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Sábado, 17 de Novembro de 2018
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Os 50 anos da arte de Eli Heil em exposição inédita em Florianópolis

Mostra abre quinta (8) com 50 obras nunca antes expostas e que foram emprestadas por colecionadores

Carol Macário
Florianópolis

Daniel Queiroz / Arquivo / ND
Arte visceral. Eli nunca aprendeu as técnicas tradicionais de pintura e escultura,mas inventou inúmeras formas de se expressar

Entre o coração e o cérebro existe a arte inventada por Eli Heil. Da lucidez ao desvario criativo, as mãos da artista de 83 anos são o caminho do meio: a compensação para os males físicos e emocionais despejada sobre qualquer suporte, tela, papel, canudo, salto de sapato, bacio de vaso sanitário, vermelhos e amarelos. “É que meu cérebro é tão rápido e forte que puxa meu corpo para criar.” Simples assim. “Tudo surge na mente e já foi.”

Há 50 anos, desde o dia que o irmão lhe presenteou com um quadro e por si mesma concluiu, sem pretensões, “isso eu também faço”, Eli Heil vem “vomitando criações” (vomitar é seu verbo predileto para explicar sua arte) e encantando o mundo. De hoje até 7 de dezembro, a população de Florianópolis tem oportunidade única de ver o trabalho de uma das artistas catarinenses mais celebradas no Brasil e no exterior, na exposição “Barroco Bruto”, que comemora meio século da arte de Eli Heil. A mostra é na Fundação Cultural Badesc e reúne obras de colecionadores nunca antes expostas.

A primeira pintura de Eli Heil foi num pedaço de pano, “porque eu não conhecia tela.” Ela tinha 33 anos e perguntou ao irmão: “Como os outros artistas pintam?”. Diante da resposta óbvia, de que se usava pincel e tinta, desafiou. “Ah, então eu faço diferente.” E fez sempre diferente, ora usando palitos em vez de pincéis, ou agulhas, ou canetas, linhas, lã, até tinta de sapato (quando ela não conhecia outras tintas).

Em 50 anos Eli diz que criou mais de 200 técnicas diferentes. No museu O Mundo Ovo, onde está a maior parte do seu acervo de mais de 3.000 obras, ela explica com detalhes e uma memória de dar inveja para uma senhora de 83 anos o contexto, a técnica que usou e principalmente seu estado emocional na ocasião. “Quando o médico me disse uma vez que eu estava com anemia, perdi a cor, e as obras também. Qualquer coisa que acontece comigo eu perco a cor”, conta, para em seguida explicar: “o vermelho vai e volta.”

Cérebro na mão e coração para fora

Ao contar sua história, Eli Heil diz que era uma criança normal. “Quer dizer, como as outras. Não que eu não seja norma hoje.” Mas a verdade é que Eli, enquanto artista, está acima de classificações de normalidade. Ela equilibra-se na arte que separa e ao mesmo tempo une seu coração e cérebro, a razão e a emoção. Ela lembra então de quando teve um sonho e, ao acordar, sentiu a mão pesada. A sensação durou até as 12h, quando finalmente decifrou a mensagem: “coloque o cérebro na mão, gire e faça tudo o que está na mente.”

Eli Heil foi mãe, mulher, deu tudo para os filhos, construiu uma família da qual se orgulha, que é seu “ovo, óvulo e ovário.” Essa lógica foi compensada pela arte. Porque sua mente imaginativa, criativa, com a qual ela mesma se surpreende, nem sempre foi compreendida. Por isso os corações presentes em muitas de suas obras. Ele aparece para fora, é carregado por pássaros. “Se pudesse, literalmente abriria o peito e o colocaria para fora, assim as pessoas me entenderiam”, diz.

Ultimamente Eli sente-se cansada. “Até os 76 anos não sentia a idade. Mas agora comecei a perceber o peso dos anos no corpo. O cérebro continua intacto.” Se antes ela trabalhava incansavelmente, pela manhã, à tarde e à noite (e de madrugada, enquanto sonhava), restringiu o ofício a criar obras menores e restaurar esculturas pelo jardim d ‘O Mundo Ovo, onde mora com dois filhos. Cuidadosa e conhecida pelo apego aos filhos de seu cérebro (como chama suas criações), está ansiosa para rever antigos rebentos na mostra que começa hoje.

Rosane Lima / ND
Ylmar Corrêa Neto e Fernando Bopré são os curadores da mostra

Exposição mostra evolução técnica da artista

A exposição “Barroco Bruto” em celebração aos 50 anos da arte de Eli Heil é uma iniciativa de um grupo de pessoas que achou justo a homenagem. São 50 telas de três colecionadores reunidas no espaço expositivo da Fundação Cultural Badesc, no Centro, embora a mostra merecesse destaque maior e interesse de outros museus, como o Masc (Museu de Arte de Santa Catarina), pela relevância e importância da artista. “As instituições oficiais não estão atentas para o que está acontecendo”, lamenta Fernando Bopré, que fez a curadoria junto com Ylmar Corrêa.

“Quando Eli Heil completou 80 anos, o Masc chegou a formar uma comissão e a apresentar projeto de exposição da artista no museu. Mas o Conselho Estadual de Cultura disse na época que não tinha agenda”, comenta Corrêa, 46.

Ele convive com Eli Heil desde criança, e hoje é um de seus médicos. É ele quem explica o título da exposição, “Barroco Bruto”: “Existem nas obras uma série de elementos que lembram o barroco. A fuga da linha circular, que ela usa muito. O excesso e isso de ocupar todo espaço da tela”, diz.  Eli Heil ainda não teve sua obra classificada em fases, mas na exposição se vê bem a evolução de sua obra. “Ela se desenvolveu muito tecnicamente e não teve formação alguma”, observa o curador. É que Eli, esse tempo todo, quis simplesmente dar vazão aos seus sentimentos.

Serviço

O quê: Exposição “Barroco Bruto” em comemoração aos 50 anos da arte de Eli Heil
Quando: Hoje, 19h (abertura). Visitação até 7/12, segunda a sexta, 12h às 19h
Onde: Fundação Cultural Badesc, rua Visconde de Ouro preto, 216, Centro, Florianópolis, tel. 3224-8846
Quanto: Gratuito

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