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Sábado, 27 de Maio de 2017
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Novas formas de criar literatura reinventam a ficção especulativa no tempo da internet

Obras de fanfiction e mash-ups proliferam os gêneros de ficção científica, fantasia e horror

Carolina Moura
Florianópolis
Débora Klempous/ND
Romeu Martins trabalha com Steampunk, um tipo de ficção científica que se passa no passado, já escreveu um uma história com os personagens de Sherlock Holmes e sua próxima publicação será um conto que mistura o terremoto no Haiti, vudu, rock e bonecos de ação

 

Júlio Verne ou J. R. R. Tolkien não imaginavam como os gêneros dos quais se tornaram ícones poderiam evoluir no tempo da internet. A ficção científica e a literatura de fantasia são os gêneros que mais geram produção em novos estilos como a fanfiction e os mash-ups, que muitas vezes têm como berço os blogs, os fóruns e as comunidades virtuais. Essas novas narrativas, que misturam literatura com história, tecnologia e criaturas imaginárias,  têm representantes também em Florianópolis — como Romeu Martins, que trabalha com ficção científica e referências históricas, Rodrigo de Castro, que está no limiar entre os games e a literatura, e Bruno Henrique, que criou seu próprio universo em uma trilogia de livros.

“É um pessoal realmente preocupado com o cenário de hoje. Eles oferecem uma literatura que o brasileiro médio consegue se identificar. É uma literatura sem medo e sem vergonha de ser pop”, diz Romeu sobre o movimento brasileiro das chamadas ficções especulativas, que incluem a ficção científica, a fantasia e o horror. A fanfiction, criação de fãs em cima de livros e coleções de sucesso, é uma das tendências que tem influenciado a criação nesses gêneros. Nem clássicos como as histórias de Sherlock Holmes escapam, mas nas comunidades online são séries como “Harry Potter”, “Senhor dos Anéis” e “Jogos Vorazes” que concentram o maior número de narrativas alternativas. Os próprios autores estão assumindo esse espaço da internet, como é o caso de J. K. Rowling, que lançou no ano passado o site Pottermore, que permite ao leitor explorar o conteúdo de seus livros e outros textos inéditos de autoria dela.

Mas não são só franquias já pertencentes a esses gêneros de ficção que são reinventadas dentro deles. Fatos históricos e clássicos da literatura tradicional ganham tons de horror com os mash-ups, livros como “Orgulho e Preconceito e Zumbis” e “Abraham Lincoln, Caçador de Vampiros”, de Seth Grahame-Smith, ou os do Grupo Jovem Nerd, de Curitiba, que tem comunidades na internet e publicou títulos como “Independência ou Mortos”, que mistura a história do Brasil e zumbis, e “Branca dos Mortos e os Sete Zumbis”, com branca de neve reinventado em horror. Até Machado Assis ganhou versões com discos voadores, mutantes e bruxas, como “A Escrava Isaura e o Vampiro” e Dom Casmurro e os Discos Voadores”.  “Eu acho que essa galera que está produzindo esse tipo de literatura é o pessoal mais engajado do Brasil, muito antenado com tudo que sai fora”, diz Romeu.

 

Janine Turco/ND
Bruno Henrique começou a criar seu próprio universo aos 12 anos e hoje, com 23, tem seu primeiro livro publicado — "Diário de Inverno", início de sua trilogia

 

Fantasia catarinense

Bruno Henrique é natural de Palhoça, mas aos 12 anos começou a criar seu universo próprio. Inspirado em autores de fantasia como J. R. R. Tolkien e J. K. Rowling, ele criou o mundo dos Jardins Suspensos, onde personagens fantásticos como elfos e fadas coexistem com ícones do folclore brasileiro, como o Saci-Pererê e a Mula-Sem-Cabeça. Seu primeiro livro, “Diário de Inverno”, foi publicado no ano passado e teve sessão de autógrafos na Bienal do Livro de São Paulo, e agora, com 23 anos, trabalha no segundo livro da trilogia, que conta a história de um rapaz de Florianópolis que descobre ser da linhagem dos Fadares – seres que têm poderes sobre as estações do ano. Desaparecimentos de familiares e amigos levam o personagem aos Jardins Suspensos, de onde vai voltar no final do segundo livro. As aventuras do último título da trilogia acontecerão todas em Florianópolis.

“Antes eu tinha criado uma cidade onde se passava a história. Mas quis trazê-la para um lugar real. Em Harry Potter, por exemplo, J. K. Rowling escreve sobre Londres”, diz o autor. A primeira versão do livro foi em grande parte escrita quando ele tinha 14 anos e se mudou para o centro de Palhoça – onde não tinha muitos amigos e vivia no quarto escrevendo. Mas o texto publicado hoje é de 2008, quando ele reescreveu toda a história. As ruas e lugares da Capital são reconhecidos pelo leitor, assim como as criaturas que habitam os Jardins Suspensos. “É uma forma até mais fácil para o leitor se ver no lugar do personagem”, diz Bruno.

 

Rosane Lima/ND
Rodrigo de Castro escreve para diferentes plataformas, trazendo a narrativa do game para histórias em quadrinhos

 

 

Literatura de games

Durante os oito anos em que trabalhou na Hoplon Infotainment, estúdio de Florianópolis que desenvolve o jogo free-to-play Taikodom, Rodrigo de Castro editou livros e escreveu histórias em quadrinhos — tudo inspirado no universo do game. Ele agora atua como consultor criativo e desenvolve projetos audiovisuais e literários na sua empresa própria, Roctopus Criação de Mundos.

No caso do Taikodom, a história se passa no futuro, quando uma civilização humana fixada no espaço entra em conflito, e os jogadores são humanos da Terra que passaram mais de um século em um estado de suspensão – após a destruição do planeta – e agora chegam a esse novo território e precisam escolher de que lado lutar. Rodrigo foi um dos autores a escrever enredos para esse universo, criando cerca de 50 personagens que interagem com os jogadores. Mas, através dos livros e quadrinhos, a história sai das telas e entra também no campo literário, tornando esse universo transmídia – desenvolvido em diferentes plataformas ao mesmo tempo.

“O que acho fascinante é que você consegue trazer o público de um meio para outro, e envolver o leitor nessa narrativa”, diz Rodrigo. “Você tem dentro da mesma história espaços narrativos diferentes”, explica o autor, de forma que a história é oferecida em formas mais curtas ou mais longas, com mais ou menos influência da parte visual. E o próprio ambiente interativo do jogo se reflete em outros meios. “O leitor não só consome de maneira passiva essas publicações. A gente também pegou histórias que acontecem no jogo, então nossa audiência participa dessa construção também.”

Conjecturas do passado

Quando a Tarja Editorial o convidou para participar da coletânea “Steampunk - Histórias de um passado extraordinário”, em 2009, Romeu Martins entrou em um mundo do qual não saiu mais. O livro foi um dos primeiros no Brasil a se dedicar ao steampunk, gênero da ficção especulativa que problematiza o desenvolvimento na Era Vitoriana, com a Revolução Industrial e a tecnologia a vapor. O ponto de partida para esse tipo de ficção é um “e se...?”, questionando momentos da história do século 19. “A primeira coisa que vem na cabeça de quem fala em ficção científica é o futuro, mas tem formas que pensam no passado”, explica Romeu.

O conto do escritor para essa coletânea parte da pergunta “E se o Brasil não tivesse entrado na Guerra do Paraguai?”, para construir um cenário em que o país se desenvolve enquanto os Estados Unidos definham durante sua guerra civil. Um trecho dessa história foi inclusive traduzida para o inglês e adicionada à “Steampunk Bible”, “Bíblia do Steampunk”, que deve ser publicada no Brasil este ano. Depois disso ele participou de outras coleções desse estilo e escreveu sobre diferentes temas, como o velho oeste americano.

Mas Romeu também se aventura em outros gêneros. Em fevereiro foi lançada a coletânea “Sherlock Holmes – Aventuras Secretas”, da Editora Draco, que aproveitou que a obra de Arthur Conan Doyle entrou em domínio público para criar em cima de seus personagens. Com sua participação neste livro Romeu teve a chance de conjecturar não sobre momentos históricos, e sim em cima da ficção de outro autor. “No universo do steampunk eu já uso personagens fictícios de outras pessoas, inclusive um casal de um dos contos do Conan Doyle”, conta o escritor, embora nunca tivesse se arriscado a usar o personagem principal antes.

Agora, seu próximo projeto é uma coletânea de contos sobre super-heróis, tirando essas figuras que fazem sucesso nas histórias em quadrinhos e trazendo-as para a prosa. A participação de Romeu especula desta vez com um evento histórico atual, o terremoto no Haiti, em 2010. Misturando rock, religiões hatianas e bonecos de ação que são usados para o vudu, ele cria um conto de vingança que é mais uma de suas inovações.

Glossário

Ficção especulativa – Gênero que reúne a ficção científica, fantasia e o horror. Muito do que é criado nesse gênero vem de uma especulação, um jogo de perguntar “e se...?”

Ficção científica – O que diferencia a ficção científica da fantasia, por exemplo, é que ela se baseia em um conjunto de regras, devendo ser plausível dentro das tecnologias existentes, que poderiam ser desenvolvidas ou que existiram em determinado período

Steampunk – Dentro da ficção científica, o steampunk trabalha especificamente com o período da Revolução Industrial, localizando avanços tecnológicos mais modernos no contexto daquela época

Fanfiction – São contos ou romances escritos por fãs, tendo como base narrativas de livros já existentes e escritos por terceiros. Podem ser continuações, cenas paralelas ou adaptações.

Mash-up – Mistura de livros clássicos em domínio público ou eventos históricos com seres como zumbis, vampiros, mutantes e bruxas.

Transmídia – Construção de histórias em diferentes plataformas paralelamente, explorando mídias como livro, quadrinhos, game, audiovisual, etc.

Geoficção – “Worldbuilding”, em inglês, é a criação de lugares imaginários — desde um bairro ou cidade até um universo inteiro. Pode incluir mapas, personagens e uma história deste mundo.

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