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Maestro da Camerata Florianópolis fala sobre o pós-Rock in Rio e revela novos projetos

Orquestra de Florianópolis vive seu auge, com projetos como o Rock'n Camerata e Marley in Camerata. Para este ano, prepara uma ópera rock

Karin Barros
Florianópolis
03/02/2017 às 16H51
O Rock’n Camerata é um dos programas responsáveis por difundir a orquestra - Fotos Maria Victória/Divulgação/ND
O Rock’n Camerata é um dos programas responsáveis por difundir a orquestra - Fotos Maria Victória/Divulgação/ND



Entre os números mais recentes da Camerata Florianópolis estão os nove dias se apresentações no teatro do Centro Integrado de Cultura com oito concertos seguidos lotados. Teria um segredo em torno das superlotações nas apresentações da orquestra? O que eles fazem para aproximar tanto o público catarinense da música clássica e erudita? Essas são perguntas frequentes feitas por orquestras de outros Estados ao maestro e fundador da Camerata, Jeferson Della Rocca.

À frente do conjunto sinfônico desde 1994, data de criação, o grupo nasceu do desejo de Jeferson em ter onde reunir os músicos que eram formados por ele, no caso, especificamente em violino – instrumento que leciona desde os 15 anos de idade. “Os alunos terminavam o curso e iam para outras áreas, porque não tinha perspectiva de seguir na música aqui. Perdemos muitos músicos por isso. Ela era basicamente uma orquestra juvenil quando criei. Meu objetivo era ter uma orquestra que engrandecesse a cidade, porque se você só forma e o pessoal vai embora, todo o teu investimento para formar pessoas não tem nenhum impacto no lugar que você vive”, salientou ele, que ao criar a Camerata, não tinha a intenção de se tornar maestro. “Eu tinha um certo preconceito, porque os maestros são normalmente pessoas difíceis. É histórico isso, existe uma leva de maestros tiranos no mundo, e eu era avesso a isso”, explica. 

Quase que em paralelo à construção do que hoje é uma das orquestras do gênero mais importantes do país, veio também a criação do curso de bacharelado em música pela Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), fator contribuinte na formação de novos músicos para a cidade e para a Camerata, e na atração do olhar de profissionais de todo o país e da América Latina para Florianópolis.

"Marley in Camerata", recente programa que já virou sucesso - Maria Victória/Divulgação/ND



Por cerca de cinco anos, a Camerata funcionou com alunos e ex-alunos como integrantes, e depois, com a formação dos estudantes da Udesc, muitos passaram a fazer parte do grupo. “Muitas pessoas vieram de fora para estudar aqui, e com o aumento no volume de trabalho, músicos vieram de toda a América do Sul. Atualmente, formam o grupo, profissionais da Rômenia, Uruguai, Argentina, Porto Alegre e São Paulo”, explica o maestro.

É difícil ver em Florianópolis alguém que não tenha ouvido falar na orquestra. Os motivos são claros: o grupo tem um forte trabalho de democratização e desmitificação do gênero em comunidades carentes da Capital, em igrejas, apresentações gratuitas ao ar livre, e uma pesquisa sonora em torno de músicas populares, responsáveis pelo sucesso de projetos como o “Rock’n Camerata” (2008) e o “Marley in Camerata” (2016). Porém, o que deu visibilidade à orquestra nacional e mundialmente foi a participação no Rock in Rio 2015, com o guitarrista americano Steve Vai.

Jeferson Della Rocca, fundador há 23 anos e maestro da Camerata - Maria Victória/Divulgação/ND
Jeferson Della Rocca, fundador há 23 anos e maestro da Camerata - Maria Victória/Divulgação/ND



Refletidos para o mundo

Quando foram convidados a participar do Rock in Rio há dois anos, um orgulho coletivo tomou o grupo que forma a Camerata Florianópolis, e na época, também, de toda a cidade. “O Steve tinha uma fama de rejeitar alguns músicos, era tido como uma pessoa super exigente, que não tem muita paciência. Chegando lá, ele estava curioso, e no primeiro ensaio já falou que foi com certeza a melhor orquestra que tocou as músicas dele até hoje. No final do segundo ensaio, ele disse: ‘acabei de descobrir minha nova banda’”, conta feliz o maestro ao relembrar os dias de glória em um dos palcos do rock mais famosos do mundo.

O evento foi importante para a Camerata passar bem pela crise brasileira nos últimos três anos, já que com os problemas financeiros, as empresas cortam primeiramente as verbas que destinam a projetos culturais. “Não foi o ideal, mas tivemos menos turbulência que outros, talvez”, diz Jeferson, salientando os 50 concertos feitos em 2016 – uma média maior que a normal para o grupo, e a perspectiva positiva para 2017.

Contudo, o mundo enxergou uma orquestra localizada numa pequena ilha de um pequeno Estado brasileiro tendo alta qualidade no que faz. “Hoje, diversas orquestras nos escrevem, produtores de outros cantores vêm assistir nossos shows em Florianópolis, e também donos de casas noturnas”, afirma.

A Camerata também reconhece que se mantém firme no mercado graças aos apoiadores que colaboram no trabalho interno do grupo. Uma orquestra tem um valor para acontecer, e envolve direta ou indiretamente 300 pessoas por evento, dentro e fora do palco. “Empresários que acreditam no nosso trabalho e o apoio estatal são fundamentais para chegar até aqui. Se fosse depender só do ingresso pago pelo público, a gente não tinha chegado nem a 10% disso”, acredita o maestro.

Jazz, choro e reggae estão entre os gêneros pelos quais a orquestra transita com fluência, sem deixar de lado seus espetáculos clássicos - Maria Victória/Divulgação/ND
Jazz, choro e reggae estão entre os gêneros pelos quais a orquestra transita com fluência, sem deixar de lado seus espetáculos clássicos - Maria Victória/Divulgação/ND




A ‘diferentona”

A Camerata Florianópolis é conhecida por ser “a diferentona”, o sinônimo de surpresa na música erudita. O primórdio disso talvez tenha sido com projetos mais irreverentes que misturavam jazz, MPB, depois rock e agora o reggae. “A nossa formação é para fazer música erudita. A gente estuda a vida inteira para tocar com perfeição os grandes clássicos, isso nos demanda às vezes uma vida inteira de estudo para uma música que mais nos desafia tecnicamente. Musicalmente falando, é fantástico você conhecer Tom Jobim, clássicos do rock, jazz. Tem música de qualidade em todos os gêneros. Então, não necessariamente, porque você consegue dominar uma música em um ou dois dias que musicalmente uma é inferior a outra. Ter que tirar de algo muito simples uma coisa fantástica é um desafio para o músico”, afirma Jeferson Della Rocca, apontando que sempre se defendeu que existe o erudito para todos os estilos.

O “Rock'n Camerata” nasceu da paixão do próprio maestro, que não nega que adora o rock tanto quanto a música clássica. “Estudava muito música clássica, mas na hora de extravasar, era Led Zeppelin, Pink Floyd que eu escutava. Essa paixão que fez sucesso, foi algo que eu fiz não pelo público do rock, mas por mim”, conta.

Mauro Branco foi o músico que idealizou o mais recente sucesso do grupo sinfônico: “Marley in Camerata”, que inclusive será o terceiro DVD lançado pela Camerata. A gravação acontecerá nos dias 14 e 15 de fevereiro, no Teatro Ademir Rosa (CIC).  Neste domingo (5), o projeto será apresentado de forma gratuita, ao ar livre, no trapiche da avenida Beira-Mar Norte, na Capital. O “Rock'n Camerata” também terá apresentação ao ar livre, no dia 19.  

No dia 12, um novo projeto vai ao ar: “Música para Cinema”. Ele será apresentado no CIC, com um repertório com músicas de filmes clássicos, como “Missão Impossível”, “ET” e “A Pantera Cor de Rosa”.

Atualmente a Camerata conta com 23 integrantes fixos, mais os colaboradores – número que pode elevar a orquestra a 70 músicos.

Uma ópera rock

O próximo projeto a sair do papel é o “Ópera rock”, a mais nova aposta de sucesso do grupo. A ideia surgiu há três anos, mas foi no início deste ano que o pianista, arranjador e compositor Alberto Heller começou a “rabiscar”. “Existem até coisas assim no mundo, mas nada que tenha impactado tanto, talvez porque não tenha sido feito com a qualidade que o Alberto tem condições”, diz Jeferson. No projeto haverá uma banda com instrumentos elétricos, voz de rock e voz erudita. “A ‘Ópera rock’ é um projeto viável, difícil, e pode se tornar uma das coisas que a Camerata fez com maior valor artístico”, afirma Maria Elita Pereira, produtora desde de 1998 da orquestra.

O maestro e a produtora Maria Elita falam da importância de ter arranjadores como Alberto Heller e Luiz Gustavo Zago em Santa Catarina, responsáveis por fazer sair do papel o que o conjunto precisa seguir. “Damos espaço para a composição contemporânea, para que daqui 200 anos alguma orquestra do mundo possa estar tocando uma música que foi composta hoje. Mozart e Beethoven só se tornaram o que representam hoje para o mundo porque tinham músicos que tocavam o que eles escreviam”, coloca Jeferson.

Por fim, o maestro revela o segredo do sucesso da Camerata Florianópolis, que persiste há 23 anos no mercado. “O respeito ao público é o primeiro ponto. Saímos de uma Florianópolis com uma realidade técnico musical para outra que temos hoje. Investimos em qualidade e aprimoramento constante. Pagávamos para que os músicos ficassem estudando, e que não tirassem o foco de se aperfeiçoar. Hoje nossas audições não são divulgadas como antes, e tem a presença de músicos de toda a América Latina”, finaliza.

A orquestra mantém igual seu programa erudito - Maria Victória/Divulgação/ND
A orquestra mantém igual seu programa erudito, como na apresentação com o violinista italiano Domenico Nordio - Maria Victória/Divulgação/ND



Confira as próximas apresentações da Camerata Florianópolis

5/2, 19h, “Marley in Camerata”, gratuito, trapiche da avenida Beira-mar Norte, Centro, Fpolis

12/2, 21h, “Música para cinema”, R$ 50, Teatro Ademir Rosa, CIC, avenida Irineu Bornhausen, Agronômica, Fpolis

14 e 15/2, 21h, “Marley in Camerata”, R$ 60, Teatro Ademir Rosa, CIC, avenida Irineu Bornhausen, Agronômica, Fpolis

19/2, 19h, “Rock in Camerata”, gratuito, trapiche da avenida Beira-mar Norte, Centro, Fpolis

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