Publicidade
Sábado, 19 de Janeiro de 2019
Descrição do tempo
  • 28º C
  • 24º C

No dia dos 180 anos de seu nascimento, Victor Meirelles é celebrado em Florianópolis

Cidade natal foi sua primeira inspiração, antes de se lançar para uma carreira reconhecida. Hoje é sua antiga Desterro que o homenageia

Carolina Moura
Florianópolis
Acervo Museu Victor Meirelles/Reprodução
Foi com uma aquarela da paisagem de Desterro que, aos 14 anos, Victor Meirelles provou seu talento e conseguiu uma bolsa na Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro. O talento em retratar sua cidade lhe deu o passaporte para chegar muito além dela


Em uma Desterro ainda sem iluminação pública, aninhada entre o Morro do Antão e o mar, nasceu Victor Meirelles de Lima, em 18 de agosto de 1832. De uma família simples em uma cidade pequena, ele ganhou projeção e se tornou o maior expoente da arte brasileira em sua época. Neste sábado comemoram-se os 180 anos do nascimento do artista, autor de obras como “Primeira Missa no Brasil”, seu quadro mais famoso, presente até hoje no imaginário do país.

Meirelles, além de ser o filho de Desterro mais próspero daquele tempo, pintando os marcos da história do país, sendo exposto no exterior e ensinando em importantes instituições de arte do Rio de Janeiro, deixou a Florianópolis o registro da cidade em que viveu, da qual pouco resta, fora seus quadros e desenhos. Foi com uma aquarela que pintou aos 14 anos — sua primeira “Vista de Desterro”, de 1846 — que ele provou a Jerônimo Coelho o rumor que havia sobre o seu talento, e através do conselheiro imperial começou sua carreira com uma bolsa de estudos na Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

Acervo Museu Victor Meirelles/Reprodução
Em sua segunda "Vista de Desterro", Victor Meirelles mostra as novas técnicas aprendidas na Academia

Depois de partir, ele ainda voltou para a Ilha e a retratou com suas técnicas cada vez mais aprimoradas. A “Vista do Desterro”, de 1847, exposta no Museu Victor Meirelles, e “Uma rua da cidade do Desterro”, de 1851, são exemplos disso. Porém depois de partir para a Europa em 1853, através de um prêmio que ganhou, ele não voltou mais a sua cidade, onde já não tinha mais familiares vivos. Mas para Sandra Makoviecky, professora do departamento de Artes Visuais da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) que estudou em seu doutorado as representações de Florianópolis por artistas de diferentes épocas, a cidade continuou a influenciar sua obra. “Eu acho que ele continuou a pintar o que ficou na retina, as cenas, as cores da Ilha. Tudo isso é uma coisa que não se perde”, acredita a pesquisadora.

Da mesma forma, a cidade não quer perder a memória dele: a casa onde nasceu, na atual rua Victor Meirelles, abriga desde 1952o Museu Victor Meirelles, que além de manter um acervo ligado ao artista promove ações para manter viva sua obra na contemporaneidade. “A importância é a gente preservar nosso legado e reconhecer a nossa história. Precisamos entender nosso passado para conhecer nosso presente”, diz a diretora do museu, Lourdes Rossetto.

Tempos de esquecimento

Depois de um longo período de grande prestígio, a obra de Meirelles passou por intempéries. Primeiro com a instituição da República, que queria suprimir tudo que fosse relacionado ao Império; depois com a chegada dos modernismos ao Brasil, que queriam subverter a arte acadêmica. Mas o interesse em estudar e valorizar sua obra voltou, e tem força em iniciativas como o projeto “Victor Meirelles: memória e documentação”, realizado pelo Museu Victor Meirelles. Após catalogar toda a obra pictórica do artista, etapa quase completa, o próximo passo é buscar toda documentação ligada a ele para, no futuro, lançar um catálogo raisonné —a referência mais completa da obra de um artista, que poucos brasileiros possuem.

“Acredito que o estudo da vida e obra de Victor Meirelles tem tomado novos caminhos. São abordagens que trazem novos aportes para o estudo relativo a Victor Meirelles , cuja trajetória permaneceu por muito tempo pouco discutida e analisada, com algumas exceções”, afirma Leticia Bauer, que já foi pesquisadora e coordenadora executiva do projeto. “Estudar a obra de Meirelles é refletir sobre a forma de fazer arte, da disciplina dos estudos, da paciência da observação, do aprimoramento técnico, da sensibilidade plástica”, diz Mário César Coelho, exemplo de um pesquisador que elegeu Victor Meirelles como objeto de estudo em seu doutorado, sobre os panoramas feitos pelo artista.

“Ele foi deixado de lado por muito tempo. Agora está voltando essa valorização e eu sou cada vez mais apaixonada pelo Victor Meirelles. À medida que o tempo passa, mais a obra dele se agiganta”, declara Sandra Makoviecky.

Reprodução
"Primeira missa no Brasil" foi realizado e exposto pela primeira vez na França
 

 

Linha do tempo

1832 – Nasce em 18 de agosto, em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis

1846 – Por iniciativa do conselheiro Jerônimo Francisco Coelho, seus desenhos são submetidos à análise de Félix-Émile Taunay, diretor da Academia Imperial de Belas Artes (Rio de Janeiro), que o aceita para uma bolsa de estudos

1847 – Muda-se para o Rio de Janeiro

1853 – Embarca para a Europa como pensionista da Academia Imperial de Belas Artes, após vencer o Prêmio de Viagem à Europa com a tela “São João Batista no Cárcere”

1861 – Participa do Salão de Paris com a obra “Primeira missa no Brasil”. Retorna ao Brasil, onde é nomeado professor da seção de pintura da Academia Imperial de Belas Artes (Rio de Janeiro)

1868 – Parte para a zona de conflito da Guerra do Paraguai, onde executa, in loco, estudos para a composição das telas “Combate naval de Riachuelo” e “Passagem de Humaitá”, encomendadas pelo ministro da Marinha

1874 – Durante aproximadamente três meses permanece em Pernambuco recolhendo informações e realizando estudos para execução da tela “[Primeira] Batalha dos Guararapes”, encomendada pelo ministro do Império

1898 - Realiza a tela Invocação à Virgem, sua última obra,atualmente exposta no Museu Victor Meirelles.

1903 - Morre em 22 de fevereiro. Rosália Meirelles de Lima, sua esposa, doa o espólio do artista à Escola Nacional de Belas Artes (RJ). É realizada uma exposição póstuma na Escola Nacional de Belas Artes com obras do artista.

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade