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Quinta-Feira, 15 de Novembro de 2018
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Personagens baseados em típicos manezinhos da Ilha arrancam risadas da plateia

Jeito de falar e costumes nativos de Florianópolis são fontes inesgotáveis para os atores da cidade

Edinara Kley
Florianópolis

“Tu dix!?” Sim, eles dizem. E com uma velocidade impressionante.  Se a identidade de um povo é expressa através de sua cultura, não há elemento cultural mais eficaz do que a linguagem para diferenciar os manezinhos da Ilha dos nativos de qualquer outra parte do mundo. É através da fala e de expressões faciais particulares que os nascidos e criados na Capital ou em outras cidades praieiras da Grande Florianópolis, como Biguaçu, São José e Palhoça, conseguem ser reconhecidos por turistas e moradores, descendentes ou não dos portugueses que colonizaram a região por volta de 1700.

Flávio Tin/ND
A Dona Bilica, criada pela atriz Vanderléia Will, nasceu de intensa pesquisa do imaginário ilhéu

 

E tal qual era antigamente ou “di primêru” - como preferir o leitor – a vida e os costumes Manés se mantêm preservados e repassados às novas gerações de várias formas, a mais prestigiada e divertida delas é a arte cênica. A representação dos tipos mais peculiares, que há décadas conquistam o público ilhéu e do continente, é feita hoje por dezenas de artistas. Mais que fazer rir, personagens clássicos como Seo Manéca e Dona Bilica ou contemporâneos como o Odilho, Darci, Cuíca e Dona Maricotinha, são propagadores das riquezas culturais trazidas para Santa Catarina por seus ancestrais.

Mas não foi sempre assim. O que agora torna os habitantes da Ilha de Santa Catarina patrimônio vivo da cultura açoriana, em um passado recente era motivo de chacota. De acordo com o historiador, folclorista e autor de vários livros sobre o tema, Nereu do Vale Pereira, a nomenclatura deriva de Emanoel, que vem do hebraico e se tornou Manuel em Portugal. Os Manuéis que aportaram no Brasil, logo foram chamados de Manécas e Manés, seus filhos receberam o diminutivo e passaram então a ser manezinhos. 

Com a chegada de outras etnias nas terras de Desterro, primeiro nome da Capital, o apelido carinhoso passou a ser usado como insulto. “Aqui em Florianópolis o termo pejorativo nasceu da rivalidade entre alemães e açorianos, por volta de 1830. Eles vinham de uma facção étnica bastante forte, de uma Europa industrializada e encontravam o nativo anda vivendo da agricultura e da pesca. Mané passou a significar cidadão desqualificado, de pouca instrução, sem eira nem beira”, sublinhou o pesquisador.

 

Rosane Lima/ND
Odilho, o personagem criado por Alceu Ramos Conceição, conta causos que divertem nativos e turistas

 

Orgulho recente

Somente no século 20 o nativo começou a ser valorizado em Florianópolis e o jornalista Aldírio Simões (1942- 2004) foi um dos responsáveis por isso. Além de trazer à tona o cotidiano de seus conterrâneos em crônicas publicadas no extinto jornal “O Estado”, publicou diversas obras literárias sobre a cultura local, entre elas “Retratos à Luz da Pomboca”, na qual traçou o perfil de diversos Manezinhos.

Em 1985 ajudou a fundar a Fundação Pró-Florianópolis, graças a ele, em 2011, a figura do Manezinho da Ilha passou a ser considerada é patrimônio cultural de Florianópolis de acordo com a Lei 8.763 e, anualmente, as pessoas que valorizam a cultura dos nativos levam uma medalha com seu nome. “Partiu dele a retomada de consciência dos nativos. Da figura positiva do Mané, agora é título de nobreza e todo mundo quer”, reiterou o historiador.

 

Flávio Tin/ND
Seo Maneca, do ator Geraldo Cunha, olha com estranhamento as mudanças na cidade

 

Resgate de tradições 

De sandália de dedo, calça de pegar siri, paletó de ir à missa, cabelos impecavelmente penteados e três medalhas de santas católicas - “porque sem Deus a gente não véve”-, Seo Maneca é um dos tantos representantes cômicos dos ilhéus. O personagem criado há 22 anos pelo ator e diretor Geraldo Cunha, que na época fazia par com Dona Bilica, é um pescador aposentado que enxerga com estranhamento as mudanças na cidade. Por trás da performance há muita pesquisa, todos os causos contatos por ele são baseados em histórias reais e na literatura.

O estudo do linguajar, da forma de vida e dos muitos aspectos culturais dos nativos da Desterro a qual pertence Seo Maneca foi e continua sendo feito através de entrevistas com antigos moradores e estudiosos. “É uma  ilusão, reduzir a história e cultura de um povo, partindo de uma ideia de simplicidade, de atraso, de gente menos capaz de produzir. Muita coisa se perdeu, mas ainda tem muita coisa para ser descoberta na cultura ilhoa. Fazer isso em forma de teatro é um trabalho didático, que funciona com quem vive e quem não é daqui”, detalhou.

A mesma pesquisa de campo foi usada para a composição da Dona Bilica, a desbocada manezinha capaz de agradar crianças e velhos, homens e mulheres, pobres e ricos, nativos e turistas. Após a separação do casal de personagens, ambos permaneceram fazendo sucesso, a identificação foi tamanha que hoje tem um circo só seu, no Sul da Ilha. “Ela é uma homenagem ao antigo morador. É um trabalho histórico que traz todo o imaginário popular da época, a religiosidade, o medo de bruxa, a luz de pomboca, os saberes e as cantorias”, define a atriz.

 

Flávio Tin/ND
Darci, personagem criado pelo do músico Moriel Costa, da banda Dazaranha

 

Manés do século 21 

Personagens mais recentes e igualmente adorados, sobretudo pelos moradores da Ilha, os novos manezinhos impressionam. Sem pretensão de ser humorista, mas com o a graça pulsando nas veias, o músico Moriel Costa, compositor do Dazaranha, criou o Darci. Em 2009 o sotaque veloz e marcante que alegrava os encontros entre amigos e familiares estreou um programete de rádio, sucesso até hoje. “O Darci sou eu e é você. Ingênuo e inocente é um anti-herói que acha que está sempre arrasando, mas não é nada disso. É um manezinho de antigamente curtindo o mundo de hoje”, define o criador.

Pertencente a mesma família de talentos musicais do compositor, Alceu Ramos Conceição, criou o Odílio por volta de 2007 e descobriu no humor a transformação de sua vida. Com uma enorme rosca de polvilho pendurada em um dos braços e uma sacola cheia de inutilidades no outro, o primo de Darci é diversão certa. “Simples, mas com requinte”, como se define, ele também quer se integrar às modernidades da Florianópolis atual. A infância difícil à beira-mar é a inspiração para o personagem que conta coisas que ouve por aí. “Estou sempre atendo nas conversas das pessoas, esse é meu laboratório”, reiterou.

 

Rosane Lima/ND
Cuíca, personagem do produtor Gilberto Henrique Barcella

 

Igualmente atrevidos e engraçados, Cuíca e Dona Maricotinha também representam com comicidade o universo açoriano. Ele, que surgiu no Jornal do Meio-Dia, da RIC, para mostrar os problemas da comunidade, acabou ganhando vida própria e fazendo comédia stand-up.  “Cuíca é um personagem Mané feito para manes, é muito local fala das coisas essencialmente da cidade”, comenta Gilberto Henrique Barcella. Despretensiosamente também nasceu Maricotinha, uma benzedeira típica manezinha interpretada por Mônica Silva Prim. “Sinto que o público tem o desejo de não deixar morre essa cultura e o humor é uma forma de ensinar brincando”, reitera.

Em cartaz:

O quê: Espetáculo Seo Maneca
Onde: Tetro da Armação, Praca 15, 344, Centro, Florianópolis, tel. 3282-2203
Quando: dias 7,13, 14, 21, 22, 28 e 29 de setembro, 20h30
Quanto: R$ 20/R$ 10 (meia) 

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