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Ney Piacentini traz peça baseada em contos de Machado de Assis e Guimarães Rosa à Capital

O ator, que ajudou a dar nova vida ao teatro de Florianópolis na década de 1980, volta à cidade para ministrar uma oficina e apresentar o monólogo "Espelhos"

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
17/05/2018 às 22H53

Ator que ajudou a dar nova vida ao teatro florianopolitano na década de 1980, Ney Piacentini volta à cidade neste fim de semana para ministrar uma oficina e apresentar, em apenas duas sessões, o monólogo “Espelhos”, baseado em contos homônimos de Machado de Assis (1839-1908) e Guimarães Rosa (1908-1967). Ele desembarca na Ilha credenciado pelo aplauso da crítica e com a emoção de quem retorna agradecido pelo que aqui aprendeu e viveu na fase mais inquieta da formação. “Florianópolis me fez artista, e quero devolver um pouco do enorme carinho que recebi”, diz ele de São Paulo, por telefone, com a voz embargada. A oficina será no sábado (19) e o espetáculo pode ser visto às 18h e às 20h de domingo (20), no Sesc Prainha.

Com quase 40 anos de carreira, Ney Piacentini começou a atuar como ator em SC - João Maria Silva Jr./Divulgação/ND
Com quase 40 anos de carreira, Ney Piacentini começou a atuar como ator em SC - João Maria Silva Jr./Divulgação/ND


Trabalhar sobre Machado e Rosa – autores, ambos, de contos com o nome de “Espelhos” – foi muito suado e trabalhoso. “A palavra desses escritores foi nos levando a lugares inimagináveis, contraditórios, desarmônicos”, afirma Piacentini. Neste sentido, não foram só dois anos de trabalho, o tempo que duraram a pesquisa e a preparação da peça, mas uma vida inteira de transpiração e reflexão sanguínea, até tudo ficar pronto. O desafio foi tão grande que várias vezes a equipe desistiu e retomou o projeto. Para o ator que faz o monólogo, ter lido tudo dessas duas lendas da literatura ajudou muito porque permitiu, além de tudo, compará-los. “Saio modificado após cada sessão”, confessa ele.

Ao seu modo, Machado de Assis reflete, no “Espelho” que escreveu, um Brasil dependente, que não conseguia avançar, vítima de uma suposta má gestação do caráter da nação. De sua parte, Guimarães Rosa via o país com luz própria, e por algumas evidências Ney e sua trupe enxergaram no conto do autor mineiro uma resposta inconformada ao ceticismo machadiano. Neste, o personagem é um jovem promovido a alferes que se transforma depois de galgar uma posição social. Já o autor do “Grande sertão” cria um sujeito que se desdobra, se lança em obscuridades, até que algo o ilumine. “É altamente dificultoso trabalhar em cima disso”, admite Piacentini.

Uma carreira e tanto

Já na sétima temporada em São Paulo, “Espelhos” e seu protagonista foram premiados e indicados a prêmios importantes e farão uma temporada no Chile em outubro deste ano. Com direção de Vivien Buckup, a montagem resulta de experimentações cênicas realizadas em 2015 e 2016 e investiga, na mescla de literatura e teatro, a formação da identidade do país. Na primeira parte, Ney Piacentini interpreta Jacobina, personagem de Machado de Assis que narra a amigos uma misteriosa passagem de sua juventude na qual enfrentou a solidão. Em seguida, assume a figura criada por Guimarães Rosa que parte em busca de sua essência. “Decidimos unir as duas pequenas obras-primas em uma só encenação, uma vez que elas se complementam por oposição”, afirma o ator.

Piacentini começou a carreira de ator em 1979 na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e fundou o Grupo A de Teatro, cuja principal montagem foi a criação coletiva “Vira e mexe”, encenada também em São Paulo em 1986. Atuou em televisão e cinema, mas se firmou no teatro, e está prestes e completar 40 anos de carreira. Entre 2005 e 2013, presidiu a Cooperativa Paulista de Teatro. Colecionou premiações e dividiu sua experiência de intérprete como professor na Faculdade Paulista de Artes.

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