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Produtora da Camerata conta como é viável levar a música erudita a públicos diversos em SC

Maria Elita Pereira, produtora da Camerata Florianópolis, empreende na cultura do Estado com mais de 70 apresentações por ano

Janine Alves
Florianópolis
08/06/2018 às 17H38

Quantas pessoas gostariam de viver da música, de ser um exímio instrumentista e poder tocar numa orquestra sinfônica. Não numa orquestra comum, daquelas de filmes ou dos grandes espetáculos em luxuosos teatros, mas a orquestra que tem por princípio democratizar o acesso à boa música. Levar até as pessoas a música erudita e ainda atrair os atentos ouvidos de quem gosta de rock, reggae, pop, mas que também se reconhece na música local do Expresso ou do Dazaranha.

Maria Elita, produtora da Camerata Florianópolis - Daniel Queiroz/ND
Maria Elita, produtora da Camerata Florianópolis - Daniel Queiroz/ND


Sim, Maria Elita Pereira é uma das responsáveis pela realização dessa façanha, mas o talento dela para a música não vem da voz ou da habilidade de tocar um instrumento, mas da competência para trabalhar com os números. Ela é formada em matemática, tem mestrado na área, foi bancária e professora universitária, uma carreira que “deixou de lado” para administrar os números da Camerata de Florianópolis e para transformar esse projeto cultural num brilhante modelo de negócios.

A Camerata Florianópolis é uma orquestra privada fundada em 1994 pelo maestro Jeferson Della Rocca e figura entre os mais importantes grupos do gênero no Brasil. Atualmente envolve o trabalho direto de cerca de 40 pessoas, além das contratações esporádicas por espetáculo e só na temporada de 2017 foram 75 espetáculos realizados.

Maria Elita nos recebeu com um largo sorriso na sede da Camerata, no bairro Santa Mônica, na Capital, para falar da sua trajetória profissional e dos desafios na gestão de uma orquestra sinfônica privada. Uma mulher que começou a trabalhar com 11 anos na loja de calçados do pai e que, desde 1998, está à frente da gestão de uma das mais bem sucedidas orquestras do país.

Como a música entrou na vida da professora de matemática?

Na minha casa tinha muita música. Meu pai tocava órgão, acordeom, violão e estudou piano clássico, mas foi o meu irmão mais velho que colocou a música erudita na nossa casa. Nessa época eu comecei a brincar com o violão, mas acabei me afastando. Eu morava em Araranguá e com 18 anos em vim para Florianópolis para fazer o curso de ciências da computação. Não consegui concluir o curso porque acabei passando num concurso do Banco do Brasil e tive que morar no interior por quase cinco anos. Mesmo trabalhando no Banco do Brasil e com dois bebês, quando voltei para a Capital fui estudar matemática.  Levei um tempo trabalhando no Banco do Brasil, com a matemática e mais uma família. Quando surgiu a possibilidade demissão incentivada no Banco e eu me candidatei para sair o gerente me chamou e me perguntou por que eu queria sair, ele disse que eu sempre trabalhava muito alegre, que eu era competente e que ele não conseguia entender. Eu disse que eu não estava insatisfeita, mas que queria algo a mais, uma nova alternativa e fui fazer mestrado em matemática. Foi nesse período que acabei me aproximando mais da música. Quando minhas filhas foram estudar violino, acabei me aproximando do trabalho orquestral e quando terminei o mestrado já estava trabalhando com produção. E mais uma vez fiquei com duas profissões: dava aula de matemática, cálculo e álgebra na universidade e ao mesmo tempo trabalhava na produção da Camerata. Depois fiz a opção: parei de trabalhar com a matemática e fiquei com a produção da Camerata.

Como é o processo de gestão de orquestra privada do país?

A Camerata é uma orquestra de câmara que faz trabalhos sinfônicos e também com grupos de música popular. Não é a única orquestra privada, mas é a única com volume de trabalho. No ano passado nós fizemos 75 espetáculos. Isso é muito para uma orquestra pública, imagina para uma orquestra privada que depende de captação de recursos. Muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, mas o primeiro passo é propor um projeto por lei de incentivo, porque essa é uma das fontes de renda. A gente trabalha com a Lei Rouanet que é a lei de incentivo federal e a lei municipal de incentivo a cultural da Fundação Franklin Cascaes. O projeto é feito, tem que ser aprovado e depois fazemos a captação junto das empresas que querem associar o seu nome a um projeto cultural. Uma vez captado vem a realização do projeto. Enquanto um projeto está sendo proposto, outro está sendo realizado e assim que a gente consegue manter a renda constante. Nós também temos um pouco de patrocínio direto. Mas também fazemos muitos eventos corporativos e isso gera outra receita. Nós também fazemos turnês pelo Estado, neste caso é uma contração do governo para levar os espetáculos de música erudita e popular para o interior. Fazemos parceiras com as prefeituras também. É um negócio que tem valor artístico e social.

O processo de captação de recursos é difícil?

Eu não tenho resistência quanto a Camerata, quando eu chego a um lugar o nome atrai. Um trabalho trás outro, mas o que tem ainda é um pouco de medo dos empresários de investir e desconhecimento sobre a lei. A Lei Rouanet é extremamente simples, não demanda muito tempo do empresário, mas a lei municipal demanda mais tempo, mas uma vez que se faz já fica o formato pronto. Nós começamos a trabalhar com lei de incentivo em 2000 - a Lei Rouanet e com a lei de incentivo estadual. Então a Camerata passou de quatro a cinco concertos por ano para mais de 20 e hoje nós fazemos mais de 70. Isso porque, com o tempo, a gente fica mais ágil e a mesma coisa acontece com o empresário. Depois que o empresário patrocinou, passou a entender o processo, viu que funciona que ele tem o marketing sem investir diretamente e ainda faz um bem para a própria comunidade, para a cidade. A vantagem para o empresário contribui para algo que está sendo produzido na sua cidade, no seu estado e ainda vê onde o recurso - referente ao imposto da empresa - está sendo aplicado.

A emoção tomou conta da sala quando Maria Elita falou sobre os desafios para o futuro. Dentre eles a produção de Frankenstein, a primeira ópera rock feita no Brasil. Um trabalho inédito, segundo ela “a maior e mais complexa obra, um sonho e provavelmente o obra com maior valor artístico realizado pela Camerata”. E para quem pensa que o futuro está muito distante, a primeira temporada desse espetáculo acontece entre 26 e 29 de junho. E para finalizar, ela fala sobre as filhas que foram as conexões com uma carreira ligada à música: “Minhas filhas tocaram por muito tempo na Camerata, uma toca violino e a outra viola - uma delas está fazendo doutorado em viola fora do país - e o meu sonho é dedicar parte do meu tempo como gestora da carreira delas”.
A lição aprendida nesta entrevista vem da percepção que a música também é construída com talentos que transcendem o dom artístico, mas que são construídos com o coração e com muita competência.

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