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Domingo, 18 de Novembro de 2018
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Livro infantojuvenil aborda a caça, mas sem cair no clichê das boas intenções e moral da história

“Birigüi”, do escritor mineiro Maurício Meirelles, conta a história de um menino filho de caçador que luta contra seus medos para seguir a vontade paterna

Redação ND
Florianópolis
Divulgação/ND
Ilustrações de Odilon Moraes tem um ar sombrio

 

POR Dirce Waltrick do Amarante

Autora de As antenas do caracol: notas sobre literatura infantojuvenil (Iluminuras).

 

Birigüi (Miguilim, 2016), do escritor mineiro Maurício Meirelles, conta a história do filho de um caçador que, ao contrário do pai, é avesso a essa atividade. O enredo, assim resumido, pode levar o leitor a crer que se trata de mais um enfadonho livro infantojuvenil cheio de boas intenções e conselhos sobre a prática da caça. Nada mais natural, depois de uma onça ter sido morta recentemente durante o revezamento da tocha olímpica e de o surperintendente do Ibama, nomeado pelo ministro do Meio Ambiente Sarney Filho, ter a nomeação suspensa depois de vir a público a notícia de que era adepto à caçada. 

Mas o leitor se engana. Logo no início da narrativa, conhecemos um menino que luta contra seus medos e sentimentos para seguir a vontade paterna e se tornar também um caçador: “No fundo do corredor, a sala de caça. Não gostava de ir lá, mas tinha de juntar coragem, ia caçar no dia seguinte”. Ele parece estar resignado, pois sabe que o seu destino é caçar e seguir a tradição da família.

Num dos sonhos de Birigüi (com trema), bicho e gente se enfrentam e reforçam a ideia de que a vida é do mais forte, de que ambos têm que lutar. O dilema está posto e já não é tão fácil julgar quem tem razão: “—Por favor, não me devore. -- Por que não, se é da minha natureza? – disse a onça. Sorriu, mostrando as gengivas cor de sangue. [...] – Deixe-me ir. Prometo nunca fazer mal. A onça pensou por um instante e disse: -- O homem-caçador também prometeu. A meu pai, nesta mesma capoeira. Depois veio com a cospe-fogo e o matou”.

Desperto, Birigüi sabe que as onças matam o gado de seu pai; mas essa é a natureza delas. É também da natureza de seu pai proteger seu “patrimônio”, afinal, ele é, ao que tudo indica, dono de uma pequena propriedade, e o gado é o seu ganha-pão, significa a certeza de comida na mesa e a sobrevivência de sua família. A caça, no entanto, vai além disso para o seu pai: ele se orgulha de caçar; tanto que, numa das salas da casa, expõe as cabeças de suas caças e cobre o chão com uma pele de onça. Para o pai de Birigüi, caçar é uma necessidade, mas também um prazer.  

O leitor tem sempre dois lados da história, dois pontos de vista, de modo que cabe a ele decidir para qual deles penderá. Meirelles não aponta um herói: bichos e homens têm suas razões. Todos esses dilemas estão na cabeça do protagonista e também na do leitor.

 O autor não oferece respostas; em vez disso, instiga a discussão. Está aí uma grande qualidade, principalmente num livro infantojuvenil, que muitas vezes indica ou impõe uma única resposta ao leitor. 

A propósito, as ilustrações de Odilon Moraes, com pouquíssima variação de cor e muitos traços e rabiscos, parecem revelar o interior sombrio e conturbado do menininho e sua visão de mundo, que para ele não permite grandes mudanças, pois, certamente, “terá” que repetir as atitudes do seu pai.

À exceção do sonho de Birigüi, bichos não falam nessa narrativa. Aliás, é o comportamento do menininho e da natureza que traduzem o sentimento dos animais: “[...] tornou a mirar no cervo, o olho riscando uma linha até o peito do animal. Birigüi virou o rosto. O vento chiava nas folhas, rangia os galhos. Parecia choro. Um choro doído, que crescia, e uivando de raiva engolia o barulho dos cães [...]”.

Já o menino, diante da iminente morte do cervo, fica desnorteado, perde as forças: “girando, girando... e era como se ele estivesse caindo, sem peso, solto no ar; segurou com força a rédea e tudo se foi sumindo, sumindo, sumindo...”.

O pai, de certa forma um “carrasco” frio, é quem está ao lado do filho quando ele acorda e, nesse momento, transforma-se num protetor carinhoso: “Quando abriu os olhos, estava deitado no capim. A mão áspera acariciava seu rosto. Ajoelhado, o caçador sorriu”.

Birigüi é um livro poético e instigante, que envolve o leitor da primeira à última linha... que, aliás, não parece ser bem a última. Talvez venham mais aventuras por aí.

 

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