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Sábado, 18 de Novembro de 2017
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Veronica Stigger fala das origens e das apropriações de sua literatura

Autora diz que "escritor é um canibal"

Carolina Moura
Florianópolis
Daniel Queiroz / ND
Escritora esteve na capital, onde lançou livro pela editora catarinense Cultura e Barbárie

 

A literatura de Veronica Stigger pode ser estranha, pode ser violenta, pode ser escatológica — mas vai sempre direto ao ponto. Como comentou Flávia Cera, da editora Cultura e Barbárie, no lançamento do novo livro da escritora, “Delírio de Damasco”, “a Veronica não tem metáfora!”. As frases coletadas na rua que ela apresenta nessa última obra, lançada na última quarta-feira em Florianópolis, são o extremo de sua escrita direta e concisa.

Prestes a publicar sua primeira narrativa mais longa — uma novela, pela Cosac Naify —Veronica continua a se reinventar. Segundo ela, o retrato do “estranho”, que move seu primeiro livro, “O trágico e outras comédias” (2004), foi sendo substituído por uma atenção ao gesto. Ela aponta isso no conto “Tristeza e Isidoro”, publicado em “Gran cabaret demenzial” (2007), em que a forma de peça de teatro rege o “balé” dos dois personagens centrais, presos nas ferragens de um carro, com as duas linhas de narrativa separadas — a do gesto, e a do diálogo.

Suas ideias de conto podem vir das mais diversas fontes; a história de um amigo, algo que viu na televisão, uma notícia de jornal. “Eu roubo demais, descaradamente. O escritor é um canibal que se apropria de tudo”, diz. E isso é também o que explica a violência que aparece em sua escrita. “Se a gente senta em casa e liga a TV ou abre o jornal, fica claro isso.” Exemplo é o conto “Os anões”, do livro homônimo (2010), em que um casal de anões é linchado em por furar a fila em uma confeitaria. O tom da narradora — uma das presentes — é de total naturalidade, assim como a reação das pessoas em volta, enquanto os anões são espancados e pisados até tornarem-se uma massa disforme.

“É uma violência que se naturalizou. A gente fala normalmente em bala perdida, sequestro relâmpago. A gente naturaliza essas expressões que mostram o horror do nosso dia-a-dia”, aponta. Sua forma de narrar é uma crítica a essa apatia, e uma transfiguração da realidade. No caso de “Os anões”, nos confrontamos com algo que não é tão implausível assim. “O Brasil é um dos países campeões em linchamento. A violência se origina onde menos se espera.”

Escritora por contingência

Filha de jornalistas, Veronica decidiu seguir a mesma profissão. Se formou, trabalhou em redação de jornal em Porto Alegre, sua cidade natal, mas decidiu mudar de rumo e ir para a academia. Foi o doutorado em história da arte que a levou a São Paulo, onde mora desde 2001 com o marido, Eduardo Sterzi, também jornalista que se transformou em acadêmico. Foi no meio desse percurso que ela se tornou escritora; uma contingência, como ela diz.

“Eu tinha muito texto na gaveta, mas não achava que aquilo fosse literatura”, conta. Ela já escrevia os textos desde quando vivia no Rio Grande do Sul. Mas foi em São Paulo que conheceu um novo amigo, que trabalhava como correspondente para o extinto site português Ciberkiosk e, ao ler seus contos, decidiu publicá-los. Eram quatro, e ela escreveu que eles faziam parte do livro inédito “O trágico e outras comédias”. O que Veronica não esperava era a proposta da editora Angelus Novus, de Coimbra, para publicá-lo. “Eu pedi um mês, para organizar e revisar o livro, e aí tive que fazer os outros contos. Não queria perder a chance de ser publicada em Portugal.” E assim foi, em 2003, por decisão unânime na editora.

A partir daí as portas se abriram. Primeiro a 7 letras quis publicar “O trágico” no Brasil, e, 2004, e quando o livro estava indo para a gráfica a Cosac Naify ligou para fazer o mesmo convite. Eles acabaram por publicar os dois livros seguintes de Veronica, “Gran cabaret demenzial” e “Os anões”. Ano passado lançou “Massamorda”, pela editora Dobra, e no ano que vem sai pela Cosac Naify sua primeira novela, “Opisanie `Swiata”. Mas mesmo sendo reconhecida no cenário da literatura contemporânea brasileira, e tendo contos traduzidos para outras quatro línguas, ela ainda hesita em se chamar escritora. Em formulários de hotel, mesmo quando viaja em função de seus livros, preenche a lacuna de profissão com “professora”.

“Ficções embrionárias”

Veronica recolheu algumas das frases que compõem “Delírio de Damasco” — lançado na quarta-feira em Florianópolis pela editora Cultura e Barbárie — sentada em uma confeitaria no meio do shopping Iguatemi de Porto Alegre, comendo a torta que dá nome ao livro. Foi lá, na frente da vitrine da loja de cristais Swarovski, que ela ouviu de uma senhora: “Não são jóias. Não brilham. Não dá para tomar banho com elas”.

Originalmente um projeto para o Sesc, que foi exposto em placas coladas sobre os tapumes da obra de uma nova unidade da instituição em São Paulo, em 2010, as frases de “Delírio de Damasco” são coletadas por Veronica faz tempo — seja de conversas entreouvidas, entre familiares, ou vindas da própria boca da autora. “A minha ideia era devolver essas frases para a rua”, conta.

Algumas das frases — “histórias em potencial” ou “ficções embrionárias” — como a autora define, foram tiradas do projeto do Sesc pela carga sexual. Isso rendeu algumas frases-provocações criadas por Veronica, como “Não pode. Por que não pode? Porque não pode” e “Não imagina o que ficou de fora”. Mas, depois de publicar as frases censuradas na revista “Sopro”, a editora Cultura e Barbárie, de Florianópolis, editou o projeto na íntegra. O livro estreia a coleção “Pseudo-” da editora, e é feito de forma totalmente artesanal — com apenas 200 exemplares nessa primeira impressão.

“Delírio de Damasco”. De: Veronica Stigger. Editora: Cultura e Barbárie. 77 págs. R$ 30 (pelo site www.culturaebarbarie.org, com frete incluído)

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