das brochuras. A expectativa dos pesquisadores é que esse material renda temas de estudo em história do teatro e que outras pesquisas sejam feitas sobre as histórias que rodavam e rodam centenas de cidades de Santa Catarina no palco do Teatro Biriba.  

 

DOCUMENTÁRIO E DOWNLOAD

Confira o documentário que mostra a mudança do Teatro Biriba de Pomerode para Itapema, feito em 2007 no site baudobiriba.com 

No mesmo endereço estão disponíveis para download os textos já restaurados e fotos dos originais.

O GRITO DA CONSCIÊNCIA

“O “Grito da Consciência” é sobre um ricaço que engravida uma mulher, não está nem aí para ela e ela acaba dando o bebê para uma família de camponeses. Essa ricaço é um conde, um cara malvado. A criança cresce, se transforma numa pessoa de valor e consegue ter posses também. Aí um dia ele se reencontra com a família do conde e vive uma história de amor proibido com a própria irmã. O conde blasfema, ele desafia Deus, e no fim vem um raio e mata o conde (risos). Ele não acredita, não crê e por isso que ele é ruim. Tem essas moralidades, né”, narra Gláucia.

ZOMBIE

“Essa peça a gente acha que é inspirada em um filme dos anos 30 do Béla Lugosi, só que a gente não tem certeza. A cópia que estamos restaurando é de 1970 e foi representada pela primeira vez 1940 apesar de chamar Zombie a história é meio parecida com o Frankenstein, tem um médico que faz experiências com mortos. Devia ser super inovador na época” relata Renato.  

 

QUEM FOI O PALHAÇO BIRIBA

Biriba era um palhaço negro, trabalhou em outras companhias até que fundou em Tangará, no Oeste catarinense, em 1970, o Teatro Biriba. Chamado Geraldo Passos, ele casou-se com a atriz Suzi e teve filhos.  Depois de sua morte, em 1991, os filhos dele separaram o Teatro Biriba em duas companhias independentes : uma de Geraldo Júnior e uma da Cida. Entre os filhos da Cida, estão Janayna e Franco Adriano, que hoje interpreta o palhaço, o Biribinha, junto com seu filho, terceira geração cômica da família. Na outra companhia, Geraldo Júnior dá vida ao palhaço. O Biriba percorre há 43 anos cidades de todas as regiões do Estado, apresentando um repertório de mais 80 peças, entre comédias e melodramas.

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