Publicidade
Sábado, 17 de Novembro de 2018
Descrição do tempo
  • 28º C
  • 21º C

Jovem surda protesta contra filmes sem legenda em cinema de São José: "não somos invisíveis"

Em mais um episódio de discriminação, Danielle Kraus Machado não pôde assistir a filmes na rede Cinépolis, que não disponibilizou versões legendadas

Karin Barros, Beatriz Carrasco
Florianópolis

O que deveria ser um passeio agradável ao cinema, se tornou mais um episódio de discriminação e sentimento de impotência para Danielle Kraus Machado, de 20 anos. Estudante de engenharia elétrica no IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina), no domingo (24) a jovem foi ao Continente Shopping, em São José, com a intenção de assistir às animações A Era do Gelo ou Procurando Dory, na rede Cinépolis.

Facebook/Reprodução/ND
Danielle tem deficiência auditiva nos dois ouvidos

 

Danielle, no entanto, tem deficiência auditiva moderada e progressiva nos dois ouvidos, por isso precisa de legendas. Como só havia opções dubladas dos dois lançamentos, mais uma vez a jovem teve que ir embora sem assistir aos filmes. “É bem comum eu desistir de ver algum filme pela falta de legenda, ou ter que ir em um cinema mais longe porque o mais perto não disponibiliza legendado”, relatou a estudante.

Ao constatar que não havia versões legendadas, a jovem procurou a gerência do Cinépolis, que alegou que ela deveria "procurar seus direitos", pois não poderiam fazer nada, já que é a distribuidora quem disponibiliza as opções. “Eles não foram mal educados, mas dava pra notar a falta de interesse em dar a acessibilidade e as informações sobre quem seria o responsável pela programação”, disse Danielle, ao contar que em outros cinemas já chegaram a prometer que conseguiriam um filme legendado, mas quando ela retornou, a promessa não havia sido cumprida.

Facebook/Reprodução/ND
Jovem procurou gerência da rede de cinemas, que afirmou que a culpa é da distribuidora

 

Cansada de ser impedida do simples ato de ir ao cinema, Danielle resolveu fazer diferente desta vez. Ela levantou cartazes de protesto em frente ao cinema, com frases como “Este cinema não respeita os surdos”, “Legenda para quem não ouve é lei” e “Pessoas com deficiência existem”. Além disso, ela tirou fotos da manifestação e publicou nas redes sociais. Em apenas um dia, a publicação principal já tinha mais de 23 mil curtidas e 21 mil compartilhamentos.

“É muito revoltante. Tão revoltante quanto ver um cadeirante não ter rampa de acesso, ou um cego não ter calçada acessível. Negar algo, como informação, entretenimento ou qualquer atendimento por não dar acessibilidade, é o que faz com que pessoas com deficiência se sintam invisíveis”, destacou a estudante.

O artigo 28 do Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015) deixa claro: “A pessoa com deficiência tem direito à cultura, esporte, turismo e lazer em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, sendo-lhe garantido o acesso a bens culturais, programas de televisão, cinema, teatro e outras atividades culturais e desportivas”.

Facebook/Reprodução/ND
Danielle relatou que sempre tem problemas nos cinemas

 

União para garantir direitos

Após mais um episódio de descaso, Danielle decidiu processar a rede de cinemas. Segundo ela, o primeiro passo é registrar o boletim de ocorrência. “Com ele em mãos, vou ao Ministério Público, defensoria pública ou juizado de pequenas causas”, disse a jovem, ao frisar que o objetivo principal não é a indenização, embora seja um direito de todos que já passaram por esse tipo de situação. “É principalmente poder ir ao cinema mais perto e assistir qualquer filme, como todos os outros podem fazer”, disse.

Além de acionar a Justiça, Danielle criou no Facebook o grupo "Luta pelos Direitos das Pessoas com Deficiência - Florianópolis e região", como forma de trocar informações e organizar ações. “Criei o grupo pois não conhecia muita gente como eu ou envolvida na causa. No grupo pretendemos colocar relatos, informações sobre acessibilidade, e se possível marcar encontros em outros cinemas, fazer campanhas maiores”, disse ela, que pretende fiscalizar outros cinemas da região.

A reportagem entrou em contato com a rede Cinépolis, em São Paulo, que afirmou que o assunto deve ser resolvido com a área de operações. Até a publicação desta matéria, o setor não havia retornado para se posicionar sobre o ocorrido.

Facebook/Reprodução/ND
Estudante criou grupo para unir pessoas na luta pelos direitos das pessoas com deficiências

 

Publicidade

1 Comentário

Publicidade
Publicidade