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Mães contam sobre as dificuldades e polêmicas que envolvem a amamentação

Próximo da Semana Mundial do Aleitamento Materno, especialista levanta ações que devem ser retomadas pelo governo para melhorar índices do Estado

Karin Barros
Florianópolis
14/08/2018 às 14H38

Amamentar em público não é crime, não é vergonhoso, não é erótico, porém o gesto que é primordial na vida de todo ser humano ao nascer se tornou um tanto polêmico. A jornalista Letícia Kapper, 35, moradora de Florianópolis há mais de dez anos, vive e sente na pele os olhares na rua ao amamentar o filho de três meses. 

Letícia é defensora da amamentação e Theo tem acesso ao peito não importa onde mãe e filho estiverem - Daniel Queiroz/ND
Letícia é defensora da amamentação e Theo tem acesso ao peito não importa onde mãe e filho estiverem - Daniel Queiroz/ND


Para ela, o gesto é algo único na vida de uma mulher, e não deve de jeito algum ser negado a um bebê por motivos externos. Sem restrições de horários para as mamadas, Letícia dá o peito ao Theo sempre que ele pede/chora, independente do local. Em uma das várias situações constrangedoras nesses três meses de amamentação, a mãe lembrou de uma em Itapema, onde em uma loja de produtos infantis precisava dar de mamar. “Eu pedi para usar uma banqueta que estava na loja para amamentar, e o gerente perguntou se eu não preferia um lugar mais reservado e apontou o provador”, diz ela, que negou na hora e se manteve na loja amamentando.

De 1 a 7 de agosto é celebrada a Semana Mundial da Amamentação, lançada pela WABA (Aliança Mundial para Ação em Amamentação), em 1992, com o objetivo de dar visibilidade, incentivando todos os grupos do mundo a trabalhar o tema na prática e a colocá-lo na mídia para ampla divulgação. O tema da SMAM de 2018 é “Amamentação é a base da vida”.

Diversas cidades no Estado vão se movimentar em prol da ação. Em Florianópolis, por exemplo, no dia 5 vai acontecer o 1º Pedalamamenta, que vai partir do trapiche da avenida Beira-Mar Norte, às 8h. A pediatra Márcia Menezes Gomes da Silva lembra que Florianópolis é uma das cidades mais preocupadas e sedentas por informações sobre o assunto.

O tema está em alta na pauta mundial desde que uma resolução internacional de incentivo à amamentação apresentada pela Assembleia Mundial da Saúde, da ONU, teve uma tentativa de bloqueio por parte dos Estados Unidos, inclusive com ameaças comerciais a países que apoiavam à resolução. Porém o texto, baseado em várias pesquisas, foi mantido.

Persistência para amamentar

As dificuldades no amamentar podem ser muitas, pois nenhuma mulher nasce sabendo – e isso não é problema algum. Estímulos externos e internos também podem colaborar ou não com o processo. “Hoje em dia a gente só consegue que amamente a mulher que quer, que persiste, que busca assistência. Segundo pesquisas, apenas 40% das mulheres conseguem amamentar até os quatro meses”, diz Márcia.

Camila, com Ben e o marido Rangel: amamentar foi uma dedicação de todos - Daniel Queiroz/ND
Camila, com Ben e o marido Rangel: amamentar foi uma dedicação de todos - Daniel Queiroz/ND


No caso da blogueira e empresária Camila Soares, 32, natural de Tubarão, mas moradora do Centro da Capital, toda a gestação do primeiro filho, o Ben, foi tranquila. Porém, na primeira semana, depois do colostro (primeiro alimento perfeito para bebês), o leite não saía.

Camila e o marido Rangel Roecker foram até o pediatra a primeira vez e o filho não engordou o peso ideal para aquela semana. O momento foi de frustração e agonia para a mãe. O pediatra recomendou que a família entrasse com a suplementação para o bebê logo na primeira semana, contudo, o casal já bem adepto a opções saudáveis, explicou ao médico que tentaria outras alternativas para estimular a lactação. E deu certo.

Com uma mistura de chás e uma bombinha específica de sucção natural, Ben, que engordava apenas 18 gramas por semana, passou a engordar 36 – para o alívio dos pais. “O médico deve ter nos achado meio loucos, pois não seguimos nada do que ele prescreveu, mas deu certo, e ainda tem dado, então estamos muito felizes. Nessa fase a gente se emociona até em saber que o filho está ganhando peso”, conta ela.

A pediatra Márcia afirma que é importante procurar uma segunda opinião. “Se a mãe sente alguma dificuldade ela vai procurar um profissional, mas talvez ele não esteja preparado. A fórmula é uma ferramenta fácil, tem crianças que precisam mesmo, mas antes disso tem várias orientações que podem ajudar a amamentar, que vão desde não usar chupeta na fase inicial a oferecer demanda livre do seio”, explica.

Programa nacional 

Camila teve o primeiro filho em uma clínica particular e contou com a uma consultoria para gestantes indicada pela irmã, que é médica obstetra. Para a empresária, a ajuda foi primordial para tirar diversas dúvidas, das mais básicas às mais complexas. Neste caso, a clínica escolhida por Camila não era ligada ao programa do Ministério da Saúde, o Hospital Amigo da Criança, que visa dar este suporte a mãe já nas primeiras horas de vida do bebê.

Em Santa Catarina, são 17 hospitais ligados à rede. Na Grande Florianópolis, apenas dois participam do programa: a Maternidade Carmela Dutra e o HU (Hospital Universitário) - que já é referência nacional no método Canguru. O Hospital Regional de São José está a caminho de se tornar um Amigo da Criança, porém, desde 2003 o governo não credenciou mais nenhum centro de saúde. “A criança que nasce nesse hospital tem mais chance de ser amamentada até os seis meses ou mais. Essa política está meio esquecida no Estado e precisa ser retomada”, explica Evangelia Kotzias Atherino dos Santos, professora e doutora da pós-graduação em enfermagem da UFSC, membro da IBFAN (Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar) e avaliadora do Unicef/MS para a Iniciativa Hospital Amigo da Criança.

O Theo, filho de Letícia, nasceu no HU, e ela afirma ter sentido o suporte e acolhimento, reflexos do programa governamental.

Questão de economia 

Segundo a professora Evangelia, de modo geral, o aleitamento materno contribui para a saúde, bem-estar e a sobrevivência de mulheres e crianças em todo o mundo. Segundo conclusões de estudos realizados sobre amamentação em 153 países, publicados pela revista britânica “The Lancet” em janeiro de 2016, a morte de 823 mil crianças e de 20 mil mães em cada ano poderia ser evitada pelo aleitamento materno universal, assim como geraria uma economia de US$ 300 bilhões.

O aleitamento materno faz o mundo mais saudável e mais igualitário e tem efeitos benéficos em longo prazo, tais como determinar níveis mais baixos de pressão arterial e de colesterol total, melhores testes de inteligência, menor prevalência de obesidade e de diabetes tipo 2.

A pediatra Márcia acrescenta ainda a importância da relação afetiva criada com a mãe durante as mamadas. “Por isso, investimentos são necessários em programas e políticas de ação comunitária voltados à promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno e à alimentação complementar saudável apropriada. O Brasil avançou em aspectos importantes para a promoção do aleitamento, mas inquéritos populacionais recentes mostram que esses esforços ainda são tímidos para o enfrentamento efetivo do problema”, diz Evangelia, pontuando que embora os aumentos das taxas de amamentação sejam vistos com entusiasmo, os avanços foram menores nos últimos 10 anos.

Conquis: salas de apoio às trabalhadoras

A licença maternidade de quatro meses também dificulta o tempo mínimo de amamentação dos bebês, que é de seis meses. Evangelia, que é uma das maiores especialistas no assunto no Estado e no país, afirma que é importante ampliar número de SAA (Salas de Apoio à Mulher Trabalhadora que Amamenta) em instituições públicas e privadas. “Temos um número grande de indústrias, principalmente no Médio Vale e Joinville. Na própria universidade [a UFSC] estou tentando incluir, já tivemos sinal verde, e estamos estudando o local. Eu, como docente e entusiasta, vejo que muitas mulheres que voltam à faculdade, vão ao banheiro para tirar o leite, um local sem condições de saneamento”, diz. Atualmente Santa Catarina tem somente duas SAA credenciadas: na Maternidade Darcy Vargas, em Joinville e na Eletrosul, na Capital.

Atenta ao assunto, a formanda de enfermagem da Unisul, Seilane Chenk Polastro, 32, está fazendo um levantamento a partir de 2015 sobre essas mães que retornam ao trabalho ainda amamentando, na Grande Florianópolis. O resultado será seu TCC (trabalho de conclusão de curso). Seilane é mãe de dois meninos, empresária, e também se sentiu dividida quando voltou ao trabalho, mas com o desejo de amamentar o filho pelo tempo ideal.

Por meio de um questionário online, ela busca a opinião de mais de 300 mulheres de maneira anônima, perguntando sobre o processo de amamentação dentro da empresa, quanto tempo amamentou e se teve apoio ou resistência no local de trabalho, por exemplo. A pesquisa será publicada como artigo científico. “O Ministério da Saúde lançou a campanha de apoio à mulher trabalhadora que amamenta, mas a estrutura é muito deficiente. Por isso queremos mostrar em números a situação, pois a própria população não apoia muitas vezes”, diz Seilane. Para participar, acesse www.trabalhadoraqueamamenta.com.br.

Porque a amamentação é importante para o bebê?

. Proporciona uma nutrição superior e um ótimo crescimento
. Melhor desenvolvimento psicomotor, mental, social e emocional
. Fornece água adequada para hidratação
. Favorece o vínculo afetivo e o desenvolvimento
. Protege contra as alergias e infecções, especialmente as diarreias e pneumonias.
. Protege contra diabetes e câncer na infância
. Responde melhor às vacinações
. Recuperação mais rápida nas doenças
. Menos problemas ortodônticos e fonoaudiológicos associados ao uso de mamadeira
. Melhor desempenho em testes de QI 

Porque a amamentação é importante para a mãe? 

. Ajuda o útero a recuperar seu tamanho normal, reduzindo o risco de hemorragia
. Aumenta as reservas de ferro
. Reduz o risco de câncer de mama e de ovário
. Ajuda a espaçar uma nova gravidez
. O aleitamento materno torna conveniente as viagens e as mamadas noturnas
. A depressão pós parto é reduzida
. É mais prático e menos trabalhoso

Recomendações atuais para o aleitamento Materno

• Amamentar os bebês exclusivamente até os seis meses e continuar a amamentação, com alimentos complementares até os dois anos ou mais.
• Os bebês não devem consumir nenhum outro alimento ou bebida além do Leite Materno até os seis meses.
• Não oferecer mamadeiras, bicos artificiais ou chupetas a crianças amamentadas.
• Não limitar o número ou a duração das mamadas.

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