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Quarta-Feira, 26 de Setembro de 2018
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“Aquarius”, de Kléber Mendonça Filho, chega a Gramado pós estreia explosiva em Cannes

Filme tem lançamento previsto para o 1º de setembro no Brasil, mas já teve uma pré-estreia em Recife no sábado (20), onde foi ovacionado

Redação ND
Florianópolis
Divulgação/ND
Sônia Braga interpreta Clara, mulher que resiste às investidas de uma construtora que quer derrubar o prédio onde mora para erguer outro no lugar

 

Edson Burg

Especial para o Plural

 

Quando “Aquarius” chegar aos cinemas brasileiros em 1º de setembro, algumas semanas após abrir o Festival de Cinema de Gramado, nesta sexta, dia 26/8, será difícil ele escapar da pecha de “filme político”. Não que este seja o tema do longa-metragem de Kléber Mendonça Filho – que até, metaforicamente, pode ser lido assim –, mas a manifestação feita pela equipe de produção em Cannes praticamente lhe criou um subtítulo. Para todos os efeitos, “Aquarius” é o filme contra o impeachment da presidente eleita Dilma Rousseff.

Tal efeito militante se confirmou alguns dias depois da exibição em Cannes, na sessão especial no cinema Gaumont Pathè, em Paris, da qual participei. Filme encerrado, o público, formado basicamente por brasileiros, é convidado a repetir a manifestação – alguns se negam e fazem questão de deixar claro o porquê, mas a maioria aceita participar. Talvez boa parte estivesse ali justamente para isso.

À parte as questões políticas, “Aquarius” merece muito ser visto mesmo por quem é contra o engajamento de sua equipe. Que seja para celebrar mais um acerto do diretor, já consagrado mundialmente pelo filme de estreia, “O Som ao Redor”, ou para prestigiar a atuação de Sônia Braga. Assim como qualquer ato político, “Aquarius” pode agradar ou não, mas é impossível ficar alheio à sua proposta.

Clara vive em seu mundo particular, cercada pelas lembranças de discos e livros espalhados no apartamento do Edifício Aquarius, último prédio de estilo antigo na praia de Boa Viagem, no Recife. A relação afetiva com o local, reforçada no flashback que abre o filme, é o argumento para Clara rejeitar as investidas da construtora responsável pelo “Novo Aquarius”, empreendimento que irá substituir a antiga edificação – a jornalista é a única a não vender seu apartamento, se tornando alvo dos avanços do jovem engenheiro Diego (Humberto Carrão).

A obstinação de Clara em manter o espaço é incompreendida até por seus filhos, mas o motivo de sua teimosia é dado justamente no flashback: para Clara valem as memórias, e o apartamento segue como seu último elo com um passado feliz.

Mas o assédio da construtora é apenas uma de suas obrigações de Clara: além da cobrança dos filhos e dos antigos moradores para que venda o apartamento, a personagem ainda busca pequenas motivações no cotidiano, aparentemente flertando com o salva-vidas local (Irandhir Santos), indo a bailes com as amigas e mantendo uma relação próxima com o neto, o único membro da família que parece compreende-la totalmente.

Este é o grande trunfo de “Aquarius”: mesmo ao construir Clara como mulher determinada, com uma história de superação pessoal e profissional, o filme não furta a personagem de decepções e do sentimento de solidão. Se em uma cena ela defende firmemente sua decisão mesmo com os ataques cada vez mais acintosos de Diego, em outra ela deixa a porta destrancada, esperançosa para que o amante retorne. Clara é uma figura anacrônica, que defende o valor das memórias, simbolizadas no local onde mora e no apreço por livros e vinis, mas rejeita o papel outrora único da mulher ser somente mãe e esposa, sem temer ser repreendida.

Não deixa de ser irônico, portanto, que justamente a única filha mulher (Maeve Jinkings) seja quem mais entre em confronto com Clara. É ela quem questiona o fato de a mãe ter se afastado da família durante alguns anos para se dedicar a um projeto profissional, afinal era sua “obrigação” cuidar dos filhos pequenos, como também é quem mais tenta forçar a protagonista a vender o apartamento.

“Aquarius”, paradoxalmente, tematiza afetos e confrontos. Por isso, faz sentido a manifestação no Festival de Cannes. Gesto fora de tom e desnecessário para muitos, mas bem de acordo com a reflexão proposta pelo longa-metragem: a defesa firme daquilo que julga ser de direito, mesmo estando em uma posição passível de questionamentos.

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