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Quarta-Feira, 21 de Novembro de 2018
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Novo livro de Alcides Buss abre duas possibilidades de busca de sentido para a vida

Em “Viver (não) é tudo – Diário da perseverança”, Buss abre uma reflexão ao leitor, de viver, de existir, de perseverar sempre

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
Daniel Queiroz/ND
Em  “Viver (não) é tudo – Diário da perseverança”, poeta, como um calendário, segue os dias, meses, estações e datas do ano

Ser poeta é ter os sensores mais aguçados que a maioria, e ser poeta em tempo integral, sobretudo num mundo que afronta a beleza, é provar a dor e a delícia numa proporção análoga. Para Alcides Buss, professor aposentado e agente cultural ainda na ativa, fazer poesia é uma vocação, mas é também assumir a condição de porta-voz da comunidade, do povo, da humanidade, mesclando o ato de dedilhar a lira com a obrigação da denúncia, com o alerta sobre os riscos da degradação ambiental e do consumismo, com questões morais e éticas em relação à vida e à salvação do planeta.

Não por acaso, o nome do livro que Alcides acaba de colocar à disposição dos leitores brinca com algumas dicotomias. O próprio título, “Viver (não) é tudo – Diário da perseverança”, é um enunciado poético que desafia o estabelecido. Viver e existir têm sentidos diferentes, e perseverar é sempre preciso, porque faz parte da luta pela sobrevivência. “A verdade é que existimos neste momento, mas poucos têm consciência disso”, afirma o poeta. “Existimos no planeta, um planeta privilegiado pela vida, mas nossa relação com ele tem implicações e ressonâncias que poucos conseguem dimensionar”.

No livro, Alcides inova ao seguir os dias, meses e estações do ano, numa sequência linear – quase como um calendário – de efemérides, datas especiais, feriados, dias santos, festividades sacras e profanas. Em 2006, quando fez a primeira versão, ele já privilegiou cada dia com um poema, atravessando um ano e entrando em outro. Depois, produziu novos textos e usou coisas de coletâneas anteriores, até chegar ao formato definitivo.

Ao um só tempo, ele abriu espaços para reflexões sobre o Carnaval, a Páscoa e o Dia dos Mortos e refletiu acerca da passagem do tempo e da sucessão de eventos episódicos, dentro do imponderável a que todos estamos sujeitos. À leitura que coloca a sobrevivência como fim único de tudo, ele oferece a possibilidade da transcendência – que vai além do viver como ato mecânico e inconsciente.

Pela poesia nas aulas e missas

A disposição dos poemas por ordem cronológica, na medida em que correm os meses, não interfere diretamente na construção da obra. Esta é única, e se debruça sobre o mister que é viver, ou sobreviver, e perseverar – que não equivale a se resignar, mas a resistir e transformar o mundo a partir de um olhar moroso sobre as coisas. “É preciso viver/cada minuto, cada hora/a justapor à alma/a imagem de que tudo se renova./É preciso repartir/a serventia de ser”, diz um dos poemas do livro. As preocupações, os sonhos, o sentido da vida – tudo é matéria prima para o artista operar sua obra.

“Viver o presente é o que importa, com paz e equilíbrio”, ensina Alcides, meio na contramão daqueles que mergulham no caos para dele extrair material para a poesia. “O compromisso do poeta é com a vida, a arte, a filosofia, as ciências. Defendo que cada pessoa deveria ter dentro de si pelo menos dois poemas, o que lhe garantiria um desempenho existencial melhor. E que as aulas e missas deveriam começar com a leitura de um poema, assim como as sessões legislativas, que seriam então bem diferentes do que são”.

A batalha pela difusão da obra

Leitor tardio, Alcides Buss se entregava aos livros nas horas vagas que tinha quando servia o Exército, em Joinville. À noite, também escrevia sonetos num bloco de papel, durante a guarda, no quartel. Aí vieram os primeiros poemas publicados no “Jornal de Joinville” e em “A Notícia”. A escritora Esther Laus tinha um programa de rádio e lhe pedia textos para ler no ar. Dali para frente, e a partir de “Círculo quadrado” (1970), ele nunca mais parou, e hoje já são 25 livros editados, que divide com quem os deseja ler. “O leitor é soberano, completa o texto e faz a leitura que quer”, decreta.

Como é na infância que se constrói o leitor, Buss investiu nesse campo e uma de suas obras, “A poesia do ABC”, está com uma nova edição na praça, publicada pela Cuca Fresca, trazendo ilustrações de Márcia Cardeal. Habituado ao contato com os pequenos leitores nas escolas, o poeta é um entusiasta dessa interação, e se empolga com a facilidade dos estudantes de reinventar e reescrever seus poemas.

Hoje, depois do pioneirismo dos varais literários e das experimentações, outro desafio é tocar a editora Caminho de Dentro, que é da mulher Denise e do filho Hermano. Ali, o poeta premiado dá lugar ao agente que batalha por espaço, por circulação, enfrentando as grandes empresas do ramo, que abarcam editoras, livrarias e distribuidoras. Essa luta é mais árdua que a de escrever, mas ele a encara de frente, como uma página vazia à espera do poema. 

Título: “Viver (não) é tudo – Diário da perseverança”

Autor: Alcides Buss

Editora: Caminho de Dentro Edições

Quanto: R$ 30

 

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