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Mulheres contra o câncer: sofrimento que se transforma em luta

Após perda, irmãs se unem e formam associação para levantar recursos em prol dos pacientes do Cepon

Andréa da Luz
Florianópolis
16/10/2018 às 10H04

O câncer pode marcar o fim de muitas histórias de vida, mas não a de Cleia Beduschi. Acometida pelo câncer de mama e, mais tarde, por uma metástase óssea, ela lutou por seis anos contra a doença. Em 2009, com 55 anos, Cleia desconfiou de um nódulo no seio e foi ao médico, mas os exames não acusaram nenhuma anormalidade. "Ainda assim ela continuava dizendo que tinha algo errado", conta uma das três irmãs de Cleia, Mara Beduschi.

Um segundo exame revelou o tumor e ela passou por uma cirurgia que retirou apenas o quadrante do seio onde estava o nódulo. "Foi um susto muito grande, porque ela se
cuidava e ninguém da família tinha tido a doença", relembra Mara. Após o tratamento, mais um tumor apareceu na outra mama, mas não houve tempo para a cirurgia. "Ela estava com a operação marcada para retirar as duas mamas, mas aí descobriu que havia se espalhado para os ossos e não pôde operar", explica a irmã.

"Acompanhamos a Cleia em todos os momentos desde que descobriu a doença e ela nunca desistiu de lutar, acreditava que ia vencer, apoiava todo mundo e criou uma rede enorme de amigos no Facebook, onde falava sobre a doença. Ela estava em todas as campanhas do Outubro Rosa, desde o início em 2009, e essa dedicação fez com que a gente quisesse continuar o trabalho de ajudar os pacientes", conta Mara Beduschi, presidente da ABD.

Cleia sucumbiu à enfermidade em 19 de outubro de 2015, aos 61 anos, mas a luta dela durante todo esse tempo inspirou suas irmãs Mara, Cleusa e Claudete a criar a ABD
(Associação Amigos Cleia Beduschi), que realiza eventos com o objetivo de levantar recursos financeiros para apoiar instituições voltadas ao tratamento de pacientes com câncer.

As irmãs Mara, Cleia, Claudete e Cleusa Beduschi - Mara Beduschi/Divulgação/ND
Da esquerda para a direita, as irmãs Claudete, Cleia, Cleusa e Mara Beduschi - Mara Beduschi/Divulgação/ND


Pouco depois da morte de Cleia, em 1º de novembro de 2015, as irmãs realizaram o primeiro Bazar solidário com os pertences dela, no Cepon (Centro de Pesquisas
Oncológicas), em Florianópolis. A arrecadação de R$ 6,5 mil foi revertida ao Instituto Gama e as pacientes mastectomizadas. A partir daí, a família e amigas começaram a trabalhar em grupo, que culminou na formação da Associação Amigos Cleia Beduschi, em 15 de agosto do ano passado. "Nosso contato não é direto com os pacientes, mas ajudamos entidades que cuidam dos portadores de diversos tipos de câncer, como o Cepon, Avoc (Associação dos Voluntários do Cepon), Amucc (Amor e União Contra o Câncer) e outras", explica Mara.

De caráter social e beneficente, a associação reúne 45 mulheres em prol da luta contra o câncer. Entre as atividades que realizam estão bazares, bingo, espetáculos
de Natal e cafés da tarde, que já somaram quase R$ 240 mil desde sua fundação. Em 2016 e 2017, somente os bazares levantaram R$ 69,9 mil, que financiaram 700 exames
de ultrasom de mama. E, desde o final do ano passado, as maiores ações são direcionadas para revitalizar a casa de apoio do Cepon.

Associação Amigos da Cleia Beduschi reúne 45 mulheres na busca de recursos para pacientes com câncer - Mara Beduschi/Divulgação
Associação Amigos da Cleia Beduschi reúne 45 mulheres na busca de recursos para pacientes com câncer - Mara Beduschi/Divulgação

Um apoio aos pacientes

Na avaliação da presidente da ACB, quando uma pessoa recebe o diagnóstico de câncer, ela fica muito fragilizada e, nesse momento, o apoio da família é fundamental. "Por isso, ficamos o tempo todo com a Cleia, ela nunca estava sozinha, sempre tinha alguém por perto e ela manteve a esperança até o fim. Porque tratamento o paciente vai ter, mas ele precisa algo mais do que isso".

Mas a realidade é que muitos enfrentam a doença sozinhos. Passam pela dúvida, o medo, a dor, a angústia e a solidão, além de enfrentarem longos tratamentos sem qualquer tipo de respaldo familiar. Outros conseguem transporte em seus municípios de origem e percorrem grandes distâncias para ter acesso a um tratamento especializado como o do Cepon. Muitas vezes é preciso esperar dois ou três dias até conseguir realizar exames e procedimentos. "Algumas pessoas dormem dentro dos carros mesmo, porque não têm para onde ir. Então a casa de apoio vai suprir essa necessidade, funcionando como um lar temporário, um lugar onde poderão descansar e serem acolhidas, sem parecer que estão em um hospital", afirma Mara.

Mara Beduschi, presidente da Associação Amigos Cleia Beduschi - Marco Santiago/ND
Mara Beduschi, presidente da Associação Amigos Cleia Beduschi - Marco Santiago/ND


A casa de apoio fica na Rua General Bittencourt, no Centro da Capital, mas foi desativada em 2012, quando o Cepon inaugurou duas unidades de internação no bairro 

Itacorubi. O objetivo é reativar os cerca de 70 leitos, sala de apoio, refeitório e demais facilidades para que pacientes e familiares que se deslocam de outras cidades para
tratamento no Cepon possam ter onde pernoitar e descansar. "Muita gente vem do interior e não tem condições de pagar para ficar em hotel, então a casa de apoio é
necessária", explica Mara.

Para revitalizar o espaço, entretanto, é preciso levantar uma quantia aproximada de R$ 800 mil, o que a associação espera conseguir com eventos que estimulam a
contribuição das pessoas. Se depender da vontade dessas mulheres, não há dúvida de que conseguirão.

Mara e Cleusa Beduschi levam adiante a luta da irmã que faleceu com câncer - Marco Santiago/ND
Mara e Cleusa Beduschi levam adiante a luta da irmã que faleceu com câncer - Marco Santiago/ND


Ações da Associação

- 1º Bazar solidário, 2015, recursos de R$ 6,5 mil, revertidos para as mulheres mastectomizadas do Instituto Gama, no Cepon;
- 2º Bazar solidário, 2016, R$ 41 mil resultando na realização de 500 ultrasom de mama, reduzindo a fila de espera do SUS;
- 3º Bazar solidário, 2017, R$ 28,9 mil, permitiu realizar 200 ultrasom de mama;
- 1º Bingo solidário, 2017, arrecadou R$ 18,9 mil utilizados para compra de centenas de enxovais de cama para o hospital do Cepon;
- Espetáculo Recortes de Natal, 2017, recursos arrecadados chegaram a R$ 32 mil, que serão usados na revitalização da casa de apoio aos pacientes do Cepon;
- 4º Bazar solidário, 2018, R$ 64 mil, para revitalização da casa de apoio;
- 5º Bazar solidário, 2018 (2ª edição), R$ 5,6 mil direcionados à Avoc e Instituto Gama;
- 1º Café da tarde, 2018, R$ 42 mil, para a revitalização da casa de apoio;
- Confecção e distruibuição da almofada 'Corações com amor' aos pacientes do Cepon. O produto alivia a dor e ajuda a reduzir o inchaço da incisão cirúrgica em mulheres
mastectomizadas;
- Venda de camisetas relacionadas ao Outubro Rosa.

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