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Produtora catarinense de filmes estava gravando longa sobre a carreira de Orlandivo

Nascido em Itajaí, Orlandivo, que teve músicas gravadas por artistas como Jorge Ben, Dorival Caymmi e Elza Soares, morreu no início do mês sem o devido reconhecimento

Karin Barros
Florianópolis
17/02/2017 às 13H57
Orlandivo - Michele Diniz/Divulgação/ND
Criador de  “Vou batê pá tu” e “Bolinha de sabão”, Orlandivo era tema de um documentário em SC que seria em torno de um show, que não ocorreu porque o dinheiro do edital de cinema não saiu a tempo - Michele Diniz/Divulgação/ND



Orlandivo Honório de Souza, ou Orlann Divo, como usava nos primeiros discos, ícone do sambalanço no país, morreu no dia 8 de fevereiro prestes a completar 80 anos de idade. Catarinense de Itajaí, ele foi ainda criança morar no Rio de Janeiro e elevou um simples molho de chaves ao estatuto de instrumento musical.

Na cidade carioca, ele ficou mais tarde conhecido como “o sambista da chave”, pois criou uma técnica que unia sete chaves, cada uma de um tamanho, para ter tons diferenciados. O compositor tocou em parceria com o maestro Ed Lincoln, com quem criou o hit “Palladium”, indispensável no dicionário da música popular brasileira. Outras que também ficaram na memória de muita gente é “Vou batê pá tu” e “Bolinha de sabão”. Orlandivo teve cerca de 200 músicas interpretadas e regravadas por nomes como Wilson Simonal, Dorival Caymmi, Elza Soares, Jorge Ben, Baiano e os Novos Caetanos, Funk Como Le Gusta e Clube do Balanço.

Suas composições puseram multidões para dançar por mais de seis décadas, de bailinhos de periferia a salões nobres dos hotéis mais refinados do Brasil, e até em night clubs da Europa, após ser redescoberto por DJs estrangeiros a partir dos anos 1990. Suas últimas aparições em shows foram em 2003, 2006 e 2010, com o lançamento de um novo álbum, “Sambaflex”, e a participação em bailes que resgatavam a década de 1960 em Copacabana.

Tárik de Souza, jornalista e crítico musical, afirma que em 2003, especificamente, Orlandivo participou de um projeto musical no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) do Rio de Janeiro, produzido pelo músico e historiador Henrique Cazes, com a presença dos artistas Elza Soares, Miltinho, Durval Ferreira, Dóris Monteiro, Claudette Soares e Ed Lincoln. A ideia virou série e foi filmada pelo cineasta Fabiano Maciel, parceiro de Tárik, e se tornou um longa-metragem, a ser lançado em 2017. Tárik é do Rio de Janeiro e também lançou esse ano o livro “Sambalanço – A bossa que dança: um mosaico”, em que a principal estrela, segundo o próprio autor, é Orlandivo. “A entrevista central é com ele. Dou esse destaque porque foi um dos expoentes desse movimento junto com outros sambistas importantes do país”, explica o escritor.

Mesmo com toda sua história, que se confunde com a própria história do ritmo sambalanço, Orlandivo foi um artista que não teve o reconhecimento devido. “Isso é o Brasil. A gente se ocupa de artistas bem menos relevantes, e os realmente inovadores ficam no limbo. Os anos dourados dele foram na década de 1960”, afirma o crítico.

Orlandivo - Michele Diniz/Divulgação/ND
Orlandivo e Cintia Domit Bittar, produtora catarinense da Novela Filmes - Michele Diniz/Divulgação/ND


Um sonho quase real

Talvez a coroação de sua carreira viesse agora, em 2017. No ano passado, a produtora Novelo Filmes, de Florianópolis, ganhou o edital para longa-metragem da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, em parceria com a Ancine (Agência Nacional do Cinema). A partir disso, a história de Orlandivo na música brasileira ganharia forma para o cinema e diversas gerações se dariam conta que conhecem seu trabalho, mas não o seu criador.

Contudo, o projeto deixou de acontecer por conta do atraso no repasse da verba federal. De acordo com a produtora catarinense Cíntia Domit Bittar, da Novelo, o dinheiro para viabilizar o filme era para ter entrado em março do ano passado. A equipe pressionou o quanto pôde o MinC para disponibilizar com agilidade a verba devido à idade avançada do personagem, porém, as solicitações não foram atendidas. O dinheiro só caiu na conta da produtora em novembro, pois ainda coincidiu com a paralisação do MinC no ano passado. Nesse meio tempo, a saúde do músico a ser homenageado em vida deteriorou. “Eu aproveitei para visitá-lo em novembro, quando fui participar de um festival do Rio, e ele estava com complicações pulmonares, não estava mais boêmio como era”, lembra Cíntia.  

O longa tinha dois objetivos principais: realizar o sonho de Orlandivo em se apresentar pela primeira vez em sua terra natal, e fazer desse show o documentário da sua vida. A narrativa seria composta por imagens de bastidores, de ensaios, de reuniões de produção do show, assim como depoimentos descontraídos – num clima muito mais “vivo” como um reality do que um tributo acadêmico. “Buscaremos na irreverência os conceitos estéticos e narrativos a fim de celebrar esse jovem octagenário cheio de carisma e balanço, que segue (en)cantando e fazendo dançar multidões ao brincar de samba”, apresenta o projeto.  

Falta fomento à cultura  

Com a caminhada em passos curtos da liberação da verba, os planos precisaram mudar, e com a debilitação do músico, o plano B era fazer um pocket show no festival alternativo de Carnaval Psicodália, em Rio Negrinho. A organização do evento já havia topado a inclusão do sambalanço no line up, mas novamente a saúde de Orlandivo demonstrou queda.  

Um plano C já estava sendo estudado, e nele Orlandivo faria o show no Rio de Janeiro duas semanas após a data em que ele veio a falecer. “A gente queria dar valor ao fato de ele ser catarinense, mas depois de tantas idas e vindas, íamos dar um jeito de inserir Santa Catarina de outro jeito e reestruturar o filme”, explicou Cíntia.

Com a morte do músico no início deste mês, mais uma vez o projeto que será realizado com edital federal fica estagnado. Cíntia afirma que vai esperar o Carnaval passar para ir ao Rio de Janeiro conversar com a família e elaborar um novo projeto que homenageie Orlandivo da maneira que ele merece.  

Segundo ela, as poucas imagens gravadas até então não contavam o filme da maneira que a produtora imaginava. “Estamos no momento de decidir o que fazer, e em contato com a Ancine. Não há precedência de casos como esse”, diz.  

Para a produtora, o que houve com o descuido na liberação tardia da verba foi um desacato à cultura brasileira. “Isso mostra o quão importante são as políticas públicas de fomento à cultura. O ‘cara’ era o ícone da música brasileira”, lamenta. O crítico musical Tárik de Souza coloca também que Orlandivo “foi um compositor muito original de samba, completamente diferente dos outros”.

No dia da morte, a produtora ligou para o filho de Orlandivo, e ele disse para ficarem tranquilos, pois ele estava muito feliz com a idealização do documentário “No (Sam)balanço de Orlandivo”.

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