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Quinta-Feira, 20 de Setembro de 2018
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Lendas da tatuagem no país falam sobre tendências e evolução na arte

A 3ª edição da Expo Tatto, que ocorre este final de semana, traz 500 tatuadores para Florianópolis

Karin Barros
Florianópolis

“Hoje eu admiro muitos trabalhos, o nome não é mais tatuador, é artista”, disse o paulista Antônio Stoppa, 67, um dos tatuadores pioneiros do país, e morador de Florianópolis há 31 anos. Stoppa, que foi tomado pela paixão pela tatuagem em 1978, ao conhecer o tatuador dinamarquês Lucky no porto de Santos, em São Paulo, hoje só tatua com hora marcada e não faz questão de divulgar seu estúdio. Sem placas que chamem a atenção, uma das lendas da tatuagem no país atende discretamente a amigos em um espaço montado ao lado da garagem de casa, no Rio Vermelho.

Flavio Tin/ND
Stoppa também é pioneiro na fabricação de máquinas para tatuagem


Ali ele reúne dezenas de certificados pelo mundo inteiro, até no Japão, onde se especializou no estilo oriental. Outro dom é para o “old school”, estilo que aprendeu com Lucky, autor de sua primeira tatuagem. O desenho de um motociclista foi feito há 38 anos no braço esquerdo e nunca foi retocado – uma das vantagens de ter uma tatuagem da década de 1970, quando elas eram feitas com agulhas de costura, deixando o traço muito mais forte que os atuais. Stoppa lembra que o amigo dinamarquês veio de um navio, e que viu em Santos um lugar para disseminar sua cultura de rabiscos. 

O registro feito em Stoppa custou um salário mínimo e meio, um valor muito superior para o tamanho da tatuagem e qualidade, se comparados ao momento atual. O tatuador radicado em Florianópolis também é conhecido pelo pioneirismo nas máquinas de tatuagem, fabricando até hoje sob encomenda materiais personalizados.

O estilo “old school”, que Stoppa se refere, voltou com força total, e o público poderá conferir isso na 3ª Expo Tattoo, que começou ontem mas ocorre ainda neste sábado e domingo, no Centrosul. O evento reúne os melhores tatuadores do país e do mundo em quatro corredores com 180 estandes e 500 tatuadores. 

:: Confira mais fotos no fim da matéria

Entre eles estão Craig Foster, participante do reality show americano Ink Master junto a Veerle London, uma das mais renomadas tatuadoras da Europa e integrante do Electric Ink ProTeam, a maior marca de suprimentos de tatuagem do mundo. Os holandeses Hankey Jee  e Muteba Cybs Mwanba, os americanos  Willian Nigh e Logan Shackelford, os colombianos Omar Ancines e Juan Cano,  o argentino Matu Lara e o italiano Alessandro Stocco, além de brasileiros reconhecidos, como Chico Morbene (Porto Alegre/RS) e Fernando Tampa (São Leopoldo/RS) também marcam presença. O youtuber Luba, catarinense de Tubarão, que tem atualmente seu conteúdo consumido por mais de três milhões de pessoas no canal LubaTV, também é uma das atrações. 

A expectativa dobrou do ano passado para agora, e eles esperam até dez mil pessoas entre sexta e domingo. “O evento está se consolidando, já vem com uma proposta de evento maior, com diversidade de atrações para ter um publico mais diversificado. Queremos que venha a família, com criança e avó, e que olhem o evento para desmistificar o mundo da tattoo”, explica Maurício Civetta, a frente do evento desde a primeira edição. Stoppa não foi convidado para o evento, mas é lembrado por muitos tatuadores de Florianópolis como “monstro” e até “museu” da tatuagem.  

Tendências eternizadas 

Daniel Queiroz/ND
Inácio tem 40 anos de carreira como tatuador 


Inácio da Glória, 64 anos, é o tatuador mais antigo em atividade no país, e será jurado da competição de tatuagem que está acontecendo na Expo Tattoo. Com um estúdio no Guarujá (SP), o Ilha Nativa Tattoo Brasil, ele afirma que quando começou, a tatuagem era muito improvisada, com um agulha amarrada na mão. “Ela tem uma magia que sempre representou a humanidade. O conceito foi se alastrando rapidamente, e atualmente temos muitos recursos disponíveis. É um salto quântico”, diz. 

Com quatro décadas de experiência, o tatuador consegue pontuar o que viu acontecer na tatuagem ao longo dos anos. Segundo ele, na década de 1970, por conta até de estar localizado também próximo ao porto de Santos, a moda era do “old school”. Na década de 1980, as tatuagens étnicas e tribais ganharam força, e em 1990, a caligrafia estava começando a ter espaço, e hoje dificilmente um tatuador não faz uma palavra ou frase em seu estúdio. Para ele, que faz de tudo, mas tem como preferência o “old school”, também existe o que não sai de moda, como os dragões e carpas.

Com poucas tatuagens pelo corpo, em razão de, segundo ele, ser sempre pioneiro por onde passava, ele afirma que convenções como essas são um termômetro a disseminação dessa cultura “moderna e motivadora”. Mauricio Civetta, organizador da exposição, afirma que eventos semelhantes acontecem constantemente no país e no mundo, e que “se quisesse iria em um por final de semana”.

Recentemente, Inácio afirma que convenções de tatuagens criaram a categoria “cultura brasileira”. A ideia é que os tatuadores tenham maior conhecimento da cultura nacional. “Essa categoria veio para identificar mais as tatuagens com o padrão cultural, como o maracatu, a cuia de chimarrão, os animais silvestres, e rostos como Rita Lee, Zeca Pagodinho e Gonzaguinha”, explica, já que antigamente tatuava-se muito Elvis Presley, Marylon Monroe e produtos importados. “Quanto mais genuíno formos, mais internacional seremos”, diz.  

Lendas em torno dos desenhos

Por muitos anos, a tatuagem foi rodeada de significados negativos. No passado, ela era um método tanto de identificação de marinheiros, por eles não portarem identidades nos navios, quanto de presos, que, segundo Antônio Stoppa, marcavam o corpo dentro das cadeias de forma extremamente doloridas para demonstrarem força, coragem, e passarem medo aos demais. 

Estudiosos afirmam até que após as sessões de tortura com tintas impróprias e equipamentos primitivos dentro das cadeias, os bandidos pediam para levar chineladas em cima da marca. Na última década, tatuagens como de palhaços, receberam a fama para quem a porta de “matador de policial”, sendo que o palhaço seria a imagem do policial para o bandido. Motivos como esse, levaram concursos públicos brasileiros a proibirem pessoas com tatuagem para a nomeação de cargos.

Na última quarta-feira (17), após o caso com um rapaz de São Paulo que havia passado em um concurso para bombeiro militar, ser impedido de assumir por conta de uma tatuagem tribal, a proibição foi discutida no STF (Supremo Tribunal Federal). Agora, ficou proibido que órgãos públicos excluam dos concursos seletivos candidatos que possuam tatuagens. Pela decisão, só poderá haver algum tipo de restrição caso o desenho expresse incitação à violência ou discriminação.     

 

 

Exclusividade sempre  

Flávio Tin/ND
Daniel Heil observa que hoje as pessoas têm mais repertório sobre a tatuagem e pedem algo mais exclusivo


O tatuador de Florianópolis Daniel Heil, 31, neto da artista plástica Eli Heil, é um dos participantes da competição de tatuagem. A prova será dividida entre 21 categorias, entre elas, realismo, tribal, pontilhismo, colorido, aquarela, preto e cinza, caligrafia, portrait, oriental, fechamento de membros, new traditional, comics piercing, biomecânico e cultura brasileira. Os prêmios variam desde máquinas, kits de tatuagem e stands para a próxima edição do evento, além do troféu. 

Na sexta-feira pela manhã já iniciavam os trabalhos de alguns profissionais e suas “cobaias”, como o caso de Thomas Dullius, 22, que estava fechando a coxa direita com a segunda tatuagem de sua vida, uma onça aquarelada para competir na categoria “cultura brasileira”. A tatuadora – uma das poucas mulheres no meio - é Carla Brum, 23, da Black Ink, de Florianópolis, que já participou das edições anteriores. Para ela, ao evento dá visibilidade a sua arte.

A especialidade de Daniel Heil são tatuagens orientais, pontilhismo e preto e cinza. Apesar de apenas dois anos de estúdio próprio e oito anos de carreira, ele já vê muita diferença em quem ia procurar um estúdio há alguns anos para quem vai agora. “Antigamente, o pessoal procurava a tattoo em uma pasta de desenhos, que artistas faziam e vendiam só o rabisco. Hoje as pessoas não são mais leigas, e entendem melhor o significado do que vão comprar e querem algo exclusivo”, afirma.

Daniel trabalha com mais três profissionais, e o que é bom deixar claro é que a nova geração de tatuadores/artistas se especializa em um tipo de tattoo, por isso, a dica é que quem quiser fazer uma tatuagem entenda o estilo que quer para só assim procurar um profissional capacitado. “Aqui no estúdio, por exemplo, nunca rolou uma borboleta”, brinca. 

Em seu espaço, na rua Deodoro, no Centro, o pontilhismo, as tattoos com rachuras, e o “old school” saem com mais frequência. Essa última, porém, apesar de parecer algo “tosco”, ganha uma nova roupagem com o talento dos tatuadores, vindo para o estilo neo tradicional, com cores, efeitos, luz e sombras, mantendo apenas o traço arcaico. 

Segundo Daniel, quem procura pontilhismo já no estilo indiano, mais delicado, nem sempre preenche todo o braço. As tribais de década de 1980 também ganharam um toque inovador, evoluindo para o estilo maori, até o maori com pontilhismo. A técnica do pontilhismo demora bem mais, porém, é menos dolorida. “Essa técnica é muito forte no litoral por conta do sol, porque dura mais tempo, assim como o tribal e o maori, pois duram mais que a sombreada, que tem menos pigmento”, sintetiza Daniel.  

Serviço 

O quê: 3ª Expo Tattoo Floripa
Quando: 19 a 21/8, das 13h às 22h
Onde: CentroSul, av. Governador Gustavo Richard, 850, Centro, Florianópolis
Quanto:  Um dia R$ 15 + 1 quilo de alimento não perecível (ingresso social) ou R$ 30 sem a contribuição |   Passaporte para os três dias R$ 30 + 1 quilo de alimento não perecível (ingresso social) ou R$ 60 sem alimento - Ingressos à venda somente no local nos dias do evento 

Programação

Sábado (20): Desfile de Lolitas | Guerreiro Poeta (Rapper) | Darci (Stand Up Comedy) | Banda Rock Family | Eleição da Miss Tattoo Floripa 2016 | Julgamento das categorias: colorido, aquarela, new school, new tradicional, comics, fusion, oriental e old school 

Domingo (21): Skan | Desfile de moda | Banda Fred Lee | Suspensão | Julgamento das categorias: tribal, pontilhismo,preto e cinza, realismo, portrait, piercing simetria, biomecânico, cultura brasileira e melhor do evento

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