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Sábado, 22 de Setembro de 2018
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Mostra de Cinema Infantil promove sessão para crianças com necessidades especiais

Filmes tiveram audiodescrição e tradução em libras para o público com deficiência visual e auditiva

Carolina Moura
Florianópolis
Daniel Queiroz/ND
Pâmela e Lourdes assistiram aos filmes através do áudio que descreve cada cena da tela


O público desavisado que foi à sessão de curtas da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis no domingo teve uma surpresa na entrada. Vendas para os olhos foram distribuídas para que as crianças pudessem experimentar os filmes apenas com o sentido da audição. Os primos Heloísa e Lucas de Souza, ambos de quatro anos, não resistiram ao escurinho e caíram no sono. Ao lado deles, porém, Pâmela Lorenz, de 13 anos, e Lourdes Bueno, de 40 anos, estavam de ouvidos bem atentos a cada descrição do áudio.

A Sessão Muito Especial foi uma das novidades da 11ª edição da mostra, com audiodescrição dos filmes e tradução em Libras (Língua Brasileira de Sinais), para contemplar também os públicos de cegos e surdos. “Eu acho que a mostra tem essa obrigação hoje em dia. A gente já tem 11 anos e o tema sempre foi inclusão, então esse ano demos um passo definitivo para incluir também as crianças com necessidades especiais”, diz a organizadora da mostra, Luiza Lins, que garante que a iniciativa veio para ficar.

Daniel Queiroz/ND
A sessão não separou o público necessidades especiais do restante da mostra. Em vez disso, propôs às crianças que ouvem e enxergam que experimentassem assistir aos filmes vendados
 

 

Pâmela, que é aluna da Acic (Associação Catarinense para Integração do Cego), perdeu a visão aos quatro anos, devido a um problema de nascença na formação do nervo óptico. Ela gosta de assistir filmes e ficou feliz com a iniciativa — o curta “O fim do recreio”, de Vinícius Mazzon e Nélio Spréa, foi seu preferido. “Seria bom se tivesse mais vezes”, diz ela, que geralmente depende de alguém como a mãe para contar o que acontece na telona. Lourdes, que a acompanhou na sessão, teve poucas oportunidades como essa e gostou de poder participar do evento.

Segundo Marcilene Chaves, coordenadora pedagógica de reabilitação da Acic, a mostra merece os parabéns. Durante o resto do ano, porém, o público cego ainda tem dificuldade de acesso à cultura. No caso do cinema, além de ser difícil compreender um filme sem audiodescrição, boa parte é em idioma estrangeiro com legendas. “A gente precisa esperar que saia nas locadoras em DVD com áudio em português, isso quando tem”. O filme “Vermelho como o céu” (Itália, 2006), por exemplo, cujo protagonista é um menino cego, não tem dublagem. A Acic promove mensalmente sessões de filmes, com uma pessoa que descreve as cenas — e nesses casos, também lê as legendas.

Acessibilidade X cultura

Acessibilidade nas calçadas, acesso às escolas e ao transporte público. Tudo isso precisa ser assegurado por lei para que as pessoas com deficiência visual possam se incluir de forma igualitária na sociedade. “Precisaria ter esse investimento, sem esperar ser obrigatório para pensar no que fazer. Deveria ser algo comum”, diz Marcilene, coordenadora pedagógica de reabilitação da Acic.

A falta de mobilidade reflete na área da cultura, pois se não há ações inclusivas, pessoas com deficiência não chegam a cinemas e teatros, por exemplo. Esse ato de cidadania, hoje em dia, é restrita a iniciativas independentes e pontuais como a da Mostra de Cinema Infantil e ao trabalho de associações como a Acic.

“Essas crianças não tem espaço na cidade, isso não pode acontecer. Em toda atividade cultural, a cidade tem que pensar em todos os cidadãos”, avalia Luiza. Marcilene lembra que mesmo em casos previstos em lei, nem sempre a inclusão é efetiva. Uma das diretrizes da Lei nº 10.753, de 2003, por exemplo, institui que sejaassegurado o acesso à leitura às pessoas com deficiência visual, mesmo assim a Acic ainda passa trabalho na hora de montar seu acervo, que hoje tem 6.000 volumes em diferentes formados (audiolivro, braile, e-book) na biblioteca física e 952 na digital, disponibilizada aos associados via internet. Em uma compra, Marcilene, que também é deficiente visual, adquiriu seis e-books e depois descobriu que eles não são compatíveis com seu leitor de tela. Foi dinheiro jogado fora.

Falando na mesma língua

Para o público com deficiência auditiva, a visão é um sentido muito importante. O cinema, com seu forte apelo visual, é uma boa opção de lazer e cultura para essas crianças. “É interessante para a criança se desenvolver culturalmente”, comenta Tom Min Alves, intérprete de Libras que trabalha com turmas de ensino fundamental no Colégio Lauro Müller, no Centro de Florianópolis.

Daniel Queiroz/ND
Tom Alves fez a gravação da tradução em libras e esteve presente na sessão como intérprete
 

 

Tom foi responsável pela tradução dos filmes da mostra em Libras, e essa foi sua primeira experiência fazendo isso para a câmera — ele geralmente trabalha em eventos e conferências, além do trabalho na escola. Para a adolescente Bruna Brito, de 18 anos, essa também foi uma vivência nova. Ela vê filmes com legendas, mas gostou mais de assistir na linguagem de sinais — a expressividade do intérprete transmite melhor o humor dos curtas, como “O macaco e o rabo”, produzido em Pernambuco com direção coletiva, que a fez rir com as desventuras do personagem principal.

Daniel Queiroz/ND
Bruna nunca havia assistido um filme com tradução em libras, e aprovou a experiência
 
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