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Prestes a estrear uma ópera totalmente autoral, Alberto Heller fala sobre a carreira

Mais um argentino morador de Florianópolis, o arranjador e compositor da Camerata lança "Frankstein" em junho

Karin Barros
Florianópolis
15/05/2018 às 10H50

“Acredite se quiser, era uma intuição, e não tinha nada a ver com morar na praia”, diz o pianista, arranjador e compositor Alberto Andres Heller, 46, que mora há quase 20 anos no bairro Campeche, Sul da Ilha, e tem como um dos principais trabalhos no Estado a participação na Camerata Florianópolis.

Com seus quatro cachorros, a mulher Francine Baggio e sua filha, o argentino (isso poucas pessoas sabem ou até esquecem) se sente bem na cidade que escolheu como sua e não pensa em se mudar. “Muitas vezes aparece em textos ‘o pianista catarinense’, e eu acho ótimo. Não tenho nada contra”, brinca ele.

Alberto Heller em seu estúdio, na companhia de um de seus cachorros, piano e livros - Daniel Queiroz/ND
Alberto Heller em seu estúdio, na companhia de um de seus cachorros, piano e livros - Daniel Queiroz/ND

Quando criança, Heller morou em Curitiba. Após o retorno da formação de pianista concertista na Alemanha, e com a vinda para Florianópolis, surgiu também a oportunidade de tocar com a Camerata. Ele já tinha composições para piano, mas não para orquestra de câmara, até que veio o convite – e o desafio – do maestro Jeferson Della Rocca, e ele aceitou. “Fiz, eles tocaram em uma apresentação e, para minha surpresa, soou bem legal. E fui escrevendo, escrevendo, para eles”, lembra.

O primeiro trabalho oficial como arranjador para a Camerata foi com o CD “Tributo à Música Popular Brasileira”, que teve grande repercussão e boas críticas. A relação de Heller com a orquestra da Capital estava definitivamente selada. Entre outros grandes projetos de Heller que ganharam repercussão estão o Rock in Camerata, que em 2018 completa dez anos, com dezenas de músicas do rock que marcaram a história do ritmo, o Especial Beatles, o Música para Cinema 1 e 2 e os ligados à música eletrônica, com Elekfantz e Gui Boratto.

Gosto pelo improviso, pelo rock e pelo pop 

Alberto Heller começou na música aos noves anos de idade. Por um ano fez piano, mas logo depois achou – literalmente – chato e desistiu do assunto. Sua mãe, persistente e grande incentivadora, insistiu no assunto com o filho e o colocou em uma escola de música popular na capital paranaense. Aos 14 anos ele já estava tocando em um bar durante o dia, e os 15 também no período da noite. “Meu pai precisou obter uma autorização no juizado de menores. Foi uma grande briga, porque eu tinha que tocar até 0h e estudar no outro dia”, lembra ele.

Porém, foi por causa dessas noites mal dormidas que ele viu a necessidade de se aprimorar, e retornou à música clássica em busca de base técnica. “Nesse momento minha paixão pelo clássico voltou mais forte que nunca”, diz. Por um tempo, Heller ainda conseguiu levar o popular e o clássico lado a lado, e mesmo que alguns puristas tenham preconceito ele acredita que isso agrega ao músico. “A prática da música popular, do improviso, o gosto pelo rock e pop, nunca deixei de ter. Na própria música clássica, no período barroco, na época de Bach, por exemplo, muita coisa era improvisada, depois as pessoas perderam um pouco isso. A superespecialização dos séculos 19 e 20 tirou um pouco isso”, pontua.

De acordo com seus estudos, mesmo na música clássica se primou muito pela criação. “Você não podia ser só pianista, todo mundo esperava que se você fosse músico, tinha que arranjar, tocar, cantar, e com o tempo isso foi afunilando”, diz Heller. Nas aulas que ministra dentro da própria escola da Camerata, o músico diz ser muito partidário, em busca de cada perfil, predileção e talento maior nos alunos, porém nunca achou que o foco total em apenas um assunto faz bem. “A maioria das escolas de música só treina as pessoas para serem intérpretes e dá pouco valor à criação. Isso é uma crítica de forma geral à música clássica, e não só aqui no Brasil”, afirma.

“Frankenstein”, uma ópera para chamar de sua

Heller, que sempre gostou de criar, lança entre 27 e 29 de junho, no Teatro do CIC (Centro Integrado de Cultura), em Florianópolis, uma obra com composições totalmente autorais – a ópera rock “Frankenstein”. Ele explica que quem olhar de fora pode entender o projeto como um musical, mas esteticamente ele vai mais para o clássico e para rock do que para o pop, comparado a outras óperas mais comerciais. Apesar da palavra “rock”, o novo trabalho da Camerata Florianópolis em parceria com Heller é extremamente denso e dramático, segundo o autor.

Heller iniciou na música aos noves anos, mas não se entregou ao piano de imediato - Daniel Queiroz/ND
Heller iniciou na música aos noves anos, mas não se entregou ao piano de imediato - Daniel Queiroz/ND


Com duas horas de duração, ela une orquestra sinfônica, banda, solistas, coro, partitura de 500 páginas e grande produção. “A diferença do Rock in Camerata é um ponto crucial. No Rock a gente tem uma banda com música de banda e eu acrescento a orquestra. Agora, tem uma concepção sinfônica, e nela eu integro a banda”, diz.

A ideia surgiu há sete anos, de um insight do maestro Jeferson Della Rocca. “Na época não me veio nada em mente, mas durante um Rock in Camerata fiz alguns experimentos e há um ano e meio disse ao Jeferson que estava pronto, que tinha achado o estilo certo”, explicou. Foram muitas pesquisas até chegar ao nome do monstro de parafusos Frankenstein. Aliás, ele destaca que o clássico britânico de Mary Shelley vai muito além dessa imagem. “Me encantei pelo livro, é uma ópera perfeita, com quantidade de personagens, tudo. Durante vários meses escrevi o libreto até chegar no que seria o ideal a musicar”, revela.

O preparo da orquestra levou no mínimo quatro meses. Heller afirma ainda que para os intérpretes o trabalho tem sido ainda mais difícil por não haver referências como na maioria dos projetos apresentados por eles. A apresentação será toda em inglês, o que facilita turnês para fora do país futuramente, e Heller acredita que o público do rock estará completamente contemplado.

A propósito, por uma coincidência, no ano em que a ópera estreia é comemorado o bicentenário do Frankenstein de Mary Shelley.

O escritor que enveredou pela música

O pianista, que tem como referências de Gustav Mahler e Richard Strauss ao new age Dead Can Dance e Pink Floyd, é também autor premiado – com dois livros publicados e um em produção – e terapeuta. Aliás, uma das revelações que fez na entrevista é de que seu primeiro sonho era ser escritor e não músico.

Junto ao trabalho com a Camerata, Heller também faz trabalhos de intérprete e concertos solo. Diz que nos últimos anos diminuiu o número de concertos por estar mergulhado em suas composições, mas que depois de “Frankenstein” deve “tirar o atraso”. Também gosta muito dos atendimentos terapêuticos, e quando tiver carga horária para isso deve voltar ao ramo.

Heller também diz ter recusado dois convites para morar e dar aulas na Alemanha, onde tem formação, porque “não é um país onde se vê envelhecendo”. Mesmo com todos os problemas do Brasil, ele tem consciência de que cada local tem os seus. Em Santa Catarina, em especial, o músico ressalta que a cultura tem sido prejudicada por causa das políticas públicas voltadas à arte. “Eu sou um dos poucos privilegiados que conseguem estar sempre trabalhando. Mas muitos colegas enfrentam dificuldades atrozes. Tem muita coisa que ainda precisa melhorar por aqui”, finaliza.

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