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Sexta-Feira, 14 de Dezembro de 2018
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“Inês”, de Volmir Cordeiro, dispara identificações e questionamentos

Catarinense se apresentou na Capital no dia 17 de junho e deu uma oficina no dia 18

Redação ND
Florianópolis
Cristiano Prim/Divulgação/ND

Coreografia “Inês”, do bailarino de Concórdia que hoje mora na França


Anderson do Carmo
Bailarino do Grupo Cena 11 Cia. de Dança e mestrando em teatro na Udesc

Majestosa é como se pode nomear a chegada do bailarino ao Teatro Pe­dro Ivo. As cadeiras destinadas aos espectadores no palco, de frente para a plateia, direcionam o olhar para o cami­nho que todos recém tinham cruzado. Depois de uma explosão sonora de ritmos latinos, seguida de um breu completo, adentra pelo tradicional lugar do público – em marcha solene – a impo­nente figura. Já na cena, muito próximo das pes­soas, em pé, desafiador, Volmir Cordeiro olha cada um dos indivíduos que compõe a multidão-público e desata a falar de “Inês”.

Tão vigorosa quanto a primeira aparição den­tro do teatro é a chegada de Volmir no mundo da dança: de Concórdia para Florianópolis, de Florianópolis para o Rio de Janeiro, do Rio para a França e da França para o mundo. Com pas­sagens pelo Grupo Cena 11 Cia. de Dança e pela Lia Rodrigues Cia. de Danças, sua atuação como coreógrafo condensa de forma peculiar proble­mas bastante emaranhados na dança contempo­rânea. Técnica, conceitos, economia e mercado de arte, capital intelectual que centros universi­tários estruturam em torno da arte e – mais que tudo – a proposição coreográfica que cutuca em uma ferida aberta de nosso tempo: que lugar so­bra para o singular, para a subjetividade ou para qualquer diferencial num mundo guiado tão for­temente por e para imagens?

A “Inês” de quem se fala por quase uma hora, mas nunca se chega a ver, é aparentada de muitas figuras conhecidas: ela é prima daquela cantora que vive um romance tórrido atrás do outro e es­creve músicas de sucesso sobre desilusões amoro­sas, é irmã daquela jovem promessa do futebol que lucra milhões em propaganda e não faz gol algum no jogo decisivo, é filha daquele artista genial que se doa de corpo e alma para criar obras incríveis que ninguém entende e, no entanto, são aclama­das pela crítica especializada. “Inês” – neste cená­rio – poderia ser aquela moça de quem todos riram muito por ter mandado vídeos todos os anos para a seleção de cada uma das edições do reality show de maior audiência da TV aberta.

A “Inês” de quem tanto se fala e nunca se vê é uma imagem melancólica. Uma pessoa sem carne. Um autorretrato sorridente clicado para ganhar muitas “curtidas”. Antes de tudo, “Inês” é uma peça de dança difícil, não por se articular por meio de conceitos nebulosos acessíveis apenas a inicia­dos no pensamento contemporâneo, mas porque apresenta um recorte preciso e provocador sobre modos de estar no mundo já naturalizados e ra­ramente questionados. Coreografa-se uma obra de dança para gerar encontro entre artista e público ou para ler uma crítica favorável no jornal? Encon­tra-se os amigos para aplacar as saudades ou para ter uma foto cheia de sorrisos para ser admirada nas redes sociais? Dedica-se anos aos estudos aca­dêmicos para produzir conhecimento de alto pa­drão ou para escutar que é inteligente?

Os questionamentos, que poderiam conti­nuar por páginas a fio, cabem em uma afirma­ção: para existirmos, para de fato estarmos no mundo não bastaria viver tal experiência, seria necessário o reconhecimento e partilha do ou­tro. Um acontecimento só se concretiza quando visto, só sai da invisibilidade quando apontado, só é real quando deixa marcas.

A provocativa obra de Volmir “brinca com fogo” dos egos – tanto dele quanto dos que o assistem – mas não de modo gratuito e juvenil: os vários me­tros de tecido que simulam um ventre avantajado na esguia figura do bailarino, escondem em suas dobras incontáveis mundos a serem criados, como se aquele corpo estivesse grávido de futuro. O pa­lavrório, estranho numa obra de dança na percep­ção de alguns, põe em movimento uma série de certezas assentadas, desestabiliza um mundo de compreensões dadas a priori e deixa um vácuo de dúvida no passo que devemos dar a seguir. E não é essa a função de uma obra de arte?

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