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Mulheres são destaque em Florianópolis em negócios tradicionalmente masculinos

Terroir Catarina, Essen Vinhos Finos e O Pátio Biergarten tem a frente mulheres que enfrentam diariamente diversos tipos de preconceitos por trabalharem com bebidas alcóolicas

Karin Barros
Florianópolis
11/04/2017 às 11H20

Mulheres criativas, empreendedoras e empoderadas estão cada vez mais à frente de negócios que até então eram tradicionalmente masculinos. Desafiadas e muitas vezes cobradas ainda mais para mostrarem capacidade de conhecimento, persuasão e força, elas enfrentam o mundo dos negócios e acreditam que a sociedade está tentando enxergar a questão de forma diferente. Em Florianópolis, a wine bike Terroir Catarina leva o vinho para o público geral, e o O Pátio Biergarten tem uma seleção de 90 rótulos de cervejas artesanais. Ambos são comandados por mulheres.

Jornalista por formação, Cibele Garrido Godoy, 35, gaúcha, mas moradora de Florianópolis há mais de dez anos, está desde fevereiro investindo no ramo dos vinhos catarinenses. Com uma bicicleta retrô, flores do campo, um cavalete e um baú, ela faz paradas em diversas partes da cidade, como Santo Antônio de Lisboa e Ribeirão da Ilha, para oferecer taças de vinho e espumantes.  A wine bike Terroir Catarina é a desmistificação de uma das paixões de Cibele: a degustação de vinhos. Ela e o marido sempre tiveram o costume de beber, e até mesmo para ela, sempre soou a ideia de que o homem entendia mais de vinho do que ela. A bike surgiu de fato quando Cibele se deu conta da qualidade do vinho catarinense e que as pessoas não o conheciam. “Quando vinha alguém de fora, eu queria presentear com um vinho local, mas só achava os chilenos, portugueses. Aí começou a surgir a ideia da loja virtual, porém ela continuaria a ser direcionada para poucas pessoas”, lembra ela.

Cibele Godoy - Daniel Queiroz/ND
Cibele Godoy, da bike Terroir Catarina, é focada em vinhos catarinenses - Daniel Queiroz/ND

Por meio do cavalete que a acompanha nas vendas, ela mostra os preços das taças e das garrafas, e aquilo acaba sendo um facilitador e aproximador dos clientes que ainda veem o vinho como algo “caro e chique”. Claramente, Cibele enxergou desde o início que o meio que escolheu voltar a trabalhar era masculino, desde os sommeliers a donos de vinícolas, porém também encontrou mulheres competentes à frente de vinhos de qualidade na Serra. Ela destaca os trabalhos que conheceu na Vindima em São Joaquim, onde conheceu vinícolas como a Monte Agudo, administrada pelas irmãs Patrícia e Carolina Ferraz, e a Thera.

Outro ponto que passou a incomodá-la foi rotular as bebidas alcoólicas em “bebida para mulher”. “Esse sexismo não faz muito sentido, acho que as cervejas erram muito quando fazem isso. Mas tem tipos de bebidas que as mulheres apreciam muito, como o espumante, além disso, elas hoje querem saber o tipo de uva usado também”, explica a empreendedora. Quando pensa em preconceito em relação a ser mulher e trabalhar com bebida alcoólica, Cibele lembra apenas de casos em que homens tentam “testá-la” para saber se ela entende mesmo de vinho, mas acredita que isso acontece com tudo que uma mulher se dispõe a fazer.   

Para ela, o interessante é levar o vinho onde o público está e mostrar que ele pode ser bebido em qualquer situação, e que não necessariamente precisa ser algo caro. “Tem uma coisa da aura feminina pela taça comprida, por exemplo, mas gostaria de tirar todos esses estereótipos. Beba o que é bom, se permita. É um outro jeito de beber o vinho”, ressalta.

Espaço crescente e em evolução

Néia Silveira - Divulgação/ND

Néa até há pouco tempo era a única mulher na diretoria da associação de sommeliers de SC - Divulgação/ND


A presidente da Associação Brasileira de Sommeliers em Santa Catarina, Néa Silveira, afirma que há um crescimento significativo das mulheres no mercado dos vinhos nos últimos anos. Segundo ela, antigamente as mulheres acabavam assumindo vinhedos e suas produções por uma questão de herança, principalmente na França, depois da Segunda Guerra Mundial, quando as mulheres se viam obrigadas a retomar os negócios familiares com a morte dos maridos. Hoje as mulheres fazem a opção e escolhem se dedicar ao mundo do vinho. “Ainda é um universo majoritariamente masculino, mas temos muitas mulheres enólogas, sommeliers e com interesse crescente”, explica Néa, que até há pouco tempo era a única mulher da diretoria da associação no Estado.

Regina Sabben Essenburg, da Decanter Distribuidora e Essen Vinhos Finos, que existe há mais de 20 anos no Estado, é uma das mulheres pioneiras no ramo. Sempre ao lado do marido Nelson, Regina, assim como a presidente da associação Néa, sentiu por diversas vezes o preconceito por ser mulher. “O assunto ‘vinhos’ estava direcionado para o público essencialmente masculino; além disso, também o comércio da bebida era algo muito novo no mercado. Os rótulos disponíveis eram poucos, a cultura do vinho nos restaurantes era praticamente nula, e uma mulher atuando no segmento era curioso”, lembra.

Regina Essenburg - Daniel Queiroz/ND
Regina Sabben Essenburg foi uma das mulheres pioneiras no ramo de vinhos em Florianópolis - Daniel Queiroz/ND


A empresária explica que com o crescimento da empresa, ela foi gradativamente assumindo a parte comercial externa, aumentando ainda mais o relacionamento direto com os representantes. “Junto a clientes, entretanto, em diversos momentos a sensação de preconceito esteve presente, tanto dentro da loja como em negociações junto a restaurantes. Com a cultura do vinho avançando de uma forma geral e a presença feminina também em outras áreas, isso foi mudando. Também a formação em cursos na área, como Sommelier pela AIS (Associazione Italiana de Sommeliers) e Wine & Spirits Education Trust, em Londres, auxiliaram no processo de uma forma evidente”, salienta Regina.

Regina explica que vê o mercado do vinho catarinense receptivo e de notável evolução nos últimos anos. Segundo ela, os consumidores estão cada vez mais informados e envolvidos com a bebida, tanto em relação ao produto importado, como nacional – aqui, destaque para os vinhos de Santa Catarina que fazem muito bem o seu trabalho de divulgação e valorização do produto do Estado. “A nível de Brasil, os espumantes nacionais representam 80% do consumo, enquanto o vinho consiste em apenas 20%. Nos dois casos a participação do produto catarinense é significativa e contribui para o crescimento da cultura do vinho como um todo. E refletindo positivamente na economia catarinense”, pontua.

Cerveja não escolhe sexo

O Pátio Biergarten - Daniel Queiroz/ND
Camila e Marina Portásio, de O Pátio Biergarten - Daniel Queiroz/ND

 

Se falar e entender de vinho parece algo masculino, o que dizer então da cerveja?  Na carona da moda das cervejas artesanais – hoje muitas pessoas produzem a própria cerveja em casa – desde dezembro funciona no bairro Campeche, no Sul da Ilha, O Pátio Biergarten, que oferece mais de 90 rótulos de cervejas artesanais. Nove delas são catarinenses e oferecidas direto nas chopeiras. A ideia foi de Camila Portásio, 41, e a da enteada Marina Portásio, 32, paulistas formadas em gastronomia e que sentiam a falta de um local bem-estruturado para um happy hour no bairro.

O conceito veio de uma viagem de Marina à Alemanha no meio do ano passado, e em poucos meses o projeto saiu do papel. Com arquitetura com referências rústicas e fabris, o local abriga 120 pessoas sentadas e oferece um cardápio com experiência de harmonização. Com a ajuda do sommelier paulista Elvis Campelo, Camila e Marina aprenderam mais sobre a bebida e montaram um cardápio baseado na comida alemã. Porém, quando não é possível ter os ingredientes necessários, elas adaptam à realidade local. “Buscamos conhecer cervejarias, entender melhor sobre as combinações, mas temos muito a aprender ainda, porque a cada dia surge uma cerveja nova, um sabor novo. O mercado está crescendo muito aqui”, coloca Camila.

As sócias explicam que é comum O Pátio reunir grupos de mulheres que bebem cervejas desde as com paladar mais leve e adocicado, como a Weiss e a Viena, até a Ipa e Stout, que são mais amargas. “Ninguém tem o direito de dizer que cerveja eu vou tomar, mesmo onde eu vou estar ou me vestir. Somos diferentes, mas iguais em poder de escolha. Percebemos muito isso aqui”, observa Camila.

Mas tanto elas quantos os garçons podem auxiliar na condução da experimentação das cervejas no local, indicando as mais suaves e familiares para as pessoas irem acostumando o paladar.

Preconceito as duas sentiram em situações pontuais, como quando os homens querem parabenizar pelo espaço e direcionam a palavra aos maridos das sócias. “Eles fingem que a gente não existe, só que isso aqui foi construído todo mundo junto. Mas a gente sabe que isso vai acontecer muitas vezes, e não é o que predomina. As mulheres são mais sensíveis a isso”, afirma Camila.   

Serviço

O quê: Terroir Catarina
Quando: 8/4, 11h
Onde: FAF, Praça 15, Centro, Fpolis

O quê: Essen Vinhos Finos
Quando: de segunda a sexta, das 9h às 20h; sábado, das 9h às 18h
Onde: rua Hermann Blumenau, 207, Centro, Fpolis

O quê: O Pátio Biergarten
Quando: de segunda a sábado, das 17h à 0h
Onde: rua Vento Sul, loja 4, Campeche, Fpolis

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