Publicidade
Sábado, 22 de Setembro de 2018
Descrição do tempo
  • 27º C
  • 18º C

Jovem empreendedor Gustavo do Valle Pereira conta a trajetória ascendente da Decora

Empresa catarinense foi vendida por US$ 100 milhões, a maior operação de uma startup no Estado

Por Janine Alves, especial para a Inspira
Florianópolis
20/04/2018 às 20H05

A Decora é uma empresa fundada em Florianópolis, especializada na criação de cenários de decoração em 3D. Até o dia 15 de março de 2018 era apenas mais uma entre tantas outras empresas do dinâmico ecossistema de tecnologia catarinense, porém tomou conta dos principais meios de comunicação do país ao ser vendida para a americana CreativeDrive, companhia global de criação de conteúdo para moda e decoração dos Estados Unidos, por mais de US$ 100 milhões, o equivalente a R$ 340 milhões. Sim, esse é literalmente o resultado de um experimento de mercado que durou de 2012 a 2016, se consolidou em 2017 e decolou em 2018 como o maior valor de venda de uma startup catarinense. Por trás desse sucesso, está Gustavo do Valle Pereira, cofundador e CEO da Decora.

 

Gustavo do Valle Pereira ainda cursava administração quando abriu a Decora com um sócio. A empresa alcançou o maior valor de venda de uma startup catarinense - Marco Santiago/ND
Gustavo do Valle Pereira ainda cursava administração quando abriu a Decora com um sócio. A empresa alcançou o maior valor de venda de uma startup catarinense - Marco Santiago/ND



O sonho de muita gente é ganhar o primeiro milhão antes dos 30 anos, mas em tempos acelerados pela tecnologia este sonho pode chegar antes e multiplicado por um modelo de negócio bem-sucedido. A história de hoje começa com um case em que a realidade ousou ser maior que o sonho de um jovem de 20 anos que decidiu ser empreendedor, mesmo antes de definir o ramo em que atuaria. Gustavo do Valle Pereira tem a mesma determinação de quando começou a pesquisar as possibilidades de negócio ainda durante a graduação no curso de administração na Esag/Udesc em Florianópolis. A ideia inicial foi descobrir um setor que carecia de inovação e ali fazer as suas apostas. Assim descobriu o setor de decoração e fundou a Decora em 2012 em parceria com um amigo que também estudava na Esag.

Entrevista – Gustavo do Valle Pereira

Como surgiu a ideia de criar uma empresa?

Há seis anos nós estávamos na quarta fase da Esag e a gente queria empreender rápido para falir rápido e aprender com os erros. Eu e o Paulo tínhamos o desejo de empreender. Eu tinha voltado de um curso no Canadá, ele dos Estados Unidos. Nós éramos muito novos e não sabíamos por onde começar. Não tínhamos ideia de mercado, de empresa, mas queríamos fazer algo com tecnologia e em um mercado que não tivesse nada de inovador na internet.  Fomos pesquisando sobre os mercados, quais eram mais interessantes, quais que não tinham inovação e achamos o mercado de decoração. Vimos que era um mercado que tinha crescido mais de 500% em 10 anos. Começamos a ler, pesquisar sobre o mercado de tecnologia que estava começando a crescer aqui no Brasil, ainda não era algo tão disseminado como agora. Procuramos ajuda em uma incubadora de empresas e começamos a desenvolver algumas ideias.

 

Qual foi o grande desafio para iniciar um projeto?

Nós começamos com pouco dinheiro e sempre fazendo testes no mercado, primeiro com um projeto de decoração e uma rede de arquitetos on-line. De um lado, 100 a 200 arquitetos on-line espalhados pelo país inteiro e, do outro, os clientes que queriam um projeto de decoração barato. A ideia era democratizar o projeto de decoração. Por exemplo, um arquiteto de Manaus poderia fazer um projeto para um cliente de Porto Alegre. Começamos a testar no mercado entre 2012 e 2013, logo ganhamos um prêmio de design de inovação. Muita gente começou a se interessar pela startup, mas nós não tínhamos nem o projeto mínimo. Tínhamos os arquitetos, o site e a frase 'compre seu projeto de decoração por 500 reais', então o cliente fazia o briefing do que ele queria, mas na hora do pagamento não havia essa opção no site. Então nós pegávamos o telefone para conversar com o cliente. Começamos a recolher feedback dos clientes e dos arquitetos.  Ligamos para mais de 300 pessoas e criamos nossa plataforma. No começo tivemos muita dificuldade. As pessoas que faziam o projeto adoravam, mas nós fazíamos pouco - só uns 15 a 20 por mês - e ficávamos com uma pequena parte da receita, isso não sustentava a empresa.

 

E como surgiu a ideia do modelo de negócio que revolucionou Decora?

Percebemos que os arquitetos colocavam móveis de várias empresas nos projetos. Para decorar a cozinha colocavam geladeira da Magazine Luiza, micro-ondas das Casas Bahia. E a gente viu que estávamos fazendo publicidade de graça para estas empresas sem ganhar nada com isso. Então pensei nas parcerias. No final de 2013 fomos conversar com eles e deu super certo. Nesse momento pensamos que a empresa iria decolar, porque teríamos a credibilidade do Magazine Luiza, Casas Bahia, Ponto Frio, Walmart. O que faltava para gente eram volume e credibilidade e poxa 'isso esses caras tem'. Começou a vir bastante volume, mas na época as pessoas não tinham noção do que é um projeto de decoração e achavam R$ 500 muito caro e que, por esse preço, vinha a TV junto, o tapete, a geladeira, mas era só um projeto em 3D. Como a gente estava junto destes grandes varejistas percebemos que eles tinham as mesmas dores. Eles tinham muitos fornecedores e recebiam fotos, mas a foto vinha da China pelo celular, com pouca qualidade e essa imagem é que estava no site deles. Isso era um problema para o varejista, porque era muito caro e demorado enviar um produto para o estúdio para produzir a foto. Então surgiu a ideia de ajudar o varejista a ambientar estas fotos das mercadorias, não da forma tradicional, mas em CDI - que é a imagem computadorizada em 3D. Quando começamos a fazer isso, não apenas melhorou a imagem, como também começou a vender mais e aumentava o ticket. Qual a diferença: um cliente nosso faz 500 cenas por ano, hoje nós estamos fazendo para ele 1000 cenas por dia. Uma diferença brutal. Nós fazemos o trabalho em escala muito maior e a um custo muito mais barato.

 

E como a empresa decolou?

Em 2015 fomos para o mercado internacional. Aqui estava em crise e lá o mercado estava muito maior e o mercado de imagens computadorizadas estava mais desenvolvido. E lá a gente se deu muito bem, porque o custo era em real e a receita em dólar, e assim aumentamos muito a nossa margem e começamos a crescer bastante. No começo do ano passado a gente tinha só 20 pessoas, pulamos no final do ano para 120 e mais uns 500 designers espalhados pelo mundo inteiro.

 

E como funciona a Decora hoje?

Nós temos uma rede de freelancer espalhada pelo mundo. Eles entram na plataforma, separam uma foto, trabalham a foto em 3D e quando está tudo pronto, nós fazemos o pagamento. E colocamos esse produto numa cena. Os nossos arquitetos fazem esse trabalho aqui dentro. Basicamente, a Decora ambienta produtos para os grandes varejistas, para grandes marcas, visando melhorar a experiência do consumidor, seja on-line ou por catálogo, e assim diminuir o custo.

 

E por que houve o interesse da compra?

Fomos comprados porque CreativeDrive é um grande grupo de fotografia e de conteúdo e obviamente eles veem ameaça nesse setor de imagem computadorizada e a gente já estava roubando alguns clientes deles. Então fez mais sentido ter a empresa como parceira e como dono disso do que competindo. E para gente também, porque a fotografia também têm muitas coisas que não são substituíveis.

 

E para o futuro?

Nós queremos entrar no mercado fashion e quem sabe contratar uma modelo como a Gisele Bundchen para uma sessão de fotos e depois usar a imagem com outras roupas ao longo do tempo. Ela também receberia por isso, mas nós teríamos um custo muito menor.

 

E uma dica para quem quer empreender?

O empreendedor tem que ter muita resiliência, ainda mais em empresa de tecnologia, por que é uma montanha russa. No mesmo dia você pode fechar um contrato, perder outro, pode surgir uma tecnologia nova na Índia, na China e ser muito mais competitiva. Fora que empreender no Brasil é muito arriscado. Economia em crise, risco trabalhista, tributário e a gente tem que encarar tudo isso investindo e acreditando na empresa. De 2012 a 2016 só colocamos dinheiro, sem realmente tirar nada, porque a gente acreditava que aquele investimento iria gerar um resultado maior.

 

SOBRE A EMPRESA

A Decora, criada em Florianópolis, é uma startup de tecnologia que utiliza recursos de computação gráfica e realidade aumentada e visualização 3D para criar, em escala, imagens digitais de cenários e ambientes de decoração para varejistas digitais. Fundada em 2012 por então dois estudantes de administração, a empresa tem uma equipe multidisciplinar como artistas, desenvolvedores, designers que, com apoio de uma comunidade global de profissionais, produz mensalmente mais de 15 mil modelos de produtos 3D e 7.000 ambientes digitais, para operações de e-commerce nos Estados Unidos e América Latina.

A Decora atende mais de 30 clientes. Hoje, são 120 colaboradores - um crescimento de 600% em relação ao início de 2017, quando eram 20 funcionários. A startup está presente em países como Rússia, Índia, EUA e Brasil. Somente nos EUA, a empresa cresceu mais de 600% no ano passado. Ainda de acordo com o Gustavo, a Decora espera aumentar o quadro de colaboradores para 200 pessoas e ampliar em 200% o faturamento em 2018.

Publicidade

1 Comentário

Publicidade
Publicidade