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Mestre cervejeira de Florianópolis é pioneira na formação qualificada da área

Amanda Reitenbach tem mestrado pela UFSC e doutorado na Alemanha com pesquisa voltada ao mundo da cerveja

Karin Barros
Florianópolis
13/07/2018 às 17H08

O mercado cervejeiro no país vem surpreendendo a cada ano que passa. Se a maioria das pessoas acha que o mundo cervejeiro é apenas masculino, está enganado. O país está entre os que têm maior número de mulheres sommeliers no mercado mundial.

Amanda Reitenbach tem mestrado pela UFSC e  doutorado na Alemanha com pesquisa voltada ao mundo da cerveja - Daniel Queiroz/ND
Amanda Reitenbach tem mestrado pela UFSC e doutorado na Alemanha com pesquisa voltada ao mundo da cerveja - Daniel Queiroz/ND


Outro destaque é sobre Blumenau, que continua sendo referência por causa da Oktoberfest e do Festival Brasileiro da Cerveja, contudo, não é a cidade com maior número de cervejarias. Segundo a engenheira de alimentos, mestre cervejeira e sommelier Amanda Reitenbach, 34, hoje, o cenário é bem distribuído por todo o Estado, e a Grande Florianópolis já superou o número de cervejarias da cidade mais alemã de Santa Catarina.

Amanda, que nasceu em Curitiba (PR), mas é moradora de Florianópolis, é inclusive uma das precursoras na formação qualificada desses cervejeiros. Ela foi a pioneira na criação do primeiro curso presencial em Blumenau com o Science of Beer Institute. Na época, em 2010, ele nasceu como uma pós-graduação em processos em uma universidade da região. Com o tempo, ele foi sendo estruturado e remodelado, e hoje atende o Brasil inteiro, América Latina, Estados Unidos e parte da Europa com cursos itinerantes. Cerca de 80 turmas foram formadas, sendo que, de acordo com Amanda, 50% dos alunos são curiosos interessados em entender o que bebem e outros 50% de pessoas que querem entrar no mercado cervejeiro e se profissionalizar.

Mercado à frente da Alemanha e da Bélgica

A Science of Beer Institute, empresa com sede em Florianópolis, é a responsável pela organização do Festival Brasileiro da Cerveja desde a primeira edição. Amanda afirma que busca viajar o mundo todo atrás de novidades na área cervejeira participando de feiras, congressos e concursos. “É preciso estar antenado com o quê está acontecendo, e por ter esse viés acadêmico, aproveito para publicar artigos, assistir palestras, fazer cursos, ver o quê tem de tendência e inovação para trazer para a escola”, diz a cervejeira que tem mestrado na UFSC e dourado na Alemanha.

Segundo a especialista, o festival da cerveja que ocorre há dez anos em Blumenau é o terceiro no mundo em número de cervejas de concurso – esse ano foram 3.000 rótulos -, e de festival. “Estamos atrás apenas dos EUA [os dois festivais deles estão em primeiro e segundo lugar], porque é um mercado maior que o nosso. Estamos à frente da Alemanha e da Bélgica, que são as cidades de maior cultura cervejeira”, explica.

O festival também serve como termômetro do mercado cervejeiro que cresce muito a cada ano. Amanda lembra que mesmo assim essas cervejas participantes representam apenas 1% do que é consumido no país, e o restante é tipo pilsen. “Os EUA é um grande exemplo para a gente. Eles há 12 anos tinham 1% também e com o trabalho da associação cervejeira americana, o número hoje representa 30% da fatia. Temos que olhar para esse mercado e ver o quanto podemos crescer, porque o Brasil é muito grande e tem potencial. Esse número tem que mudar rapidamente, pois temos muito espaço para crescer e acredito que essa mudança virá nos próximos anos”, conclui.

Festivais e impulso aos bares

Quem acompanha o mundo da cevada com certeza vê com frequência eventos na região relacionados ao assunto, e isso deve acontecer cada vez mais. “Esses festivais estão crescendo e se tornando regionais. Começou pelos estados, passou para as cidades e agora para os bairros, ficando mais regional, o que é melhor até para as cervejarias, que tem menor gasto com viagens”, acrescenta a especialista.

O quê também acompanhou a tendência cervejeira foram os bares da Capital. “Florianópolis há 10 anos só tinha um bar que servia cerveja artesanal, e ainda eram bem poucas. Hoje cada bairro tem até mais de mais uma opção. O mercado em Florianópolis mudou muito em três anos, e aceitou muito bem isso. Os festivais, a comida de rua, também ajudaram. Essa esfera da experiência, prestar atenção no que está sendo consumido, tudo mudou o mercado”, salienta Amanda.

Conquista do mercado catarinense

A conquista mais recente da cerveja artesanal foi no dia 4 deste mês, quando o país teve o primeiro estilo nacional catalogado pela mais importante instituição de juízes de cervejas do mundo, o Beer Judge Certification Program. A Catharina Sour, cerveja ácida com adição de frutas, agora pode ser julgada em todo o mundo em concursos oficiais que seguem essa normativa.

A história da Catharina Sour começou em 2015, em Santa Catarina, entre os produtores caseiros. Em 2016, através da Acasc (Associação Catarinense das Cervejas Artesanais), eles organizaram um workshop que contou com a participação de mais de 20 cervejarias, que passaram a produzir a Catharina Sour profissionalmente. Nos eventos cervejeiros seguintes o estilo começou a se popularizar e hoje, além de marcas de todo o Brasil, já há cervejarias de outros países da América Latina colocando as suas Catharinas Sours em produção.

Amanda afirma este ano houve um aumento muito grande de Catharina Sour no Festival Brasileiro da Cerveja, e chamou muito a atenção do público do exterior. “Esse estilo na maioria das vezes usa frutas tropicais, ervas e especiarias. É um diferencial nosso, é um país muito rico, criativo e temos que explorar o que a gente tem de ingrediente para recuperar tantos anos que esses países tão tradicionais têm de cultura cervejeira à frente da gente”, diz.

ND - O mercado cervejeiro cresce lá fora como aqui? 

Amanda - É uma tendência mundial, e a gente pode observar isso porque é uma atenção geral no comer e beber, nas experiências. Passamos por uma experiência onde tudo foi industrializado, massificado, mas agora vemos essa busca contrária pelo artesanal, orgânico. Um movimento mundial em todos os hábitos alimentares. O consumidor está prestando mais atenção no que come e bebe, sabores, aromas. Em todos os países a gente vê esse numero crescendo. Eu morei em Berlim para fazer o doutorado e a cada semestre eu vejo abrindo novas cervejarias, novos festivais, em um país que a cerveja é tão tradicional e antiga.

ND - Como você vê as grandes representantes de bebidas do país comprando as pequenas cervejarias? Temos vários exemplos nacionais. 

Amanda - Um pouco contrária do que a maioria acha, eu acho positivo, porque esse tipo de fusão traz benefícios, logico que também tem o outro massacrante comercial, mas traz acessibilidade. Hoje encontramos marcas boas em um preço muito acessível e em muitos pontos de venda, e isso desperta o interesse do consumidor. Pela parte comercial o pessoal reclama bastante, pelo ponto de venda, pela exclusividade.

ND – Mas acredita que na fabricação eles se mantêm fiel à receita, à qualidade?

Amanda - Esse ponto é bem difícil de tratar, porque se a gente pensa em qualidade, as grandes marcas têm muito mais controle de qualidade do que as pequenas cervejarias, apesar de que qualidade é muito subjetiva. As grandes têm muita infraestrutura, porque custa caro, por exemplo, ter um laboratório, uma equipe de especialista. Uma cervejaria grande controla o padrão da espuma, a carbonatação, a cor, a validade a todo tempo, desde quando sai da fábrica ao prazo de validade final. A pequena não tem laboratório, não tem analista e não tem controle do produto dela no mercado.

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