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Peça 'A Última Dança' aborda opressão social nas fábricas da França no início do século 20

Inspirado no diário da escritora Simone Weil, espetáculo teve trilha sonora premiada em São Paulo e contará com apresentação gratuita em Florianópolis

Gustavo Bruning
Florianópolis
11/08/2017 às 14H29

A trajetória da escritora e filósofa francesa Simone Weil, que abandonou o trabalho e a família para se tornar operária em uma fábrica, na primeira metade do século 20, é tema de um espetáculo que estreia em Florianópolis nesta quarta-feira (16), às 20h. No monólogo “A Última Dança”, que terá uma apresentação gratuita no Teatro Álvaro de Carvalho, a atriz paulistana Natalia Gonsales evoca a transformação de uma protagonista burguesa em uma heroína trágica, vítima da opressão social ao incorporar o cotidiano da fábrica. “É uma personagem que acaba se tornando uma pessoa mecanizada, sem domínio do pensamento e capacidade de reflexão”, revela.

O monólogo é estrelado pela atriz paulistana Natalia Gonsales - Divulgação/ND
O monólogo é estrelado pela atriz paulistana Natalia Gonsales - Divulgação/ND


Baseada nos textos do diário de Simone Weil, a peça conta com relatos das condições precárias do trabalho, como o calor das fornalhas, a fome, as doenças e o esgotamento físico. Outra fonte de inspiração foi o livro “O Enraizamento”, um ensaio escrito pela filósofa em 1943 e que permaneceu inacabado até a sua morte, por tuberculose. “Além disso, o César Baptista, que também fez a adaptação dramatúrgica, desenvolveu uma escrita que apresenta Simone ao público”, destaca Natalia.

A peça estreou nos palcos de São Paulo em junho de 2016 e, a convite da Aliança Francesa Florianópolis, será apresentada fora do Estado pela primeira vez. Com direção de Baptista, o espetáculo já teve 24 apresentações e terá opções de audiodescrição (é preciso levar o fone para acessar o recurso) e tradução em libras.

O cenário, segundo Natalia, é um dos elementos fundamentais para a ambientação da situação degradante. Assinado pelo diretor do espetáculo, Flávio Tolezani, ele é formado por máquinas de linha de produção originais, vindas de uma metalúrgica. Já a trilha sonora, composta por ruídos de correias e barulhos de macetadas, reflete o ambiente impetuoso da trama. “A Simone falava muito dos sons da fábrica [no diário], que eram insuportáveis, então a gente brinca um pouco com microfones que duplicam o som das máquinas”, explica a atriz. A trilha foi criada por Daniel Maia e venceu o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro.

A rotina desgastante dos operários nas fábricas é tema do espetáculo - Livia Simardi/Divulgação/ND
A rotina desgastante dos operários nas fábricas é tema do espetáculo - Livia Simardi/Divulgação/ND


Mesmo tendo nascido quase 80 anos após Simone, Natalia garante que passou a se identificar com a jornada da protagonista. “Eu também era burguesa e mudei a forma como lido com pessoas ao meu redor. O olhar da personagem me transformou e fez com que eu revisitasse os preconceitos que tinha com os oprimidos”, afirma. A francesa, segundo ela, “abandonou tudo para se entregar a outra atividade”, pois descobriu que só poderia escrever sobre os operários de forma autêntica se vivenciasse a situação vivida por eles. “Ela alugou um quarto com operários e deixou de comer, e, com o tempo, percebeu que escrevia cada vez menos, por causa do cansaço físico e mental”, conta a atriz.

Bastante conhecida em seu país de origem, a escritora passou a ter outros pensamentos em relação à humanidade e questões sociais depois de vivenciar as condições de vida dos trabalhadores. Mesmo décadas após o período retratado, a atriz acredita que a situação alarmante ainda permanece. “O sistema é precário até hoje. A nossa evolução é muito pequena quando se trata da relação entre as classes sociais”, completa.

Serviço:

O quê: Espetáculo “A Última Dança”
Quando: 16/8, 20h
Onde: TAC, rua Marechal Guilherme, 26, Centro, Florianópolis, tel. 3665-6400/3665-6401
Quanto: Gratuito - retirada de ingressos uma hora antes na bilheteria dos teatros

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