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Sábado, 19 de Janeiro de 2019
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Mentor de gerações de intelectuais, centenário de Aníbal Nunes Pires é lembrado neste domingo

Aníbal Nunes Pires foi professor de várias gerações de florianopolitanos e estimulador das artes em Santa Catarina

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
Acervo Familiar/Divulgação/ND
Professor, escritor, poeta, com passagem no teatro e cinema, Aníbal Nunes Pires influenciou o pensar de várias gerações de intelectuais do Estado

Walter da Luz fazia parte da cota de cinco internos do Abrigo de Menores com direito a frequentar o Colégio de Aplicação da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) quando, por causa de uma nota publicada no jornalzinho da escola, foi expulso pelo diretor. Em desespero, pois a família não tinha condições de custear seus estudos, ele foi aconselhado a “procurar o professor Aníbal”. Ficou sem jeito, caminhou durante horas na rua Almirante Alvim sem coragem de bater, até que o dono da casa saiu e soube do ocorrido pela boca do próprio estudante. “Amanhã quero te ver no colégio” foi a resposta. Anos depois, ao dar um depoimento para Zeca Pires, chorou ao descobrir que o cineasta era filho de Aníbal Nunes Pires, o professor que garantira as suas aulas – e o seu futuro.

Esse episódio ilustra bem a história de vida de Aníbal Nunes Pires, cujo centenário de nascimento é comemorado neste domingo, dia 9. Assim como mudou o destino do Dr. Juca, como Walter da Luz é conhecido (anos depois ele foi vereador e exerceu diversas funções públicas em Florianópolis), o professor influenciou várias gerações na cidade, como um humanista que fez do magistério um misto de profissão e vocação. Além disso, com sua experiência e cultura, ele agregou um grupo de intelectuais rebeldes e pouco disciplinados que resolveram trazer o Modernismo para Santa Catarina. O Grupo Sul, responsável por este papel, deve muito a esse mestre que abrigou os idealistas e ajudou-lhes a encontrar um rumo, nos final da década de 1940.

Diz-se que nenhuma unanimidade é inteligente, mas no caso de Aníbal Pires é difícil identificar alguém disposto a fazer-lhe críticas ou objeções. Bonachão, era reverenciado pelos alunos. Culto, editou e expediu as 30 edições da “Revista Sul” para escritores do Brasil e de fora dele, numa época em que as letras catarinenses ainda adotavam o empolado estilo parnasiano de se expressar. E, assim, granjeou discípulos e amigos que nunca se cansaram de louvar sua disposição de dividir, sem afetação e ar de superioridade, o grande conhecimento que tinha.

Bruno Ropelato/ND
Zeca Pires Nunes, o filho cineasta prepara livro e documentário sobre o pai

O pai como modelo

José Henrique Nunes Pires, o filho cineasta, tinha menos de 16 anos quando perdeu o pai, em abril de 1978. Único varão da prole, conta que quando nasceu ele foi para a janela da maternidade e gritou para quem quisesse ouvir: “É menino!” Mesmo muito ocupado, porque deu aulas em vários colégios de Florianópolis, sem falar que lecionou na UFSC e na Udesc (Universidade do Estado), onde também exerceu funções de chefia, ele encontrava tempo para a família, a ponto estimular as filhas mais velhas a lerem para Zeca e a irmã caçula. O poema “E agora, José?”, de Carlos Drummond de Andrade, era um dos textos recorrentes nas leituras que antecipavam as noites de sono do menino.

Quando cantarolava uma música, Zeca Pires era instado pelo pai a transcrever a letra para que ele pudesse levá-la aos seus alunos do ensino médio – só no colégio Coração de Jesus, onde também estudara, ele ficou 39 anos. Nunca chegou a acumular capital, porque não fazia do dinheiro uma prioridade, e nem chegou a se aposentar. A casa que construiu em Coqueiros, em 1970, usou por pouco tempo, pois morreu oito anos depois. Nessa época, Zeca fez vestibular para Engenharia Mecânica, mas já filmava em super-8 e decidiu fazer Administração na Esag (Escola Superior de Administração e Gerência) e depois Jornalismo na UFSC. Ele admite que sua opção pelo cinema e pelas coisas da cultura teve a influência do renomado professor que foi seu pai.

Uma família de destaque

Da infância, Zeca Pires se lembra da residência da Almirante Alvim, tão espaçosa que andava de bicicleta pelos aposentos. A casa tinha sótão e porão e era onde o músico e escritor Oswaldo Ferreira de Mello vinha para fazer serenatas e mostrar aos amigos as letras que escrevia. “Meu pai só tinha o vício do jogo do bicho e das partidas de baralho”, conta Zeca. A casa também era o lugar para onde Aníbal gostava de levar os alunos da Faculdade de Educação (então localizada na rua Saldanha Marinho) para conversar sobre livros e outros assuntos, para a surpresa da mulher, que com o tempo foi se acostumando com esse hábito do professor.

A família Nunes Pires sempre teve grande destaque na política e na cultura catarinenses. Feliciano Nunes Pires foi governador da província entre 1831 e 1835, assim como Cristóvão Nunes Pires (1894/1894). Também houve deputados, escritores e poetas, entre eles o novelista e dramaturgo Horácio Nunes Pires, autor do hino de Santa Catarina.

Acervo Familiar/Divulgação/ND
Aníbal (à esq.) com o cineasta Alberto Cavalcanti e o escritor Salim Miguel, com quem dividiu a concepção do Grupo Sul

Silveira, o aluno que virou escritor

O contista João Paulo Silveira de Souza foi aluno de Aníbal Nunes Pires no Colégio Catarinense e no Instituto Estadual de Educação, mas guarda boas lembranças também da casa do professor, quando este morava nos altos da rua Conselheiro Mafra (perto de seu endereço, na Bento Gonçalves) e lhe emprestava livros de Carlos Drummond de Andrade e Dalton Trevisan. “Eram escritores novos, que quase ninguém conhecia apor aqui”, conta ele. Além disso, a biblioteca de Aníbal destoava das congêneres na Ilha porque tinha coisas importantes publicadas a partir do movimento modernista de 1922 – movimento que só nos final dos anos 40 repercutiu e deu frutos por aqui.

Silveira de Souza também lembra de ter mostrado seus primeiros contos a Aníbal Nunes Pires e que este, após fazer alguns reparos, afirmou que o candidato a escritor levava jeito para a literatura. Desses contatos iniciais, em sala de aula e nas conversas sobre livros, resultou uma amizade que mais tarde desembocou na apresentação de Silveira aos membros do Grupo Sul. “Ele era diretor da ‘Revista Sul’ e fez chegar o trabalho de nossos autores a todo o Brasil e também a outros países”, destaca Silveira. Num tempo de comunicação precária e de dificuldades para encontrar obras recentes, ter acesso a uma biblioteca atualizada – incluindo os campos da filosofia e da matemática, que sempre atraíram o contista ilhéu – era um privilégio e tanto.

Silveira brinca dizendo que, mesmo sendo um excelente professor, Aníbal era melhor fora de sala, porque suas conversas revelavam um homem carismático e de uma cultura admirável para a época e a cidade. Como uma espécie de guru do Grupo Sul, permitiu, junto com Salim Miguel e outros pioneiros, que Florianópolis – ilhada também do ponto de vista literário – pudesse deixar para trás os ranços da chamada “geração da Academia”, encabeçada por Othon d’Eça e Altino Flores. “Os novos trouxeram uma linguagem mais livre e coloquial, que chocou a antiga geração, mas que renovou a cultura local, não só na literatura, mas também no teatro, no cinema e nas artes plásticas”, diz Silveira.

Acervo Familiar/Divulgação/ND
Centenário de nascimento é comemorado neste domingo, dia 9

Palavras de reconhecimento

No livro “Aníbal Nunes Pires – Educação e Literatura” (Editora da UFSC, 2006), organizado por Eglê Malheiros, Salim Miguel, Flávio José Cardozo, Silveira de Souza e Zeca Pires, aparecem mais de 30 artigos que falam da figura e do legado de Aníbal Nunes Pires, que em vida publicou apenas uma obra – os poemas de “Terra Fraca”, de 1956, pelos Cadernos Sul. Num texto quase da virada do século (1999), o pintor Rodrigo de Haro assim definiu o mestre: “Um humanista obstinado e um sábio que, cheio de referência e melancolia (posso dizer também ironia...), cultivou o caminho mais difícil, a senda que foge da ostentação. A extensa cultura de Aníbal nunca o desviou do sentimento cotidiano”.

Salim Miguel, decano da literatura catarinense, sempre ressaltou o papel de Aníbal para a consolidação do Grupo Sul, que revolucionou a literatura e as artes no Estado. “Jovens com interesses artísticos, propostos a abalar a pasmaceira da Ilha, contarmos com o professor Aníbal foi importante, com seu jeitão paciente e tranquilo de ensinar aprendendo”, escreveu o autor de “Nur na Escuridão”.

O livro também traz discursos de Aníbal, considerados verdadeiras aulas de cultura e compromisso com a educação. Numa fala dita na formatura dos alunos do Colégio Catarinense, em 1950, ele afirmou: “Não deixeis que os vossos sonhos sejam povoados de cenas dantescas: inocentes e caluniados, sofrendo pela carência de defesa; seres humanos morrendo à míngua de socorros médicos; pontes e edifícios desmoronando pela inépcia de seus engenheiros; déficit, fraudes, fraudes e desfalques no erário público pela negligência dos administradores; crianças e moços tateando no negror da noite pela incapacidade de seus orientadores”.

Livro e documentário

O cineasta Zeca Pires, filho de Aníbal, está preparando um livro (com um documentário encartado) sobre a família Nunes Pires, com a ajuda da pesquisadora Elisiane Castro, que deve ser publicado ainda este ano pela Editora da Unisul. Neste domingo, 9, às 19h30, uma missa em ação de graças pelos 100 anos de Aníbal Nunes Pires será realizada no Santuário de Fátima, no Estreito, em Florianópolis.

 

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