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Projeto Curupira quer formar plateia infantil consciente e crítica no Sul da Ilha

O trabalho do Círculo Artístico Teodora foi ganhador de um edital promovido pelo Estado e ocorre até dezembro

Karin Barros
Florianópolis
13/10/2017 às 09H18

O Curupira, personagem da mitologia dos guaranis, habitantes originais do litoral catarinense, tem como função proteger a natureza, cuidando dos animais além de ajudar na germinação, crescimento, maturação e conservação das plantas. A figura serviu de inspiração para o nome do novo projeto do Círculo Artístico Teodora, integrado por 15 artistas, que ocorre desde setembro até o dia 16 de dezembro deste ano no bairro Campeche, em Florianópolis.

Projeto Curupira, com a atriz Cristina Magdaleno - Daniel Queiroz/ND
A atriz Cristina Magdaleno conta histórias dentro do projeto. Para ela, arte é formação - Daniel Queiroz/ND


Nele, crianças e adolescentes participam de oficinas de teatro, cineclube, peças teatrais, artes plásticas e narração de contos com a intenção de qualificar a formação de plateia infantil. O projeto ganhou o edital promovido pela SOL (Secretaria de Estado de Organização do Lazer) e os encontros acontecem nas escolas Januária Teixeira da Rocha e Brigadeiro Eduardo Gomes.

No Círculo Artístico Teodora tem ainda oficinas de narrativa para adolescentes (duas vezes ao mês, com carga de 40 horas), teatro (quinzenais e com carga total de 40 horas), cinema (uma vez por mês, com vídeo e fotografia de celular em quatro encontros de 4 horas cada) e artes visuais para crianças, um encontro de três horas com uso de bonecos e utilitários. A ideia por enquanto é atender apenas o Sul da Ilha, já que as escolas ficam próximas à sede do grupo teatral, mas há intenção de  chegar a outros bairros no futuro.

Cláudia Venturi, coordenadora do projeto e atriz, explica que a ideia de fazer a formação de público infantil já existe há dois anos, mas era feito de acordo com a capacidade financeira e estrutural do Círculo - apenas com a implantação do cineclube infantil desde o ano passado. Segundo ela, com a verba do edital, - que foi o primeiro conquistado pelo núcleo -, foi possível ampliar o projeto para atender mais crianças com atividades diferenciadas. “Queremos que elas possam consumir arte não apenas porque a TV diz que isso é legal, mas que tenham discernimento para escolher”, coloca.

O contador de história Sérgio Bello explica que para formar um público consistente e crítico não basta apresentar só momentos de fruição. “Ele vai ter condições de avaliar no futuro o que ele está vendo se tiver noção de como é fazer aquela linguagem artística. Para eu dizer que um filme, uma peça ou uma contação é de qualidade, eu tenho que ter um pouco de noção dos princípios que estão por trás daquilo que eu estou vendo”, diz.

Ana Carolina Souza de Carvalho no Projeto Curupira - Daniel Queiroz/ND
Ana Carolina gostou da história do livro “A árvore generosa” - Daniel Queiroz/ND


Na apresentação feita na escola Brigadeiro Eduardo Gomes que o Jornal Notícias do Dia acompanhou, entre as histórias contadas às crianças de até nove anos de idade, a atriz Cristina Magdaleno apresentou o livro “A árvore generosa”, de Shel Siverstein, traduzido por Fernando Sabino, e que prendeu os olhares inquietos dos pequenos. Os alunos Vinícius Cruz Menezes, 9, e Ana Carolina Souza de Carvalho, 8, afirmaram que a história foi a preferida deles. “Achei muito interessante e criativa, nunca tinha visto alguém contar assim”, disse Ana Carolina.

Reflexão no futuro

A coordenadora Cláudia Venturi diz que o projeto procura ter um resgate da identidade cultural nas pessoas. “A gente acha que a arte se afastou um pouco da sociedade. Às vezes o povo pensa que a arte é algo elitizado, que tem que ter um conhecimento muito diferente para entender uma obra de arte, mas não é assim”, afirma.

Vinícius Cruz Menezes no Projeto Curupira - Daniel Queiroz/ND
Vinícius (ao centro) e a turma da escola Brigadeiro Eduardo Gomes - Daniel Queiroz/ND


Sérgio Bello lembra que Ana Mae Barbosa, grande teórica da arte-educação brasileira, propõe uma proposta triangular, de fruição, técnica do saber e a reflexão. “A técnica de como fazer e a fruição a gente propõe nas oficinas, e damos o espaço para que possam refletir depois”, conclui.

Essa formação ainda na época escolar contribui para interpretações no futuro, diferente das que aconteceram nas polêmicas relacionadas ao banco Santander, em Porto Alegre (RS) e no MAM (Museu de Arte Moderna), em São Paulo. “Eu estava olhando um livro de pinturas clássicas nesses dias, de imagens que se fossem reproduzidas hoje seriam censuradas pelas pessoas que estão colocando tudo como pornografia. E isso foi feito na Renascença. Acho que estamos voltando para a Idade Média”, afirma o contador de história Bello.

A atriz Cristina Magdaleno também se posiciona sobre a importância da formação nesse assunto. “Não é porque você viu no teatro ou na TV que vai sair fazendo por aí, porque se não os filmes e as novelas seriam exemplo para tudo nesse país. Talvez a arte não esteja tão dentro da vida das pessoas quanto ela deveria”, diz.

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