Publicidade
Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2018
Descrição do tempo
  • 30º C
  • 22º C

Manezinhos de aço e outros herois: ilustradores criam personagens para defender Floripa

Entre os heróis defensores da cidade estão o pescador Super Manéca, a rendeira de bilro Maria Morena e a surfista Aqualetta

Gustavo Bruning
Florianópolis
30/09/2016 às 13H37

Em uma realidade alternativa, na qual superpoderes seriam reais e super-heróis fizessem parte de nossas vidas, quem seriam os defensores de Florianópolis? Quais habilidades os definiriam? Que regiões eles representariam? A convite do Notícias do Dia, sete ilustradores aceitaram imaginar como seriam os super-heróis locais. Com a liberdade para explorar a cultura manezinha, acrescentar toques de humor e criar a história do passado de seu herói inédito, cada desenhista optou por seguir um caminho distinto e transpor em traços e cores uma visão diferente. Nasceram, então, sete personagens que refletem a realidade da Ilha e, à lá Liga da Justiça, poderiam muito bem defender a capital catarinense com os seus mais distintos superpoderes.

Enquanto alguns heróis tendem para o misticismo, como a feiticeira Sorte Grande e o pescador Super Manéca – este último tem um elo “psíquico” com as tainhas –, há quem envolva a tecnologia para transformar um ícone da cidade em robô gigante, como o estudante Luiz Hercílio. Nas praias, o espaço é da surfista Aqualetta, craque em salvar pinguins e golfinhos, e do Super Gringo, figura responsável por fortalecer a economia local. O Leão Azul, da Vargem Grande, tem um pé na ficção científica e homenageia um dos times de Florianópolis, enquanto a lendária Maria Morena representa as rendeiras de bilro.

Características e virtudes em comum

Independente de onde vivem, o elo entre super-heróis e os locais que habitam é sempre fundamental para suas histórias – seja como o Homem-Aranha no Queens (Nova York) ou como o Batman na fictícia Gotham City. O escritor catarinense Romeu Martins explica que a noção de proteção do território, bem como características fundamentalmente regionais, sempre se provou parte da concepção de personagens deste tipo. Autor de um dos contos da antologia “Super-Heróis”, lançada em 2013 pela editora Draco, Romeu destaca a ligação entre Superman, considerado o primeiro herói com superpoderes, e a cidade de Metrópolis. “Acabou se tornando uma convenção bem estabelecida e que continua sendo aproveitada na indústria”, garante. Ainda assim, o papel do herói como defensor de sua região vai além – alguns exemplos são Júpiter, no Monte Olimpo, e Tarzan, na selva africana.

Apesar de serem mais emblemáticos em se tratando de poderes, é a internalização de super-herói no inconsciente coletivo sua principal habilidade, afirma Romeu. O escritor, que assinou a revista “Justiceiro Joceli e a Ilha da Ponte de Prata”, inspirada no chefe de segurança da Justiça Federal Joceli de Righi, acredita que a possibilidade de retratar todos os tipos de metáfora é uma virtude dos heróis. “O conceito desses heróis mais do que humanos defendendo os necessitados está bem estabelecido em praticamente todas as culturas, mesmo naquelas sem tradição de escrita e que não produzem aquilo que costumamos caracterizar como ficção”. O altruísmo, portanto, acaba sendo uma característica fundamental em qualquer personagem do gênero.


A feiticeira Sorte Grande foi criada por Kayuá Waszak - Kayuá Waszak/ND
A feiticeira Sorte Grande foi criada por Kayuá Waszak - Kayuá Waszak/ND


Super-heroína: Sorte Grande

Região: Lagoa da Conceição
Habilidades: magia
Bordão: "Justiça seja feita!"
Ilustrador: Kayuá Waszak

A origem dos poderes da Sorte Grande se perdeu com o tempo, pois a heroína vem de uma época em que a presença de seres fantásticos era mais frequente. Apesar de manter a forma jovial, a lendária Wanda Rocha carrega a experiência de séculos enfrentando seu arqui-inimigo, o Capiroto. A habitante na Lagoa busca reverter o feitiço do rival, que transformou suas irmãs em pedra e as aprisionou na praia de Itaguaçu. Com a sua fiel Bernunça voadora, Wanda age nas sombras fazendo bondades para enfraquecer o inimigo.

Amante das histórias de Franklin Cascaes, o ilustrador Kayuá Waszak decidiu criar uma heroína que quebrasse o conceito da bruxa como vilã. Wanda é um nome tipicamente associado a bruxas, enquanto Rocha faz alusão à maldição jogada em suas irmãs. O ilustrador gaúcho, morador de Florianópolis há 16 anos, explica que o herói Demolidor foi uma referência durante a criação da Sorte Grande – ambos agem secretamente. O visual, porém, foi além. “Ela tem 390 anos, mas ainda sensualiza”, brinca.

O pescador Super Manéca foi criado por Douglas Ferreira - Douglas Ferreira/ND
O pescador Super Manéca foi criado por Douglas Ferreira - Douglas Ferreira/ND

Super-herói: Super Manéca

Região: Sul da Ilha
Habilidades: comunicação com tainhas e controle da água do mar
Bordão: "Vém cá cô dá ti dáti uma cóça!"
Ilustrador: Douglas Ferreira

Em uma noite chuvosa, Manoel Pereira – o Manequinha – tarrafeava tainhas no Sul da Ilha, até que a briga com uma bruxa e um raio catastrófico fizeram com que parte dos poderes dela fossem transferidos para o pescador. O acidente não originou apenas a habilidade de manipulação da água e o elo psíquico com as tainhas, mas também fundiu o amor de Manoel pelo mar e pelos peixes.

Desde então o senhor de 65 anos vem protegendo as praias e os pescadores artesanais com poderes como o “super manezêsh” – ele fala tão “digêru” que atordoa quem escuta – e a “coça do gato morto” – quando o pescador dá uma “cóça” nos “ishtepôrish” com um gato morto até o bichano miar. Suas armas são a capa tarrafa, arremessada contra os inimigos, e a Super Bicuca, que amedronta os rivais.

O Super Manéca foi criado pelo ilustrador manezinho Douglas Ferreira, da página Dezarranjo Ilhéu (facebook.com/dezarranjoilheu), que se inspirou no pai e no avô, ambos pescadores, para dar vida ao herói. Outras referências foram o Aquaman e o desenho “Avatar: A Lenda de Aang”.

A surfista Aqualetta foi criada por Rebeca Acco - Rebeca Acco/ND
A surfista Aqualetta foi criada por Rebeca Acco - Rebeca Acco/ND

Super-heroína: Aqualetta

Região: praia da Joaquina
Habilidades: agilidade e resistência na água, telecinésia
Bordão: "Vamos lá! Rosa total!"
Ilustradora: Rebeca Acco

Aos 16 anos, a jovem Joaquina já tem mais responsabilidades que muitos adultos. Sob o nome de Aqualetta, a garota usa a sua prancha de surfe mágica para ajudar pinguins, baleias e golfinhos, além de combater a poluição nas praias e impedir afogamentos.

Joaquina nasceu com os superpoderes e foi abandonada na praia quando bebê, até que um casal a adotou. Bastante distraídos, seus pais nunca perceberam seus poderes e a esqueciam nos lugares com frequência. Apelidada de Borboleta das Águas, sua fraqueza é sorvete rosa – ela perde as forças e devora tudo.

Os surfistas e guardas-vidas foram as inspirações da ilustradora Rebeca Acco, nascida em Florianópolis, que os considera ícones da região. A habilidade de salvar os animais é um aceno para as já conhecidas aparições de diferentes criaturas em praias da Ilha. A relação de Aqualetta com a prancha mágica, no entanto, vem da ligação entre as bruxas de Franklin Cascaes com suas vassouras. Rebeca utilizou a técnica de pintura digital de manchas, simulando tinta óleo, e inspirou o maiô de Aqualetta no uniforme da Mulher Maravilha.

 

O grandioso Leão Azul foi criado por Henrique Macieski Moraes - Henrique Macieski Moraes/ND
O grandioso Leão Azul foi criado por Henrique Macieski Moraes - Henrique Macieski Moraes/ND

Super-herói: O Leão Azul

Região: Vargem Grande
Habilidades: superforça, supervelocidade e garras indestrutíveis
Bordão: "Onde as trevas tomam conta, o Azul da noite é a cor da justiça!"
Ilustrador: Henrique Macieski Moraes

Após quebrar o coração de uma bruxa, o veterinário Eduardo Cardozo Monte foi amaldiçoado de forma que, se não controlasse seus impulsos e emoções, se transformaria em um feroz e descontrolado leão azul. Destinado a sofrer eternamente, se alternaria entre humano e criatura selvagem sempre que se apaixonasse, Eduardo se resguardou em seu laboratório até desenvolver uma pílula capaz de transformar a maldição em uma benção. Tornou-se, então, o Leão Azul, e passou a usar a sua forma monstruosa para caçar feiticeiras e impedir novas maldições.

Resultado de uma mistura de ficção científica e mitologia regional, a ideia de criar o Leão Azul chegou ao estudante de design Henrique Macieski Moraes após uma busca para criar algo contemporâneo. O jovem de 22 anos baseou-se em um dos principais elementos locais, o futebol, para atribuir características do Avaí a um herói animalesco.

 

A rendeira de bilro Maria Morena foi criada por Diego Fernandes - Diego Fernandes/ND
A rendeira de bilro Maria Morena foi criada por Diego Fernandes - Diego Fernandes/ND

Super-heroína: Maria Morena

Região: Lagoa da Conceição
Habilidades: superagilidade para trançar rendas de bilro
Ilustrador: Diego Fernandes

Sempre que se espeta com suas agulhas, Josefina Aparecida dos Anjos se transforma em Maria Morena e utiliza seus poderes para proteger a população e manter viva a tradição das rendas de bilro na Ilha. Com idade indeterminada, busca derrotar o arqui-inimigo Nó Cego. Sua fraqueza é o vento sul e seu meio de transporte é a própria almofada de bilro, que utiliza como uma espécie de rolo, no qual monta para se locomover em alta velocidade. A senhora ganhou os poderes da mãe adotiva, uma bruxa, que a enfeitiçou e a transformou imediatamente em idosa.

“É uma personagem que só funciona aqui na região”, explica o ilustrador Diego Fernandes. A super-heroína surgiu como forma de transformar o folclore e a cultura açoriana de forma fantasiosa e até mesmo seu nome vem de um dos tipos de renda de bilro existentes. Diego, de Florianópolis, empregou o estilo de arte de mangás e animes e se inspirou em personagens idosos de desenhos como Dragon Ball.

 

O estudante da UFSC Luiz Hercílio e o Manezinho de Aço foram criados por Rafael HHS - Rafael HHS/ND
O estudante da UFSC Luiz Hercílio e o
Manezinho de Aço foram criados por Rafael HHS - Rafael HHS/ND

Super-heróis: Luiz Hercílio e o Manezinho de Aço

Região: Centro
Habilidades: transformar a ponte Hercílio Luz em um grandioso robô
Bordão: "Eu sou a luz que trará o amanhã!"
Ilustrador: Rafael HHS

Após começar a estudar na UFSC e sofrer com o trânsito na Ilha, o jovem Luiz Hercílio foi vítima de um acidente de carro na avenida Beira-mar. Enquanto seu veículo afundava no mar, o garoto foi salvo por um idoso, que revelou ser um antigo protetor de Florianópolis. O senhor, então, passou ao garoto a missão de defender a cidade utilizando seu mais icônico cartão postal: a ponte Hercílio Luz.

Desde então Luiz transforma a ponte, durante a noite, no lendário robô gigante Manezinho de Aço, e luta contra o povo Toupeira, que pretende afundar a Ilha. Deixando um holograma no lugar do famoso ponto turístico, a dupla evita que as pessoas tenham que deixar a cidade que tanto amam. Não é à toa que a ponte permanece da mesma forma há tanto tempo: ela vem sendo a principal proteção da cidade.

O ilustrador Raphael HHS, morador da Capital há dois anos, teve a ideia de criar o herói em uma conversa com amigos sobre os principais elementos de Florianópolis. Estudante de design da UFSC, ele é fã de robôs e utilizou como referência os desenhos japoneses Megas XLR e Gurren Lagann, criando um personagem imponente com o uso de expressão digital e texturização com base em linhas.

 

O argentino Super Gringo foi criado por Rodrigo Marcondes Hasse - Rodrigo Marcondes Hasse/ND
O argentino Super Gringo foi criado por Rodrigo Marcondes Hasse - Rodrigo Marcondes Hasse/ND

Super-herói: Super Gringo

Região: Canasvieiras
Habilidades: força, agilidade, voo e dólares
Bordão: "¡Hola! ¿Qué tal?"
Ilustrador: Rodrigo Marcondes Hasse

A região de Canasvieiras é defendida pelo El Super Gringo, que, com sua força, agilidade e dinheiro estrangeiro, derrota o mal e ajuda a economia de Florianópolis. Aos 30 anos, Hermano Manoel veste uma capa com as cores de seu país e usa a sua arma – o dólar – para combater a Inflação Argentina.

O herói ganhou os poderes no verão, durante uma insolação. Decidiu, portanto, permanecer em Florianópolis após a temporada. Sempre que se queima demais, transforma-se no Super Gringo, o eterno guardião da praia de Canasvieiras.

“O turista é um herói quase real – ele traz dinheiro para a nossa economia”, explica o ilustrador manezinho Rodrigo Marcondes Hasse. O conceito do herói faz referência ao fato de que o turista argentino pode ter bastante poder aquisitivo em certos momentos, com a alta do dólar, e de repente ter suas habilidades limitadas. “A economia argentina é a kriptonita deles”, brinca. O herói tem o arquétipo do Superman, mas se diferencia pelo cabelo mullet e pelo traje típico de um turista da alta temporada: bermudão e chinelo de dedo.

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade