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Isabel Baggio conta como transformou um banco em case de empreendedorismo inclusivo

Instituição financeira sem fins lucrativos, o Banco da Família inspirou o Juro Zero e transformou a vida de muitas pessoas com o microcrédito

Janine Alves, especial para a Inspira
Florianópolis
31/08/2018 às 17H18
Em 20 anos, banco emprestou mais de R$ 500 milhões para pequenos negócios formais e informais e reformas de casa, destaca Isabel - Jonatan Costa/Divulgação/nD
Em 20 anos, banco emprestou mais de R$ 500 milhões para pequenos negócios formais e informais e reformas de casa, destaca Isabel - Jonatan Costa/Divulgação/nD



Algum dia você imaginou que pudesse existir uma instituição financeira sem fins lucrativos? Pois então, existe um Banco que tem sede em Lages, mas atende microempreendores nos três Estados do Sul.

O Banco da Família é referência na América Latina para o empreendedorismo inclusivo e referência internacional em microcrédito. Uma história que teve início em 1998 como Banco da Mulher, foi uma iniciativa da Câmara da Mulher Empresária, da Associação Comercial e Industrial de Lages criado com a missão se ser uma alternativa de crédito aos pequenos negócios, formais e informais, de forma simplificada e eficiente – buscando ampliar e melhorar os pequenos negócios de modo que contribuíssem com o desenvolvimento regional. Foi assim que preencheu uma lacuna na oferta de crédito para impulsionar o empreendedorismo na região de Lages (SC), onde 98% dos negócios eram de micro ou pequenas empresas. Em 2003, diante de novas exigências e necessidades, visando aumentar a sua abrangência, a instituição mudou e ampliou, passando a usar o nome atual.

Os pequenos negócios gerados a partir da atuação do Banco da Família crescem e melhoram a qualidade de vida das famílias empreendedoras e da comunidade em seu entorno.  Aí é que está o grande benefício: quando um empreendedor cresce, ele ajuda a comunidade inteira a prosperar. Começam a surgir outros empreendedores, que geram mais empregos e melhoram a qualidade de vida no seu entorno. E o processo conta com a prospecção dos funcionários do banco que percorrem os bairros em busca dos negócios feitos no “quintal de casa” e que precisam de uma forcinha financeira e de dicas de gestão para prosperar.

Para entender este universo impar, Isabel Baggio, presidente do Banco da Família, concedeu uma entrevista exclusiva sobre a trajetória da instituição e a sua própria, pois as duas se juntam na mesma missão: levar o microcrédito a quem não tem acesso ao sistema financeiro tradicional. Durante a entrevista, Isabel também falou sobre o financiamento de casas de madeira, sem burocracia, que ajudou a tirar as famílias do aluguel em poucos dias. Isso tudo devido à parceria com construtores de casas pré-fabricadas que montam um projeto em apenas 15 dias.

O Banco da Família é uma instituição de microfinanças, formada por uma associação, registrada como OSCIP (Organização da Sociedade Civil e Interesse Público) tem seu funcionamento autorizado e regulamentado pelo Ministério da Justiça através da Lei n.º 9.790. Em 20 anos concedeu cerca de R$ 500 milhões de crédito, impulsionando os negócios de mais de 250 mil empreendedores, em 70 municípios.

Confira a entrevista:

Qual a origem do Banco da Família?

Eu era vice-presidente da Associação Comercial de Lages, me elegi como a primeira presidente da associação. Neste período Lages passava por uma recessão econômica muito forte e a atuação da prefeitura era muito rasa. Então nós empresários buscamos uma alternativa para amenizar os impactos do que estava acontecendo. Na época existia o Proder Consenso, que era uma pesquisa em micro e pequenas empresas aplicada pelo Sebrae nos municípios para detectar os problemas e saber aonde estava essa gente. Saiu o resultado para Lages: 98% das empresas eram micro e pequenas, mas a maioria informal. Um dia tivemos uma reunião das mulheres empresárias em Concórdia com a participação da presidente do Banco da Mulher de Porto Alegre e assim surgiu a ideia para criar o Banco da Mulher - para atender as empreendedoras domésticas - que depois deu origem ao Banco da Família.

Como começou o processo de capitalização do Banco?

Nós participamos de uma missão da Facisc e fomos à Alemanha. Lá conhecemos a Fundação Empreender, que alia educação profissional, legalização do negócio, formação do empreendedor e crédito. Na Itália vimos a mesma coisa. Trouxemos todas as informações, chegamos ao Brasil e fomos ao Sebrae e ao BNDES.  O BNDES nos disse: “a cada real que vocês captarem, nós emprestamos dois”. Aí fomos pedir dinheiro nas empresas. Nós apresentávamos o projeto que tinha por objetivo emprestar dinheiro para microempresas informais, que não tinham acesso ao crédito e não conseguiam financiamento para crescer. Os empresários que entendiam a proposta faziam uma doação, outros achavam o projeto “louco”. Os empresários que doaram para capitalizar o banco entendiam que financiar os pequenos iria movimentar a economia, mais pessoas poderiam andar de ônibus e movimentar o comércio, mesmo assim começamos com pouco. Com doações de 200 a no máximo R$ 10 mil, juntamos o dinheiro e fomos ao BNDES e ao Governo do Estado. Nós juntamos R$ 200 mil e conseguimos R$ 1 milhão, ou seja, começamos com uma dívida de um milhão. Nesse momento nós ocupávamos uma sala de seis metros quadrados emprestada da Associação Comercial.

O microcrédito é uma espécie de revolução silenciosa?

O microcrédito existe no país e no mundo inteiro, mas pouca gente conhece as transformações que o microcrédito está fazendo nas comunidades. Eu já estou há 20 anos trabalhando com isso. Nós trabalhamos com pessoas que entendem que nós não somos uma ilha, que existe uma conexão e por isso funciona tão bem.

Qual a importância dos agentes de crédito para o Banco da Família?

Nós temos 80 agentes de crédito. São pessoas que saem para fazer a captação dos negócios. São pessoas que andam pelos bairros procurando quem tem um negócio. Como geralmente são negócios informais, são identificados apenas com uma placa: aqui tem uma cabeleira, uma costureira, alguém que faz pães, são pessoas que estão dentro das suas casas trabalhando. Estes agentes identificam negócio, propõem o financiamento e dão suporte para a gestão. Estes agentes são treinados para isso.

O microcrédito existe no país e no mundo inteiro, mas pouca gente conhece as transformações que o microcrédito está fazendo nas comunidades. 

Quais os critérios de sustentabilidade do modelo de negócio, tendo em vista que para funcionar o Banco da Família precisa de 

estrutura, além do pagamento dos funcionários?

Se o projeto é encantador pelo lado social, pelo lado da gestão é impecável. Nós investimentos permanentemente na gestão, com o acompanhamento de auditorias, de regimentos internos, processos operacionais. Nós temos um produto social, com viabilidade econômica e justa. Nós cobramos juros que variam de acordo com o risco do negócio, mas que chegam no máximo a 4% ao mês. O valor médio dos empréstimos é de R$ 3.600 – nós fazemos empréstimos de R$ 500 a R$ 11 mil.

Por que vocês começaram a financiar casas?

Nós fomos descobrindo ao longo dos anos que aquela pessoa que tinha um negócio em casa precisava no mínimo fazer uma reforma, porque ela iria precisar de mais uma sala ou mais um quarto para ser ocupado pelo negócio. Então surgiu o produto ‘reforma de casa’ logo em seguida ao microcrédito, neste caso fomos os primeiros a adotar este novo produto e tivemos que explicar muito o porquê disso. Depois quebramos outro paradigma: começamos a financiar casa de madeira com recursos próprios e sem apoio de ninguém; no Brasil não há tradição para financiar casa de madeira. Hoje nós temos mais de 30 fornecedores de casa de madeira pré-fabricada em todos os locais em que estamos. A casa é financiada em 48 meses e fica pronta em 15 dias, a pessoa paga de R$ 200 a R$ 500 por mês de prestação - mais ou menos o que ela pagaria de aluguel. Também não precisa apresentar escritura do imóvel, até porque há muitos casos de terreno compartilhado com a família.

Qual a avaliação dessas duas décadas de trabalho?

Nós estamos completando 20 anos, já emprestamos mais de R$ 500 milhões, de 270 mil empréstimos concedidos, muita gente beneficiou. O banco emprega hoje 147 pessoas. Iniciamos a operação em Lages, expandimos para a microrregião, depois fomos para Vacaria, Caxias do Sul, meio Oeste Catarinense e há dois meses abrimos nossa primeira operação no Paraná, agora operamos nos três Estados do Sul. A nossa meta agora é atender ao máximo de pessoas que nós conseguirmos nos três Estados do Sul, por isso a ampliação das operações em direção ao Paraná.

 

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