Publicidade
Sexta-Feira, 14 de Dezembro de 2018
Descrição do tempo
  • 31º C
  • 22º C

Oscar Niemeyer é reverenciado pela revolução nas formas

Arquiteto brasileiro desfez os conceitos rígidos e deu uma nova forma e volume para a arquitetura do país e do mundo

Carol Macário
Florianópolis
Ildo Francisco Golfetto / Divulgação / ND
Desafio à gravidade no Museu de Arte Contemporânea, em Niterói (RJ)

No final dos anos 1960, estudantes universitários da Argentina, entre eles Beatriz Sarlo, renomada crítica literária cultural, e Alberto Sato, decano da faculdade de arquitetura, arte e design da Universidade Andrés Bello, de Santiago do Chile, subiram o rio Paraná num barco que transportava madeira. O destino no Brasil não eram os conhecidos Pão de Açúcar e Corcovado, no Rio de Janeiro, ou a Baía de Todos os Santos, em Salvador. Cheios de crenças e superstições futuristas, almejavam Brasília, símbolo da revolução dos tempos, a cidade do futuro. A visão dos prédios no Planalto Central era quase a de um filme de ficção científica para época, era a modernidade encontrando o presente. Oscar Niemeyer (1907 - 2012) foi o principal arquiteto do empreendimento. Não só pelo projeto da capital federal, como também pelas dezenas de projetos executados em todo globo, incluindo o prédio da ONU (Organização das Nações Unidas), nos Estados Unidos, sua obra simbolizou a modernidade brasileira, um marco na história da arquitetura moderna do mundo – não á toa, ele é um dos brasileiros mais lembrados fora do país, ao lado de Pelé e Tom Jobim.

Antes das curvas de Niemeyer, o país era um polo importador de design arquitetônico alheio: açoriano, português, francês. Protagonista da construção do patrimônio e identidade nacional, o arquiteto realizou projetos que desafiaram a gravidade e fez engenheiros e calculistas suspirarem. Ele completaria no próximo dia 15 de dezembro 105 anos de idade, data que a partir deste ano será celebrada como o Dia do Arquiteto. Lúcido e incansável, dias antes de ser internado num hospital no Rio de Janeiro, onde está desde o dia 2 deste mês, discutia novo projeto com um calculista de seu escritório.

Comunista ferrenho e admirador do corpo feminino (estudiosos dizem que as curvas de seus projetos são inspiradas nas mulheres), ele foi pioneiro em explorar possibilidades construtivas e plásticas. “Sua obra é monumental. É forte, mas limpa. Cheio de simbologia. Ele representou a modernidade brasileira”, resume o arquiteto Cesar Floriano, 58, professor de história e estética na arquitetura da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Forma no lugar da função

Os projetos arquitetônicos de Oscar Niemayer são como obras de arte, sonhos materializados em concreto armado, a céu aberto, acessível a todos. “Por isso mesmo muitos criticam sua obra como sendo muito formalista”, comenta Cesar Floriano. A crítica recai sobre a preocupação excessiva com a forma, sem dar o mesmo peso à função. “Niemeyer defende que a cidade precisa ter nos edifícios públicos algo que diferencie da arquitetura do cotidiano. Por isso ele busca construir monumentos públicos”, explica o professor.

Já em sua primeira obra, o projeto de 1936 do edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, quando substituiu o urbanista Lúcio Costa (1902 – 1998), amigo e colega no projeto de construção de Brasília, na coordenação do grupo que desenvolveu os estudos para o prédio, Niemeyer foi protagonista da corrente modernista que privilegiava a expressão plástica.

“Para ele, arquitetura tem que ser feita para o povo, para que as pessoas tenham uma experiência estética urbana”, diz o designer gráfico Ildo Francisco Golfetto, professor de fotografia da Faculdade Energia, em Florianópolis. Apaixonado pela obra de Niemeyer, há sete anos Golfetto fotografa edifícios do arquiteto brasileiro. É ele quem lembra uma frase de Niemeyer, em que sem papas na língua disse que “se ficar só função fica uma merda.”

“Muitos críticos reclamam da falta de qualidade acústica e térmica de alguns projetos. Mas ora, se ele se preocupasse com a função, cairia na vala comum. É quase uma licença poética”, opina o designer. Foi essa licença poética que nos anos 1950 rendeu ao brasileiro a primeira publicação sistemática de sua obra, “The Work of Oscar Niemeyer” (“O Trabalho de Oscar Niemeyer”, tradução livre), publicada em Nova York. O livro desempenhou importante papel na divulgação de sua arquitetura no exterior, bem como da própria produção brasileira.

“A Curva me Atraía”

O Conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, construído entre 1942 e 1944, marcou o começo da amizade entre Oscar Niemeyer e Juscelino Kubitschek, então prefeito da capital mineira e futuro presidente do Brasil. Foi Kubitschek quem encomendou ao jovem arquiteto já reconhecido um conjunto de edifícios em torno do lago artificial da Pampulha (e mais tarde o chamaria para projetar a nova capital do Brasil). “A curva me atraía. A curva livre e sensual que a nova técnica sugeria e as velhas igrejas barrocas lembravam”, escreve o arquiteto em sua página oficial na internet (www.niemeyer.org.br), que é como um diário de memórias de suas mais de dez décadas de vida, com comentários e depoimentos sobre as obras mais importantes.

“O projeto me interessava vivamente. Era a oportunidade de contestar a monotonia que cercava a arquitetura contemporânea, a onda de um funcionalismo mal compreendido que a castrava, dos dogmas de ‘forma e função’ que surgiam, contrariando a liberdade plástica que o concreto armado permitia”, diz ele. O conjunto hoje é como um museu ao ar livre, com um cassino, uma igreja, uma casa de baile e um clube. As edificações chamam atenção pela fachada, marquises sinuosas, lembrando que a curva pode ser bela, lógica e graciosa, se bem construída e estruturada. A igreja São Francisco de Assis, consagrada por entusiastas da modernidade, foi mal recebida pela Igreja Católica na época.

Foi a partir do Conjunto de Pampulha que seu jogo inesperado de retas e curvas e o concreto armado começou a se definir. “O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo”, escreve ele em sua página.

Um eterno utopista

Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares  nasceu em 1907, no bairro Laranjeiras, no Rio de Janeiro. A casa da sua infância era assobradada, com seis janelas na fachada e as iniciais do avô na frente: RA, Ribeiro de Almeida. Ali nasceu, cresceu e se casou com Annita, com quem teve apenas uma filha, Anna Maria, morta em junho passado aos 82 anos. Sua mulher morreu em 2004 – dois anos mais tarde ele casou com sua secretária, Vera Lúcia Cabreira, 40 anos mais jovem.

Quando começou a estudar na Escola Nacional de Belas Artes, em 1929, ainda morava no mesmo bairro que nascera. De tanto desenhar formas vazias no espaço, com o dedo no ar, “formas que guardava de memória, corrigia e ampliava, como se as tivesse mesmo a desenhar”, acabou sendo absorvido pela arquitetura.

Utopista, ingressou em 1945 no PCB (Partido Comunista Brasileiro), abraçado pelo pensamento de Karl Marx (1818 – 1883) que segue até hoje. “Fui sempre um revoltado. Da família católica eu esquecera os velhos preconceitos, e o mundo parecia-me injusto, inaceitável. A miséria a se multiplicar como se fosse coisa natural e inaceitável”, diz ele.

Essa ideologia explica sua preocupação com a acessibilidade da arte: construiu monumentos na rua, visível a todos. Seu vínculo com o PCB o forçou a deixar o Brasil no final dos anos 1960, durante a Ditadura Militar. Instalou-se então em Paris, onde montou escritório numa das avenidas mais famosas do mundo, a Champs-Élysées. Foi quando seus trabalhos se multiplicaram e sua arquitetura ficou conhecida por toda parte. Na França, uma de suas obras emblemáticas é a sede do Partido Comunista Francês, de 1965.

Niemeyer em Florianópolis

Oscar Niemeyer não teve muita penetração no extremo Sul do Brasil; nem em Santa Catarina ou Rio Grande do Sul. Em Florianópolis há apenas dois projetos de sua autoria, praticamente desconhecidos da população: o LIC (Lagoa Iate Clube), na Lagoa da Conceição, e o Loteamento Praia do Forte, região hoje conhecida como Jurerê Tradicional, Norte da Ilha. Um terceiro projeto, para construção da biblioteca pública na área continental de Florianópolis, não chegou a ser executado.

“Santa Catarina era um estado periférico. Foi um esforço da época para trazê-lo”, diz Luiz Eduardo Teixeira, 61, professor de arquitetura brasileira da UFSC. Em parceria com o professor Gilberto Yunes, ele está desenvolvendo itinerários da estrutura moderna em Florianópolis, com a proposta de criar um guia para a população.

O projeto para o loteamento da Praia do Forte é de 1957 / 1959. “Se olhar bem se percebem as ruas projetadas para carros e para pedestres. Havia também um prédio projetado para ser restaurante, mas foi demolido quando a Habitasul comprou o terreno e na época afirmou não ter interesse em mantê-lo”, diz Teixeira. O projeto é caracterizado pelos lotes, com desenho diferente do usual e uma rua que leva para a praia. “Hoje é o que se mantém mais próximo do original”, diz o professor Gilberto Yunes. Atualmente a comunidade tem feito esforços para tomar a região como patrimônio histórico material.

Já o projeto do LIC é mais novo, de 1969. Concebido originalmente para ser um loteamento à margem da Lagoa da Conceição, chamado Centro Internacional de Turismo, foi desenvolvido sem a presença de Niemeyer no local. A construção do LIC fazia parte de um ideário da época, o da construção de clubes sociais, esportivos e recreativos em soluções espaciais e composições estruturais que representavam o espírito do “estado novo”, de modernidade.

Conforme o pesquisador, arquiteto e urbanista Gilberto Yunes, a concepção original do clube previa uma grande marquise que abrigava espaços abertos e setores fechados por esquadrias de madeira e vidro, permitindo a convivência com a paisagem ao redor. “Previsto para 4.000 pessoas, a forma orgânica definida pela sobreposição da laje de cobertura e o conjunto do espelho d’água e piscinas, segundo alguns autores, foi inspirada no contorno da Lagoa da Conceição.”

Durante as diferentes gestões administrativas, a edificação do LIC passou por alterações de ampliação e reformulação. Ainda assim, é o único projeto edificado do arquiteto na cidade. “O reconhecimento dessa obra para a população local é muito importante”, declara o professor.

 

Adriana Füchter / Divulgação / ND
Detalhe do Museu de Arte Contemporânea, pela fotógrafa Adriana Füchter

 

Catarinenses apaixonados por Niemeyer

A fotógrafa catarinense Adriana Fuchter é apaixonada pela arquitetura e pelas curvas de Niemeyer. Coincidentemente, está neste final de semana fotografando obras dele em Minas Gerais. Já rodou cidades brasileiras e emplacou fotos no livro “Olhar Niemeyer” (Editorial Teorema). A coletânea tem imagens do legado do brasileiro registrado por fotógrafos do mundo inteiro.

A obra foi publicada em 2009, e Adriana é a segunda fotógrafa com mais registros – nove no total. Ainda sem previsão de lançamento no Brasil, o livro circula apenas na Europa e em algumas livrarias virtuais. “Admiro a pessoa dele e a arquitetura dele. Gosto do design, dos desenhos”, diz ela. O livro conta com 1.100 fotos de obras de Niemeyer em 11 países.

O designer gráfico Ildo Francisco Golfetto é outro admirador da obra do arquiteto. Há anos fotografa arquitetura e as obras de Niemeyer. Um dos seus lugares favoritos é a Casa da Canoa, no Rio, onde Niemeyer morou até pouco antes de começar a construção de Brasília. “É um universo fascinante. O nível de detalhamento das obras. O Museu do Olho, por exemplo, como ele fez eles fazerem aquilo?”, brinca. “Ele não é só hard concreto armado, mas também o detalhe, a minúcia”, conclui.

Museu do Olho

O MON (Museu Oscar Niemeyer), em Curitiba, também conhecido por Museu do Olho, foi construído 40 anos atrás. Era tão leve e atualizado que surgiu a idéia de transformá-lo num museu de arte. Um grande salão foi projetado, solto no ar, com 70 metros de comprimento e 30 metros de largura. Um milagre que o concreto armado oferece à arquitetura contemporânea. O museu de arte, apesar de ser batizado em homenagem ao arquiteto, não tem obras de Niemeyer, a não ser pelo próprio edifício e algumas miniaturas de suas obras. 

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade