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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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Patrimônios históricos serão revitalizados na Grande Florianópolis

Teatro Adolpho Melo, Memorial Cruz e Sousa, Museu Histórico e Victor Meirelles têm projeto de reforma para 2014

Edinara Kley
Florianópolis

A Grande Florianópolis vive um momento de revitalizar o patrimônio histórico. Três de seus principais espaços expositivos e culturais passam ou devem passar por melhorias estruturais que vão garantir a abertura e a conservação de obras, prédios e da memória de importantes personalidades que contribuíram para a formação musical, poética e artística catarinense. Vítimas das ações do tempo, os prédios tombados acabam reféns da vontade política para que suas edificações e história sejam conservadas e acessíveis à população. Felizmente, para o Teatro Adolpho Mello, em São José, o Museu Histórico de Santa Catarina – Palácio Cruz e Sousa e o Museu Victor Meirelles, ainda há tempo.


Teatro Adolpho Mello na fila da emergência

Rosane Lima/ND
Interditado em 2013, Teatro Adolpho Melo aguarda pela reforma 

 

Decompondo-se em uma esquina do Centro Histórico de São José, a mais antiga casa de espetáculos de Santa Catarina e a terceira do Brasil, o Teatro Adolpho Mello, aguarda por uma assinatura para que sua reforma emergencial comece. Sem a troca ou conserto do telhado nada pode ser feito no interior do espaço inaugurado em 1856, que padece diante dos olhos do poder público catarinense, que até já fez algumas reformas, conforme anunciam as placas de bronze fixadas nas paredes úmidas do hall de entrada. Sem manutenção frequente, nenhuma obra foi capaz de mantê-lo com as portas abertas até hoje.

No fim da década de 1970, quando a estrutura dava sinais de sua fragilidade e o espaço ainda atendia pelo nome de Theatro São José, o Governo Estado assumiu seu comando. Nesse período foi feito o primeiro e talvez único grande restauro. O local foi transformado em cinema e o recebeu o nome de Adolpho Pereira de Mello, em homenagem ao violinista josefense. Em 1989 o município retomou seu posto de administrador e o colocou de volta no roteiro das artes cênicas nacional. A partir de então, além de espetáculos de teatro, canto e dança, abrigava cursos e oficinas de teatro e outras manifestações artísticas.

No começo dos anos 2000, a precariedade das instalações começava a chamar mais atenção que as apresentações do palco. As infiltrações, camufladas por grossas camadas de tinta começavam a arrebentar o piso e as paredes de pedra. A umidade e também apodreceu o teto. Em 2013, depois de servidores se negarem a circular no seu interior, a Defesa Civil foi chamada e interditou o local por problemas na estrutura e rede elétrica.  Do fechamento, em março, até agora, as cortinas permanecem fechadas para a cultura. A previsão otimista é que sejam reabertas até 2016.

O primeiro passo para reestreia do Adolpho Mello é assinatura do documento que confirma a liberação de cerca de R$ 261 mil do Funcultural para a reforma do telhado. O pedido foi entregue ao Secretário de Estado de Turismo Cultura e Esporte, Filipe Mello. Segundo o secretário municipal de Cultura de São José, Carlos Eduardo Martins a assinatura poderia ser feita ainda nesta semana. A informação não foi confirmada até o fechamento da reportagem.

Projeto arquitetônico foi presente

Rosane Lima/ND
Autoria dos painéis, atribuídas a Rodrigo de Haro, será investigada

O novo projeto do teatro, uma cortesia da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), foi entregue neste mês à secretaria de cultura do município. Criada com base em um levantamento histórico do prédio a projeção assinada pelo arquiteto Edy Genovez Luft, a edificação suas características originais, com elementos novos, como acessibilidade a cadeirantes e portadores de necessidades especiais. “É um verdadeiro presente para a cidade”, emenda Martins.

Depois do telhado pronto, a intenção é colocar em prática o plano arquitetônico que prevê restauro da fachada, detalhamento dos camarins, projeto hidrosanitário, elétrico, de iluminação e sonorização cênica. Para revitalizar e restaurar toda a estrutura, o secretário arrisca dizer que o valor deve ultrapassar R$ 1 milhão. “Todo restauro tem um nível de imprevisibilidade. No caso do Adolpho Mello ele é maior porque tem um olho d’água que passa por baixo e isso deverá dar bastante trabalho. Também temos muitos painéis deteriorados, parte deles que são atribuídos a Rodrigo de Haro. Temos de fazer um estudo para saber se realmente são e qual o seu valor artístico. A fundação não tem registro das coisas, o pessoal do arquivo histórico está buscando isso”, reitera.

Apesar da idade, o Adolpho Mello ainda não é tombado como patrimônio histórico do Estado, o processo para que o imóvel passe a ser intocável também aos olhos do estado deve finalizar em julho. Com o tombamento a responsabilidade sobre o prédio volta ser do Estado, mas sabendo das alegadas dificuldades financeira e da morosidade dos processos, o secretário adianta que o município pensa em buscar sozinho recursos da Lei Rouanet.

Conservação inglória da memória do poeta

 

Eduardo Valente/ND
Memorial Cruz e Sousa permanece isolado da população

 

Seria ironia do destino, se não fosse má aplicação do dinheiro público, o que faz com que os restos mortais de Cruz e Sousa, o poeta negro e pai do simbolismo no Brasil, permaneçam isolados da população em meio a um dos pontos mais movimentados da Capital, e no jardim do prédio público aberto em sua homenagem, o Museu Histórico de Santa Catarina. Ele, que em vida livrou-se do destino de filho de escravos quando marechal Guilherme Xavier de Souza o retirou do convívio dos pais para criá-lo como filho e lhe conferindo o direito de circular livremente pela cidade onde nasceu, na morte segue preso em uma sala de vidro separada por cordões de isolamento. De frente para o prédio da prefeitura e entre a Praça 15 e a rua Trajano, suas cinzas estão trancafiadas desde 2011, quando o memorial  foi interditado..

“Alma! Que tu não chores e não gemas” declamaria o poeta da alma ferida diante dos sonetos sem rima escritos ao seu redor. Agora, uma nova estrofe para este poema quase épico, escrito pelas mãos de dois ex-presidentes da FCC (Fundação Catarinense de Cultura) e de seis secretários de Estado que assumiram a pasta durante os últimos três anos, está prestes a ser escrita. O autor do novo versículo, será o atual indicado à Secretaria de Estado de Turismo Cultura e Esporte, Filipe Mello, que também responde pela FCC (Fundação Catarinense de Cultura).

Há pouco mais de dois meses no cargo, Felipe Mello não autorizou nenhum técnico ou administrador a falar a respeito do memorial, não compareceu a entrevista agendada e nem retornou as ligações à reportagem. Por e-mail, enviado pela assessoria de imprensa, informou que “a pedido do governador a FCC vai recuperar o espaço para, definitivamente, oferecer ao público a possibilidade de contemplá-lo e ainda usufruir de uma área de apoio com café e banheiros”.

A abertura dos envelopes do edital para recuperação do memorial aconteceu no dia 25 de abril e, segundo ele, a homologação e assinatura a ordem de serviço aconteceria até o fim desta semana. Após início da obra, orçada em R$ 350.483,60,  o prazo de conclusão estabelecido no edital é de quatro meses. No mês aniversário de nascimento do poeta talvez sua alma possa comemorar a liberdade.

Entenda o caso:

O Memorial Cruz e Souza foi inaugurado em 6 de maio de 2010, e vistoriado e interditado em fevereiro de 2011. Um engenheiro do Deinfra (Departamento de Infraestrutura do Estado), apontou problemas estruturais que ofereciam riscos aos visitantes. Construído sobre uma antiga “casa de máquinas” o espaço sofria com infiltrações, estava com as portas de vidro com risco de cair e apresentava problemas no assoalho.

O Estado, por meio do setor jurídico da FCC, notificou a empresa Múltipla Engenharia e Consultoria Ltda para que fizesse os reparos na obra mal feita. A executora já havia decretado falência e teve início uma disputa judicial.  Sem acordo ou definição, o governo decidiu recuperar o espaço em paralelo à ação judicial, e tenta reaver o dinheiro pago. Segundo dados da FCC, divulgados na época ao Notícias do Dia, o valor foi de aproximadamente R$ 178 mil.


Nova fachada ao Museu Histórico Santa Catarina

Eduardo Valente/ND
Paredes e fachada estão sendo lavadas e vão receber pintura

Visíveis a quem passa pelo entorno da Praça 15, as obras do Museu Histórico de Santa Catarina – Palácio Cruz e Souza dão um tom acinzentado às paredes rosadas do patrimônio histórico tombado pelo município de Florianópolis e pelo estado de Santa Catarina. Com 1.700 metros quadrados, o prédio que um dos principais pontos de referência do Centro.

A limpeza e recuperação dos espaços externos do Palácio que começaram em junho e a executora é a Reflexo, prestadora de serviços de manutenção à FCC. A fase atual é de lavagem das paredes e remoção da vegetação invasora. Em julho, deve começar o processo de repintura e recuperação das rachaduras e buracos da parede. A empresa que fará a substituição, reparo e modernização de todo o sistema de iluminação externa do Palácio, está sedo definida nesta semana e os trabalhos não devem durar mais que sete dias.

No segundo semestre, deve ser posto em prática a realização do projeto luminotécnico que fará a recuperação e substituição de todo o sistema de iluminação interna.


Victor Meirelles renovado e ampliado

O casario onde nasceu o pintor Victor Meireles, em 1831, onde funciona o museu que leva seu nome, também tem planos para ficar maior e mais interativa. O prédio vizinho ao espaço museológico onde funciona a ACI (Associação Catarinense de Imprensa) que pertencia ao Estado e foi doado ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional). A doação foi aprovada em maio pela comissão de finanças da Assembleia Legislativa em maio.  

“É um ganho enorme para a sociedade. Além de ampliar o espaço vamos melhorar o serviço prestado à população. Teremos acessibilidade, biblioteca, arquivo histórico e ampliaremos o serviço de formação e de oficinas. A obra faz parte de um projeto de revitalização total do centro histórico de Florianópolis”, reitera a diretora Lourdes Rossetto.

A obra será subsidiada pelo PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) das Cidades Históricas do Governo Federal, custará cerca de R$ 3,4 milhões e deve estar pronta até dezembro de 2015. O projeto de engenharia está sendo revisado pelo Iphan, que vai administrar a obra. A licitação deve acontecem em julho e em 15 de agosto deverá ser entregue a ordem de serviço para o início dos trabalhos.

O edital de licitação, segundo a diretora do espaço, Lourdes Rossetto, deve estar pronto até o final de julho.

 

 

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