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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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Livro narra a epopeia de 700 navios americanos que passaram por SC em direção à Califórnia

Obra de Marli Cristina Scomazzon e Jeff Franco, com lançamento nesta quinta-feira, no Badesc, conta a saga em busca de ouro que ocorreu no século 19

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
Bruno Ropelato/ND
A autora Marli Cristina Scomazzon, autora do livro com Jeff Franco. O que mais surpreende é a falta de relatos na Ilha sobre essa aventura ianque

Eles chegavam moídos, sedentos, entediados pela viagem e maltratados por meses de privações no mar, com saudades de casa e ansiosos pelo prometido ouro que, pródigo e quase à mão, exigia tão longo deslocamento. Desembarcavam na ilha de Anhatomirim, que abrigava a principal fortaleza da região, e em poucos dias obtinham autorização para conhecer a cidade do Desterro. Entre 1849 e 1856, perto de 700 navios fundearam na baía Norte e provocaram uma invasão sem precedentes da pacata vila de seis mil almas, atrás de mantimentos, diversão e novidades. E foram embora sem deixar rastros, descendentes (a não ser dos poucos que não seguiram viagem) e registros orais e escritos de sua passagem.

Essa aventura monumental está descrita no livro “A caminho do ouro – Norte-americanos na Ilha de Santa Catarina”, de Marli Cristina Scomazzon e Jeff Franco, que será lançado nesta quinta-feira, às 19h, na Fundação Badesc, em Florianópolis. A publicação ressalta os relatos dos ianques acerca da paisagem natural e humana do Desterro e arredores, que em manuscritos deixaram seu testemunho sobre a fartura de alimentos, a hospitalidade dos nativos, a exuberância do verde sem fim e o melhor café que eles já haviam provado. A leitura parece descrever, na peregrinação maciça em direção à Califórnia, a migração bíblica rumo à terra prometida – com a diferença de que, no Novo Mundo, a jornada era movida pela ambição desmedida que está no DNA de seus protagonistas.

Depois que o presidente James K. Polk anunciou, em 1848, que qualquer cidadão americano poderia explorar os veios auríferos da Califórnia, uma cruzada humana se formou em direção ao Oeste – envolvendo desde homens ricos, letrados e bem estabelecidos no lado Leste dos Estados Unidos até aventureiros, estudantes, desocupados e quem quer que pudesse pagar uma cota do navio que faria o translado impraticável por terra, naquele momento. A rota pelo mar incluía a transposição do cabo Horn, no extremo sul do continente, e a subida pelas águas do Pacífico até o outro lado do próprio país de origem dos viajantes. Porém, tão intrigante quanto o longo deslocamento de 28 mil quilômetros, que podia durar até oito meses, é o fato de não terem sobrevivido na Ilha testemunhos e documentos acerca da aventura.

Arte: Rogério Moreira Júnior
Impossibilitados por terra, eles se aventuravam pelo Atlântico, pegando as correntes marítimas até perto da costa africana e depois desciam em direção ao extremo sul do continente

 

Rumo ao Oeste, a partir do Atlântico

A corrida do ouro foi deflagrada depois da vitória dos Estados Unidos na guerra contra o México, que resultou na anexação da Califórnia ao império americano. O “Oeste selvagem”, no entanto, não existia só no nome. As vastas planícies cheias de índios, rios caudalosos como o Mississipi, o Missouri e o Colorado, montanhas nevadas e os próprios mexicanos, que ainda eram inimigos declarados, inviabilizariam qualquer empreitada em direção ao Pacífico. Foi quando navios de todos os tipos, muitos deles apodrecendo nos cais, foram recuperados e aparelhados para ganhar o Atlântico. Eles eram empurrados pelas correntes marítimas até perto da costa africana e depois, no embalo dos ventos favoráveis, desciam o Atlântico em direção ao extremo sul do continente.

As tentativas de encurtar o caminho pelo Panamá, Nicarágua e México também eram fadadas ao fracasso, e assim ganhou consistência, a partir de 1849, a rota pelo mar. Cerca de 700 navios encostaram em Anhatomirim, e deles saíam 600 americanos dispostos a pagar o que pudessem por um bom prato de comida, água potável e frutas frescas, após haverem convivido durante meses com ratos e piolhos a bordo. A cidade do Desterro tinha exatas 46 ruas e foi impactada pela invasão, ainda que não tenham restado provas disso. A imprensa local chegou a noticiar conflitos patrocinados pelos “califórnios”, que bebiam muito e se metiam em confusões. Mas no geral as relações eram amistosas. “A maioria dos viajantes era letrada”, afirma a jornalista Marli Szomazzon. “Em alguns barcos havia até biblioteca a bordo”.

Uma esquadra em Anhatomirim

O número certo de americanos que desembarcaram na Ilha de Santa Catarina não pode ser precisado, mas os relatos dão conta de que só em 1849, no início da febre do ouro, partiram de Nova York com destino à Califórnia 214 navios, outros 151 zarparam de Boston, mais 42 saíram de New Bedford, 38 tiveram como origem o porto de Baltimore, 32 eram originários de New Orleans e 31 eram da Philadelphia – sem citar outras duas centenas e meia que deixaram portos espalhados pelo Maine e pelo Texas. “Em dezembro daquele ano, contou-se que havia 11 navios ancorados pelo da ilha de Anhatomirim, simultaneamente”, diz a autora Marli Scomazzon.

O deslumbramento com o desconhecido

No capítulo “Olhar ianque sobre Desterro”, a jornalista Marli Scomazzon e Jeff Franco reproduzem depoimentos de jovens e adultos sobre a cidadezinha onde as tripulações encostavam para reabastecimento e conserto das avarias nas embarcações. Eles eram destemidos, determinados, orgulhosos de seu país, que havia vencido uma guerra com o México, mas sabiam reconhecer o belo que encontravam pelo caminho. “A terra é sublime e lindamente verdejante”, escreveu um dos viajantes. Como pouco podiam fazer nos navios, emergiu o dom literário de alguns deles. Um manuscrito destaca “as palmeiras agitando suas plumas brancas no ar, as folhas largas das bananeiras farfalhando na brisa, o perfume da floração das laranjeiras e jasmins...”

“Nos sentimos como Colombo e poderíamos nos ajoelhar e beijar nossa mãe terra” foi uma frase tirada do “The Hawaian Journal of History” pelos autores do livro. “O local onde ancoramos era cercado pelo mais magnífico e inimaginável cenário”, escreveu um jovem chamado Hiram Hawkins para seus pais, em carta publicada num jornal americano em junho de 1849. As cartas e textos guardados pelos viajantes falavam de uma “paisagem selvagem e pitoresca” e de habitantes “amáveis e calmos”. “Parece que o Éden saiu do leste no formato de uma ilha”, disse outro deles.

Nem Marli, nem Jeff conseguem entender a ausência de registros sobre a invasão ianque da Ilha. A jornalista encontrou apenas despachos do presidente da província, João José Coutinho, no Arquivo Público do Estado, relacionados ao perigo da febre amarela que poderia vir com os estrangeiros, e referências a poucas famílias – entre elas, a de Robert Swain Cathcart, cujos descendentes não têm informações sobre as atividades do americano da ilha de Nantucket, no estado de Massachusetts, que se fixou aqui na década de 1820 e mais tarde virou cônsul americano na cidade.

Relatos de festas e tradições

Nos Estados Unidos, em qualquer vila interiorana há alguém que descende ou guarda testemunhos dessa aventura de mais de 160 anos atrás. “Alguns desses homens figuram como fundadores dessas cidades, mais de um século atrás”, informa Marli Scomazzon. Foi Jeff Franco, coautor do livro que mora naquele país, quem fez o levantamento dos manuscritos, e ele está longe de ser definitivo, por estar espalhado e ser volumoso. A literatura sobre o deslocamento em massa de meados do século 19 é vasta e rendeu bons roteiros para o cinema, como o de “Barbary Coast” (Duas Almas se Encontram, na versão brasileira), de Howard Hawks, filmado em 1935, que mostra aventureiros dos quatro cantos do mundo chegando a São Francisco em busca de ouro e fortuna.

O livro de Marli Scomazzon e Jeff Franco fala das tentativas, em geral fracassadas, de escalonar as descidas dos viajantes para a terra firme, dos pombeiros que ofereciam mel e frutas aos forasteiros e de alguns americanos que ficaram, por falta de ânimo para continuar ou porque, enamorados, trocaram o sonho do ouro pela companhia de mulheres nativas. Há relatos sobre a malhação do Judas, os cortejos do Divino Espírito Santo, as festas em terra e a bordo e a hospitalidade dos ilhéus.

De glórias e fatos tristes

Formada em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Marli Cristina Scomazzon trabalha no Sinergia (Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Energia elétrica de Florianópolis e Região) desde os anos 90, mas já passou pelos jornais “O Estado”, “Diário Catarinense” e “Jornal de Santa Catarina”, além de ter sido correspondente das revistas “Veja” e “Istoé” no Estado.

Seu livro, com Jeff Franco, que sai pela editora Insular, dedica um capítulo à memória do Desterro sobre a “invasão” americana, fala dos sete cônsules norte-americanos na Ilha e nomeia todos os barcos que passaram pela Ilha e pelo Cabo Horn em direção à Califórnia. Há histórias gloriosas, apesar do ouro ter frustrado a maioria dos aventureiros, e fatos tristes, sobre perdas e mortes longe de casa, em terra estranha e inóspita. Para ela, no entanto, o mais forte são as impressões dos viajantes sobre a região, que comparavam “ao céu” e “ao paraíso”.

FRASES

“... com prazer inalei a brisa que murmurava suavemente e trazia nas suas asas não só o doce e fresco ar da terra, mas que também havia roubado no seu percurso o delicado perfume da flora tropical...”

“Os pássaros desta ilha são fora do comum pela doçura e brilho de sua música”.

“Todas as tardes ao retornar de nossos passeios íamos a casa de um de nossos amigos no subúrbio, que felizes por nos ver insistiam para que ficássemos para a noite de pois de nossa concordância chamavam todos os jovens da vizinhança para ajudar a nos entreter”.

SERVIÇO

O quê: lançamento do livro “A caminho do ouro – Norte-americanos na Ilha de Santa Catarina”, de Marli Cristina Scomazzon e Jeff Franco

Quando: quinta-feira, 5 de novembro, às 19

Onde: Fundação Badesc (rua Visconde de Ouro Preto, 216, centro, Florianópolis)

Editora: Insular

Quanto: R$ 39

 

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