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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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Morte de Júlio de Queiroz deixa lacuna na literatura e cultura de Santa Catarina

Em mais de 25 livros, escritor, filósofo e tradutor refletiu sobre o amor, a finitude e a solidão

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis

Um dos maiores escritores em atividade no Brasil, o capixaba Júlio de Queiroz morreu aos 90 anos na manhã desta segunda-feira em Florianópolis, cidade onde se radicou em 1971, quando foi convidado pelo governador nomeado Colombo Machado Salles para fazer parte de sua equipe de técnicos. Ele estava internado havia duas semanas no Hospital de Caridade após sofrer um AVC (acidente vascular cerebral). Com mais de 25 livros publicados, pertencia à Academia Catarinense de Letras (onde foi velado, durante quatro horas, antes da cremação realizada em Balneário Camboriú) e atuou também como tradutor.

Flávio Tin/Arquivo/ND
De vasta cultura, autor sofreu um AVC. Na carreira acumulou 15 premiações


Queiroz era dono de uma vasta cultura que abarcava desde os clássicos até a moderna filosofia, e na condição de monge beneditino levou uma vida modesta, reclusa e voltada para a leitura, a escrita e a meditação. Seus livros tratam de questões que mexem com todas as pessoas, como a solidão, o amor, a morte, a transcendência religiosa. No livro “Morrer para principiantes e remetentes” (EdUFSC, 2008), ele reuniu ensaios que mostram como o morrer virou tabu no mundo ocidental, quando deveria ser encarado como um processo natural e comum a todos.

“Quando aceita, a afirmação de que somos energia – que não desaparece, só se transforma – acabará por eliminar o ‘terror maximus’ que é o deixar de existir”, escreveu ele. O livro é uma viagem pela história, pela filosofia e pela cultura do Oriente e do Ocidente, territórios díspares e ao mesmo tempo complementares entre si.

É uma leitura com múltiplas referências, que começam na história de Tristão e Isolda e passam por Hamlet, Macbeth, Platão, Leon Tolstoi, as descobertas da física, a influência do judaísmo no luto ocidental, Simone de Beauvoir, o budismo e Rudyard Kipling, um dos autores prediletos de Queiroz.

O escritor nasceu em Alegre, próximo a Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Quando tinha de quatro para cinco anos, a família se mudou para o Rio de Janeiro, onde ele estudou em escolas públicas até chegar ao Colégio Pedro 2º, o mais prestigioso da cidade. Depois, foi admitido no Colégio São Bento, também no Rio, estudou em São Leopoldo (RS) e conseguiu uma bolsa para cursar filosofia em Bonn, na Alemanha.

De volta ao país, trabalhou como tradutor nos anos da construção de Brasília, no escritório de uma empresa americana que erguia os edifícios dos futuros ministérios de Juscelino Kubitcheck. Alguns anos depois é que se mudou para Santa Catarina, onde se aposentou após 38 anos de trabalho.

A carreira de Júlio de Queiroz inclui 15 premiações e livros como “Umas passageiras; outras, crônicas” (1976), “Informes a Narciso” (1984), “Baú de mascate” (1994), “Placidin e os monges” (1998), “Amor e morte” (2013) e “Em companhia da solidão” (2014).

DEPOIMENTOS (*)

“Convivemos durante muitos anos, era uma relação de respeito e admiração. Estamos tristes com a perda, porém confortados com o exemplo do ser humano que foi o Júlio. Ele ocupava a cadeira de número 10 da ACL, era um dos membros mais antigos, e mesmo na velhice participou ativamente da vida acadêmica, chegando a ser recentemente secretário e vice-presidente da entidade. Era um profissional atuante e humilde, de grande acuidade intelectual. Sua maior riqueza era o jeito de escrever”.

Lélia Pereira Nunes, escritora e secretária-geral da Academia Catarinense de Letras

“Tínhamos uma afinidade intelectual muito grande. Júlio integrava a ACL há cerca de 30 anos. Era um homem muito doce, afável e inteligente. Era uma das pessoas de Santa Catarina que melhor conheciam as obras de Shakespeare. Recentemente li dois livros dele, que tratavam sobre a morte e o Alzheimer, duas obras fantásticas. Era um homem de uma cultura muito vasta. Também foi secretário particular do governador Colombo Salles quando este trabalhava em Brasília – era responsável por escrever os discursos dele”.

Salomão Ribas Jr., escritor e atual presidente Academia Catarinense de Letras

“Tínhamos uma amizade no plano afetivo e intelectual. Júlio foi um escritor primoroso, um contista de primeiro plano e um dos grandes tradutores dos poemas de Shakespeare no Brasil. Era um homem devotado à cultura, extremamente gentil e doce. Ele chegou a ser padre durante muitos anos, pertencia à ordem de beneditinos. Chegou a passar anos em um convento, mas deixou a ordem há um bom tempo. Além de dominar o inglês, dominava o alemão. Publicou quase 30 livros em sua vida, entre contos, crônicas e poemas. Na fase terminal de vida, chegou a fazer ensaios sobre a morte; tinha um lado humano muito forte nele. Era humanista e cristão, mas ainda sim tinha um espírito crítico muito forte. Possuía um texto impecável e conhecia profundamente a língua portuguesa. É uma perda lastimável para a cultura e literatura não só de Santa Catarina, mas nacional”.

Péricles Prade, advogado e escritor

(*) Coletados pelo repórter Marciano Diogo, do caderno Plural

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